Alice Vieira: há sempre qualquer coisa para matar a leitura. E ela vai continuando

8 Ago, 2018

“HÁ SEMPRE QUALQUER COISA PARA MATAR A LEITURA. E ELA VAI CONTINUANDO”

Entrevista com Alice Vieira, escritora e jornalista

Para Alice Vieira não há tempo para estar parada. A escritora percorre escolas, participa em encontros e é reconhecida e acarinhada pelos seus leitores há diferentes gerações. Nesta entrevista à e-NCONTROS, conta-nos acerca do seu quarto livro de poesia e da biografia da Condessa de Ségur, que em breve nos dará a conhecer. Acredita na importância de as crianças ouvirem histórias desde pequenas, habituando-se aos seus sons, e no facto de, ao longo da vida, todos precisarmos de histórias. Independentemente de o suporte ser papel ou digital, essas histórias vão continuar a ajudar-nos a “reagir à vida”. E, quanto aos jovens, para quem as palavras ajudam a moldar a identidade, será preciso saber ir ao encontro da sua sede de novidade por algo tão antigo e comum como “os sentimentos”.

 

e-NCONTROS – Encontramo-la entre viagens, acaba de publicar mais um livro, sempre com uma agenda ocupada. O que anda a fazer?

Alice Vieira – Eu trabalho muito. Esse livro de poesia foi escrito há meses [Olha-Me Como Quem Chove, Ed. Dom Quixote, março de 2018]. É para adultos, como todos os meus livros de poesia são para adultos. E é uma coisa completamente diferente de tudo o mais que eu faço. Eu digo sempre que se eu tivesse pensado bem tinha usado, nem era um pseudónimo, era um heterónimo – porque aquilo é tão diferente do resto. E depois viajo muito. Para já porque tenho netos que estudam fora. Depois, porque tenho muitos convites para encontros, mesas redondas, portanto, este último onde eu estive foi em Colónia [Alemanha]. Era sobre literatura infantil e ilustração e correu muito bem. E depois tenho as idas a escolas. Eu vou praticamente todos os dias a uma escola diferente. E quando as escolas são perto de Lisboa, vá lá que não vá… Às vezes vou muito às escolas no norte, perto do Porto, e aí dá-me mais jeito ficar no Porto, pois posso ir mais facilmente à Maia, Valongo, por aí fora. E isso faço muitas vezes. Portanto, eu conheço muito bem o país e ando sempre de um lado para o outro. Ando sempre com a minha agenda e, quando me dizem qualquer coisa, a primeira coisa que eu digo é “espere aí, deixe olhar para a minha agenda!”

Eu já devia ter descansado um bocado… mas também, se descanso muito, se eu fico sem nada para fazer, é pior. Portanto, vou continuando. Agora, neste momento, estou a fazer uma biografia da Condesa de Ségur, que era uma mulher extraordinária. Já fiz a pesquisa toda. Estive em Paris na Associação dos Amigos da Condessa e agora só falta escrever. Veja, eu trabalho num grupo – o Grupo Leya – que tem várias chancelas e eu trabalho para as chancelas todas, portanto eu tenho sempre muito que fazer. Porque é que eu continuo nisto? Quando eu penso em descansar acontece qualquer coisa que me faz querer continuar. Aqui há dias apareceu uma menina com um livro, para eu dar um autógrafo. E o livro estava muito manuseado e eu gosto de ver os livros manuseados e disse “olha que giro, se calhar era da tua mãe”, ao que ela respondeu “olhe, abra aí o livro e veja as dedicatórias que já deu nesse livro”. Acontece que eu tinha dado uma dedicatória para a avó, uma dedicatória para a mãe e agora ia dar uma dedicatória para ela. E ver que os miúdos hoje gostam dos livros que eu escrevo hoje, obviamente, mas também daquilo que eu escrevia há 30 ou há 40 anos é muito engraçado e acho que isso me anima muito. Eu tenho uma grande relação com os meus leitores, mas eu sou sobretudo jornalista. Trabalho para dois jornais e para uma revista.

 

e-NCONTROS – Televisão 24 horas por dia, internet, smartphones, youtube e redes sociais. No meio de tantos estímulos onde é que fica a literatura para os jovens?

AV – Eu sei que eles hoje têm novas maneiras de ler. Eu não acho mal. Eu quero é que eles leiam. E eles lêem.  Mesmo que tenham muitas coisas, se os jovens forem habituados desde pequenos a ler eles leem. Se os pais em casa estiverem habituados a ler eles leem. Se não… então já é um bocadinho mais complicado. Mas repare, eles hoje continuam a ler as coisas que eu escrevo, em livro. Houve sempre coisas para matar a leitura. Eu li que no século XIX, quando apareceram as primeiras bicicletas, havia um escritor, o Léon Bloy, que dizia “a bicicleta vai matar a leitura” [risos]. Depois da bicicleta foi o cinema, depois do cinema foi a televisão, depois da televisão foram os smartphones e os computadores… há sempre qualquer coisa para matar a leitura. E ela vai continuando. Não sei daqui a uns anos como será, mas eu sei que ela vai continuando e que as pessoas precisam de ler, seja em que suporte for. As pessoas precisam sempre de histórias, precisam sempre de se encontrar a si próprios ou de encontrar os outros ou de encontrar maneira de reagir à vida e, portanto, isso está nos livros, seja qual for o suporte em que elas apareçam. Mas a literatura, essa continua sempre. Não tenho dúvida.

e-NCONTROS – Qual o papel que a literatura tem hoje para os jovens?

AV – Dá-lhes uma coisa fundamental, que é o uso da língua. O uso das palavras. Os miúdos hoje falam muito pouco. Têm um vocabulário limitadíssimo. E se eles não leem, se eles não abrem o vocabulário, um dia não são capazes de se defender. É sempre isso que eu digo quando vou às escolas. Eu digo aos miúdos “um dia o teu patrão chateia-te e não tens palavras para te defender. Tu precisas de palavras. Precisas de usar a língua. Precisas de dizer as coisas.” Portanto, os livros dão isso. Dão-nos as palavras que nós podemos usar. Depois, tenho sempre muito cuidado em encontrar palavras que cheguem ao coração das pessoas, que toquem as pessoas. Eu quando estou a escrever um livro penso sempre: eu tenho que escrever uma coisa que –  para já – valha o dinheiro que as pessoas dão pelo livro [risos]… Se vão comprar o livro, tem que haver alguma coisa! Que diga coisas que os outros não dizem, que diga de uma maneira que os outros não dizem. Porque senão não vale muito a pena. Temos que encontrar coisas que agarrem os jovens. Nós temos que os agarrar nem é no primeiro capítulo, é na primeira linha, para ver o que é que vai a seguir. Porque se eles encontram nos livros aquilo que encontram noutros sítios, isso não tem assim muita graça. Eles hoje ainda são muito sensíveis a coisas que eu escrevi há muito tempo. E porquê? Porque os sentimentos são sempre os mesmos, o que muda são os adereços – como eu costumo dizer. O que muda são as coisas cá por fora, porque o resto – aquilo que eles sentem, aquilo que eles acham – é a mesma coisa. E, portanto, eles encontram-se muito naquelas histórias. E é isso que eu procuro fazer.

 

e-NCONTROS – Como é que se fala com uma criança?

AV – Fala-se como se fala com os adultos. Fala-se normalmente com uma criança. Lê-se, que é uma coisa fundamental. Mesmo quando a criança é bébe. Aliás, os ingleses têm uma regra de ouro que é “dá um livro ao teu filho no momento em que podes ter no mesmo braço o filho e o livro”. Portanto, o bébe está no nosso braço e nós mostramos-lhe o livro. E lemos uma coisa e lemos outra. E aqueles sons são muito importantes. E vão ficando. Ele não sabe o que quer dizer, mas é por aqui que a gente leva. Pelos sons que as palavras têm.

e-NCONTROS – Publicou recentemente o seu 4º livro de poesia [Olha-Me Como Quem Chove, Ed. Dom Quixote, março de 2018]. Qual o lugar da poesia na sua vida?

AV – Gosto muito de poesia. Não é o que eu faço mais, mas é sem dúvida o que eu leio mais. A minha cabeceira está cheia com os meus poetas preferidos. Escrevo muito, mas rasgo muito. Eu sou muito exigente na escrita, seja que escrita for, mas então na poesia… rasgo, deito fora e acabou-se. Mas, de vez em quando, lá vou salvando alguns. De maneira que salvei estes para quatro livros. Os títulos são todos de poetas de que eu gosto muito. Tolentino Mendonça, Daniel Faria, Nuno Júdice e, este último, Olha-Me Como Quem Chove, de um poema do Ruy Belo. Sou muito exigente. Este último livro foi muito uma terapia. Eu estava mal. Neste ano e meio, num espaço de um mês, morreu o meu marido e o meu irmão e eu ia-me abaixo… tive uma amiga que me dizia “todas as noites escreves um poema e mandas-me”. E eu fiz isso. É claro que não fiquei com todos, mas fiquei com alguns e aquilo foi muito bom. Fez-me mesmo muito bem. Foi um livro um bocado diferente dos outros. E resultou bem.

e-NCONTROS – Qual foi a maior demonstração de carinho que já teve do público?

AV – Tenho coisas de que eu gosto muito. Por exemplo, aqui há dias, eu ia a chegar a casa cheia de sacos de supermercado. A minha casa está em obras e o prédio em frente também estava, e eu ouço um pedreiro lá dos andaimes a dizer para o outro cá de baixo: “ajuda aí a senhora! Nunca leste nada dela na escola?!” [risos] Eu isso acho muita graça, porque todos eles me leram e são muito carinhosos. Vêm falar comigo. Eu lembro-me de que, quando era miúda, podia gostar dos livros mas não me lembrava de quem é que os tinha escrito. E hoje eles sabem. Sabem o nome e vêm falar comigo e isso é uma coisa de que eu gosto muito. E dizem se gostaram e se não gostaram. Este contacto é que me faz muita falta. Eu escrevo para pessoas e as pessoas vêm ter comigo. E disso eu gosto.

Foto: Guto | Âmago

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