Voluntariado Missionário, uma Missão para a Vida

27 Jul, 2017

ENTREVISTA COM EUGÉNIO FONSECA, PRESIDENTE DA CONFEDERAÇÃO PORTUGUESA DE VOLUNTARIADO

Eugénio Fonseca | @ Cáritas Portuguesa

Este mês de julho estão de partida de Portugal muitos voluntários missionários rumo a África, à América do Sul, à América Central, à Ásia e à Europa, para participarem em variados projetos, em particular na área da Educação e da Formação. Esta edição da e-NCONTROS é dedicada e estes leigos e leigas que decidem entregar-se a missões, de curta a longa duração, de cooperação ou evangelização com a Igreja Católica. Eugénio Fonseca, presidente da Confederação Portuguesa de Voluntariado e da Cáritas Portuguesa, fala-nos, neste contexto, de dádiva. Um dom que em missão pelo mundo transcende qualquer barreira que nos defina ou limite, devendo-se para tal evitar cair nas armadilhas “do paternalismo e da dependência” e de se viver uma viagem deste foro como “terapia”. A perseverança foi o segredo de Eugénio Fonseca “para o ‘ser voluntário’ se tornar um modo de vida”.

e-NCONTROS: Baseando-se na sua experiência pessoal e profissional, o que é “ser voluntário”?

Benção de casa entregue a família no Siri Lanka

Benção de casa entregue a família no Siri Lanka @ Cáritas Portuguesa

Eugénio Fonseca – A vivência pessoal e profissional pode influenciar a forma como se assume o ser voluntário. Todavia, essa condição tem uma essência que a determina. Na minha opinião, o essencial é tornar-se dom, ou seja, dádiva para alguém e/ou em favor de alguma causa nobre. Sem gratuidade não se é voluntário. Sobre esta minha convicção, da qual não abdico, não há consenso. Não há convergência sobre o conceito de gratuidade, porque há quem o associe a um estado de espírito, confundindo gratuidade com dedicação. Ser voluntário é uma prática de cidadania que não pressupõe alguma recompensa de ordem material. Ou seja, o adágio popular que afirma “não haver almoços grátis”, jamais se pode aplicar ao autêntico voluntário. Aliás, este ditado é um ultraje a muitas portuguesas e portugueses que muito dão de si próprios e muitas vezes, também, dos seus bens para conseguirem ser úteis a alguém. O voluntariado aprende-se, é certo, mas há uma determinada predisposição que está inscrita no mais íntimo de cada pessoa. Essa é a minha experiência pessoal. Foram valores transmitidos pela família e pela fé cristã que, em muito, contribuíram para me sentir feliz em dar-me aos outros. Desde bem pequeno que integro grupos de voluntariado. A perseverança foi o segredo para o “ser voluntário” se tornar um modo de vida. Por isso, para esta forma de ser, não se pode aguardar pela idade da reforma, mas assumi-la em todas as fases da vida, até naquelas que são as mais débeis da existência. Só assim se poderá falar de experiência de voluntariado em contexto profissional. Porém, há que saber distinguir entre trabalho assalariado e o que é realizado a título de voluntariado. A dedicação e a construção do bem comum têm que ser as mesmas nas duas situações. A motivação é diferente para o exercício de uma profissão e não se pode pedir gratuidade a um profissional. Pelo contrário, sempre que se substitui um posto de trabalho assalariado com tarefas efetuadas por voluntários, comete-se um crime. Na minha vida profissional procuro dedicar-me, em tudo o que estiver ao meu alcance, às tarefas que foram contratualizadas comigo. Nessa qualidade não poderei invocar o estatuto de voluntário, mas considerar-me, apenas e só, como um trabalhador consciente. Aceder a meios financeiros para proporcionar à minha família uma vida digna é uma das legítimas motivações. Não esqueço, ainda, que, com o meu trabalho, também coopero para o bem de todos os meus concidadãos. Em suma, através dos valores humanos e cristãos que me foram transmitidos e no modo como tento assumir os meus deveres profissionais procuro dar credibilidade ao exercício da minha cidadania, cuja expressão mais relevante está na prática do voluntariado.

e-NCONTROS: Qual o significado do voluntariado missionário na Igreja em Portugal e na sociedade portuguesa?

Projeto de apoio a criação do próprio emprego no Siri Lanka

Projeto de apoio a criação do próprio emprego no Siri Lanka | @ Cáritas Portuguesa

E.F. – Estou a pensar em leigos e leigas, jovens e adultos que, num testemunho de generosidade inexcedível, interrompem o seu percurso profissional ou adiam a entrada no mundo do trabalho remunerado, para partirem para terras longínquas, com o ideal de se darem aos mais pobres dos pobres. Porém, há que nunca esquecer esse enorme exército de mulheres e homens que nada interromperam nem adiaram, mas se entregaram definitivamente para levar vida, e “vida em abundância” (Cfr Jo 10,10), onde a morte física e a da dignidade dos seres humanos são as realidades mais certas da existência de biliões de pessoas. Sei que, no âmbito em que se situa o conceito de voluntariado, há quem julgue ser forçada a atribuição desse estatuto neste tipo de opções que são, na verdade, muito especiais. Mas essa especificidade advém da radicalidade do dom, ao qual me referi, há pouco. Nas abordagens que se têm vindo a fazer para se consensualizar uma definição de voluntariado, será bom não esquecer de refletir também sobre esta peculiaridade.

Voltando à pergunta: ninguém que conheça, minimamente, a ação que tem sido desenvolvida pelo voluntariado missionário pode ignorar a alta relevância que a mesma tem para a sociedade portuguesa e para a Igreja que está no nosso país. Só por preconceito ideológico, má vontade ou desonestidade intelectual se poderá negar o alto significado deste renovado dinamismo da vivência do voluntariado. Talvez alguns preconceitos possam estar associados à palavra “missionário”, muito conotada com interesses e práticas religiosas. Se consultarmos qualquer dicionário, esta visão é a que mais aparece, mas também há outra que aponta para a ideia de uma “pessoa incumbida de uma tarefa ou encargo”. É óbvio que o missionário voluntário terá uma motivação diferente de uma outra qualquer. Parte impulsionado por ideias em que acredita. Mas isso também se passa com outro qualquer tipo de motivação. O que não se pede, nem tal deve acontecer, é que estes voluntários partam para fazer proselitismo de qualquer natureza (DCE 31 c; EG 14). O grande significado da missão destes voluntários não está aí, porque não existe. Está, sim, para a Igreja na oportunidade que lhe dão de dar “razões da sua esperança” (Cfr.1 Pedro 3,15) e fidelidade à fé que professa e celebra. É uma evidência da recomendação de Jesus Cristo: “Nisso reconhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,35). Como é normal, contribuindo para a elevação da dignidade de cada pessoa, também se está a potenciar a sua dimensão espiritual – que pode não ser religiosa – e aí radica a tal “vida em abundância”. Para a sociedade portuguesa, este crescente voluntariado missionário tem-lhe permitido retomar parte da força perdida que tanto marcou Portugal, em tempos idos, e que é a sua genética dimensão universalista. Por outro lado, com o contributo destes homens e mulheres, o nosso país tem conseguido, – apesar de ainda ter muito a fazer – manter a língua portuguesa em todos os continentes e dar contributos interessantes para o desenvolvimento de países mais pobres do que o nosso, sobretudo nos domínios da educação, da saúde, da salubridade, e no combate à pobreza extrema.

e-NCONTROS: Quais os grandes desafios com que se deparam os voluntários que partem em missão?

Encontro com responsáveis da Cáritas no Haiti @ Cáritas Portuguesa

Encontro com responsáveis da Cáritas no Haiti
@ Cáritas Portuguesa

E.F. – O grande desafio, na minha ótica, é fazerem com que muitos mais queiram seguir pelo caminho que eles escolheram trilhar. São, cada vez mais, mas muitos mais continuam a ser necessários. As razões dessa necessidade são, facilmente, percetíveis. Como atrair mais gente? Dando alegre testemunho da importância do seu trabalho para que provoquem a admiração pelo seu trabalho. Este é o primeiro passo, segundo o Beato Paulo VI, para se levar a Boa Notícia a toda a gente. Procurem, com a sua ação, tornar evidente que é possível criar desenvolvimento verdadeiramente humano, centrando-se nas pessoas, nas suas angústias e esperanças. Assumirem como missão preferencial ajudar toda a gente, em particular os cristãos e as comunidades que integram, a compreenderem que está ao nosso alcance a prática de uma nova globalização alicerçada na convicção de que somos “uma só família humana”. Serem artífices de um genuíno diálogo entre culturas, evitando o perigo de uma “colonização cultural e religiosa”. Onde estiverem, procurem comungar, o melhor que conseguirem, da vida das pessoas que encontrarem, dando-lhes voz em tudo e nunca substituindo ninguém, vencendo o perigo do paternalismo e da dependência. Por último, cuidem de não deixarem desvirtuar a identidade do voluntariado missionário, tornando-o numa possibilidade de resolver problemas pessoais que jamais podem ter solução em qualquer tipo de fuga.

e-NCONTROS: Que conselhos daria, nesse sentido, aos voluntários que estão de partida nesta viagem, tanto interior como por realidades complexas?

E.F. – Inicio a resposta a esta pergunta como terminei a anterior: que ninguém se lance num projeto que visa dar sentido a vidas sofridas, por injustiças várias, e levar esperança a povos esquecidos pelo designado “Primeiro Mundo” (?) para resolver problemas de ordem pessoal, originados por questões nunca ou mal resolvidas. Não se conseguirá ser missionário nestas condições, porque é impossível ser portador de boas notícias quando tudo ou parte de nós está carregado de negatividades. Nestas condições pessoais é imprudente partir para terra estranha, onde predominam paradoxos revoltantes de toda a ordem; onde se encontram culturas diferentes da nossa, às quais há que fazer aproximações para que se quebrem desconfianças normais de quem nunca se viu e cujos hábitos de vida são diferentes; onde há conflitualidades internas e externas de ordem política e até bélicas; e muitas outras fragilidades… O voluntariado missionário não pode ser encarado como forma de fazer qualquer terapia própria.

Sugiro, por isso, que quem desejar partir não o faça enquanto não tiver possibilidades de levar na bagagem uma vontade determinada de cuidar dos outros; um otimismo capaz de vencer fatalismos; uma força interior capaz de enfrentar dificuldades inesperadas; uma esperança tão realista que combata desânimos; uma disponibilidade para partilhar o que se é e o que consegue para minorar as carências de ordem material e espiritual; uma confiança em si mesmo que seja capaz de a fazer germinar em quem já está fatigado de tantas promessas; uma capacidade de se compadecer, sem cair em infantilismos; uma dose de fantasia que permita tocar tudo e recriar o que for necessário renovar.

Se, dentro da “bagagem” de quem parte, forem as suas próprias preocupações, então é melhor não partir e cuidar-se primeiro, para conseguir ser mensageiro de notícias que geram felicidade a quem são dadas e faz feliz a quem as dá.

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