Mudar vidas, ao microfone e no apoio a causas sociais

12 Dez, 2018

Entrevista a José Coimbra, Padrinho da Campanha Presentes Solidários 2018 

José Coimbra, animador de rádio da RFM, é Padrinho da Campanha Presentes Solidários 2018 da FEC. Com voz terna e a boa disposição que o caracteriza, falou com a e-NCONTROS  sobre o passado e o futuro da rádio, a aventura dos FRIDAYBOYZ, e o que significa participar na vida de uma comunidade, seja ao microfone da rádio, seja através da participação em ações que têm por objetivo melhorar a vida de populações em situação de maior fragilidade. Para o Natal, o seu desejo é que a solidariedade esteja a par com o espírito de dádiva, até porque com os Presentes Solidários “é muito fácil ajudar alguém: de uma forma muito prática e simples estamos a ajudar uma série de pessoas.”

 

e-NCONTROS – Como é estar todos os dias na rádio? Como é participar diariamente na vida de tantas pessoas?

José Coimbra – Faz parte do meu dia-a-dia. É uma coisa muito natural. Há muitos anos que isso faz parte da minha rotina: tenho as minhas rotinas em casa e depois tenho uma outra coisa na minha vida que é todos os dias chegar a casa de muitas pessoas. Tornou-se tão natural na minha vida que eu nem penso muito nisso. É como beber água. Mas é muito reconfortante saber que podemos acrescentar alguma coisa à vida das pessoas com aquilo que dizemos, com uma música que possamos tocar, ou seja, levar alguma coisa positiva e alguma coisa que acrescente algo à vida de quem está a ouvir. Isso para mim é a grande satisfação de chegar a casa das pessoas. É até poder, de certa forma, mudar o dia da pessoa, com alguma coisa que possa dizer ou com um prémio que possa dar. Entrar na vida de uma pessoa e poder marcá-la é o meu grande desafio todos os dias… a pessoa não ficar indiferente à minha presença no rádio.

 

e-NCONTROS – Sentes isso como uma grande responsabilidade?

JC – Não. Sinto mais como uma grande satisfação. Quando sinto que consigo isso, fico muito feliz, muito orgulhoso e muito realizado. Porque é isso que me move. É perceber que consigo tocar as pessoas. E, quando isso acontece, não o sinto com responsabilidade, aquilo que me vem à cabeça é satisfação, é alegria e o permanente desafio de tentar fazer com que isso aconteça. Está mais estabelecido ao nível do desafio e da satisfação que isso dá. Não sinto o peso da responsabilidade – “hoje tenho que ir para o estúdio e tentar chegar ao coração de alguém” – não, não sinto isso, porque assim não ia conseguir fazer nada.

 

e-NCONTROS – Uma coisa que é espantosa é o dinamismo, a espontaneidade, a vivacidade que os animadores de rádio transmitem diariamente. Qual é o segredo?

JC – Eu acho que o segredo é a paixão com que isto se faz. É uma profissão, um trabalho, que se faz com paixão. Eu acho que não há animadores de rádio que não tenham paixão por aquilo que estão a fazer. A partir daí, quando se tem paixão, tudo é possível. É possível ter entusiasmo às seis ou sete da manhã, é possível estar doente e fazer o programa e a seguir ir para casa e voltar para a cama, mas durante aquela hora em que se esteve no ar correu tudo muito bem. Porque é a paixão que dá força para conseguires ter essa energia de que falas. É isso que move: é a paixão e uma certa dose de profissionalismo, que a este nível temos todos. Mas acho que é a paixão que torna tudo isso possível. As pessoas que vão para o microfone gostam realmente daquilo que estão a fazer. A partir daí, tudo é possível.

 

 

e-NCONTROS – Quando começaste já sabias que ia ser assim?

JC – Enganaram-me, pensava que isto era muito mais fácil [risos]. Ando para aqui enganado há 30 anos. Pensava que isto era só passar música e afinal não foi! Quando me convidaram para ir para a rádio estávamos em agosto, não havia ninguém, e foram-me lá buscar, ao banco de jardim [risos]. Foram-me lá buscar para ir lá passar uns discos. Eu pensava que a rádio era isso, era “passar uns discos”. Na altura ainda havia discos, vinil. E afinal isto era muito mais do que só passar uns discos. E depois já não deu para sair. Depois entrei neste comboio e já não me deixaram sair. Isto é engraçado: a minha entrada na rádio foi para ajudar uma pessoa que tinha muitas horas para fazer, um amigo meu que trabalhava numa rádio local em Santarém – ainda no tempo das “rádios piratas”, rádios que não estavam legalizadas. Estávamos em agosto, toda a gente tinha ido de férias, e esse meu amigo veio-se queixar que tinha muitas horas para fazer – fazia sete horas de emissão – e que ia falar com o dono da rádio no sentido de eu o poder ir ajudar, fazer pelo menos duas horitas para o libertar um bocadinho. E assim foi. Um bocadinho a medo e tal, porque eu nunca me imaginei a fazer rádio. Depois aquilo foi ficando mais sério. Isto para dizer que a minha entrada na rádio foi para salvar uma pessoa que estava em apuros com tanta emissão que tinha para fazer. E depois foi uma longa aventura de 30 anos!

 

e-NCONTROS – Em 30 anos de rádio certamente já viste muita coisa. A rádio mudou muito?

JC – Sim, mudou muito, tanto a parte tecnológica da coisa, como também o conteúdo e aquilo que se diz ao microfone. A própria postura do locutor ao microfone ou do animador. Se calhar, nesse tempo, havia locutores e agora há animadores. Tem mudado muito. Há hoje uma outra maneira de estar ao microfone, mais descontraída, menos formal. Agora busca-se sobretudo a informalidade e a descontração e, nesse tempo, há 30 anos, lembro-me que quando comecei era impensável eu rir-me ao microfone. O primeiro grande desafio que eu tenho quando venho para Lisboa – para uma rádio em que era uma coisa ”mais maluca”, em que se podia arriscar mais – era conseguir rir, porque eu não conseguia porque tinha sido como se tivesse andado numa escola onde te dizem “não, tu não podes rir ao microfone”. Naquela rádio em Santarém, de facto, não fazia sentido eu rir-me ao microfone, pois era uma rádio muito baseada na informação. Eu estava treinado para não me rir ao microfone. Quem diria, hoje é o que eu mais faço! Mas foi um desafio imenso passar desse registo sério e muito “adulto” para um formato mais “jovem”. Acho que hoje em dia há mais preocupação em falar para as pessoas, há mais preocupação em criar momentos de espetáculo na rádio, momentos de animação.

 

e-NCONTROS –  E as redes sociais e a internet? Como é que afetaram a rádio?

JC – As redes sociais têm sido, até ver, uma boa ferramenta para nós. Uma boa forma de expandirmos o nosso trabalho para lá daquilo que é a rádio. Hoje em dia temos noção que há pessoas que contactam com os nossos conteúdos através das redes sociais. Há coisas que nós fazemos com as quais as pessoas têm contacto no Facebook ou no Instagram, mas se calhar nunca as ouviram na rádio. Isso é bom, porque é uma outra forma de “ouvir” a rádio. É uma ferramenta que nós temos sabido usar muito bem. Acho que a rádio tem sido dos meios que melhor tem conseguido adaptar-se à linguagem das redes sociais e usar isso a seu favor.

 

e-NCONTROS – Como vês o futuro da rádio?

JC – Essa é a pergunta “de um milhão”! Toda a gente anda sempre à procura do futuro da rádio! O futuro da rádio é ter sempre o ouvinte como o foco principal. Tudo isto é cíclico, houve coisas que se fizeram, depois deixaram-se de fazer, depois voltaram-se a fazer… aquilo que nunca se pode perder é o foco no ouvinte. Nunca nos podemos esquecer que estamos a falar para alguém e precisamos de ter sempre um grande conhecimento das pessoas que nos ouvem.

 

e-NCONTROS – Sendo que o ouvinte pode já não estar só nas ondas da rádio, mas também no mundo digital…

JC – Sim, e é por isso que cada vez mais as rádios começam a ter equipas de social media que desmultiplicam os conteúdos: há uma coisa que é vista no Instagram, há uma coisa que é vista no Facebook, há aquilo que é ouvido na rádio, há o website… Isto é o futuro da rádio, uma permanente desmultiplicação de conteúdos. Eu acho que a rádio tem que ser sempre “aquilo que se ouve na rádio”, mas deixou de ser só isso.

 

 

e-NCONTROS – O teu programa de sexta-feira tem partes transmitidas em vídeo, ao vivo, pela internet…

JC – É uma experiência insólita. Vêm empresas de todo o país. Já fazemos isto há dois anos. Eu já fiz algumas coisas que tiveram impacto na rádio: o Café da Manhã, programa de rádio mais ouvido do país entre 2002 e 2012, mais de dez anos seguidos. Isso deixa-me com satisfação, mas isto que nós fazemos agora – os FRIDAYBOYZ – dá uma satisfação completamente diferente. Eu consigo ver na cara das pessoas, quando elas se vão embora às 11 horas, a forma como aquela experiência as marcou. E isto é uma coisa totalmente nova nos meus anos de rádio. Eu nunca tinha visto a cara das pessoas no final de um programa. Eu agora tenho esse privilégio. E as caras são sempre de grande felicidade e surpresa: isto é o padrão, acontece todas as semanas. A grande recompensa que eu tiro dos FRIDAYBOYZ  é perceber que as pessoas ficam mesmo marcadas com isto. Aquilo torna-se uma experiência diferente que niguém espera. As pessoas ouvem e sabem o que é que vai acontecer, mas depois lá dentro a coisa ganha uma outra energia e é espectacular. Que bom poder viver isto, porque eu achava que já tinha vivido coisas muito empolgantes, mas ainda faltava isto. Ainda faltava isto!

 

e-NCONTROS – Como é que chegas aos Presentes Solidários?

JC – Foi um desafio que me lançaram e que eu aceitei logo. Nem hesitei, porque eu revejo-me muito na Campanha. É uma forma muito simples de ajudar, com umas ilustrações lindas. Desde logo, tem muito a ver com Portugal. Há portugueses por todo o mundo, existe uma comunidade lusófona, pessoas que falam português em tantos lugares, no mundo inteiro. E isso é especial: saber que estás a ajudar alguém que fala a mesma língua que tu. E é uma forma muito simples de ajudar. Portanto, achei que fazia todo o sentido e estou a fazer o que posso e aquilo que consigo para promover esta campanha. Já comprei também. Comecei por comprar o pack de São Tomé e Príncipe, porque estive lá há dois anos de férias. Não foi em nenhuma missão de voluntariado, mas mesmo de férias tu percebes como é que as coisas funcionam. E, portanto, quando vi que havia aqui esta ajuda do kit das mochilas para São Tomé, foi o primeiro que comprei porque lembro-me muito bem de ter ido a caminho do Ilhéu das Rolas, ter atravessado São Tomé, e aquilo mexeu comigo, ver as crianças a brincar naquele cenário. Não esqueci aquelas crianças. Não esqueci o que vi e fiz questão que o meu primeiro presente fosse para São Tomé.

 

e-NCONTROS – As pessoas juntas podem fazer a diferença?

JC – Sim. Se cada um comprar o seu postal, se cada um oferecer. Tem esta facilidade de ser um presente a duplicar e é também muito interessante os produtos, quando é possível, serem feitos no local – estimulando a atividade local, aquilo que se faz localmente. Foi uma coisa que me chamou muito a atenção: aquilo que pode ser feito lá vai ser feito por pessoas de lá, ou seja, há toda uma rede de pessoas que estamos a ajudar.

 

e-NCONTROS – Nesta época natalícia, uma mensagem para os nossos leitores?

JC – Um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo para todos, mas não se esqueçam dos Presentes Solidários! Eu conheci-os este ano e fiquei muito feliz com esta ideia. Acho que está muito bem pensada e é muito fácil ajudar alguém: de uma forma muito prática e simples estamos a ajudar uma série de pessoas. Portanto, o meu desejo é esse: um Feliz Natal e Presentes Solidários no sapatinho para todos.

Fotografia: Guto | Âmago

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