FEC integra AGORA, uma iniciativa da sociedade civil na COP24

28 Dez, 2018

Decorreu de 6 a 9 de dezembro, a meio da Cimeira do Clima em Katowice (COP24), uma iniciativa de Organizações da Sociedade Civil, coordenada pela CIDSE, que teve por nome “AGORA”. Foi como organização membro desta aliança de ONGD católicas que a FEC tomou parte da iniciativa, que consistiu numa série de eventos paralelos às negociações das partes. A participação da FEC contou também com a participação de voluntários da Associação Casa Velha, uma vez que esta deu-se no âmbito do projeto “Juntos Pela Mudança II”, em parceria com a CIDSE e com a Associação Casa Velha e cofinanciado pelo Camões I.P. Um dos grandes objetivos deste encontro passou, aliás, por motivar para a ação climática uma rede de voluntários internacionais associados às organizações membro da CIDSE, consciencializando-os ao mesmo tempo dos processos políticos de alto nível.

A motivação que se procurava, no entanto, teve de vencer algumas dificuldades que já se tinham vindo a sentir na preparação da COP24, com a retirada do país que se tinha proposto para receber a COP seguinte e o financiamento duvidoso da COP na Polónia. Estas negociações – que exigem consenso – foram particularmente difíceis em Katowice: quatro países boicotaram a receção do relatório do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC) e outros dois atrasaram o processo de encerramento. Assim, com a engrenagem técnica e política dificultada pela falta de ambição de delegações de peso, revelou-se ainda mais urgente aprofundar o papel da sociedade civil, que exige uma resposta célere nos doze anos que sobram para, muito provavelmente, evitar a catástrofe climática calculada pelos cientistas do IPCC.

Esta “AGORA” propôs-se, como o nome indica, a promover uma reflexão conjunta e o envolvimento de todos e de todas na ação climática. O primeiro evento aberto desta iniciativa, nesse sentido, foi a estreia do documentário “Energy to Change”, no Cinema Kosmos. Este documentário, da realizadora Patrícia Pedrosa, que já tinha realizado com a FEC / CIDSE o documentário “Histórias de Mudança”, retrata a vivência de diferentes pessoas e comunidades no Norte no Sul globais a respeito do acesso à energia, entre os quais se conta Francisco Ferreira, presidente da Associação Zero. Esta sessão contou com a presença de algumas pessoas destas comunidades, desde a Coordenadora Geral das Organizações Indígenas da Amazónia Brasileira (COIAB) ao representante da rede Ecokerk, uma rede da Igreja Católica da Flandres empenhada na proteção do planeta. Este documentário já se encontra disponível no Youtube e terá, brevemente, uma versão legendada em português.

A FEC, com os voluntários da Associação Casa Velha e das organizações membro da CIDSE, participou na manifestação espontânea de dia 8 de dezembro junto da sede das negociações da COP24, em Katowice © CIDSE

No dia seguinte, a 8 de dezembro, teve lugar uma manifestação espontânea que juntou cerca de 3000 pessoas, de diferentes origens e inspirações. A participação foi limitada pelo controlo apertado da segurança polaca, que impediu alguns ativistas de entrar no país e tentou dispersar alguns manifestantes. No entanto, a multidão de manifestantes, que incluiu grupos tão diversos como organizações feministas e franciscanos de burel, manteve-se coesa e concentrou-se diante da sede das negociações, exigindo justiça climática. A FEC esteve presente neste momento com as restantes organizações da AGORA e levou consigo a memória do encontro internacional que coorganizou em 2017, aquando da visita do Papa Francisco a Fátima: a bandeira da “Caminhada pela Mudança”, inspirada pela encíclica papal Laudato Si. Neste sentido, a FEC reviu-se na intervenção pública da Secretária-Geral da CIDSE, Josiane Gauthier, que afirmou que o fim da manifestação seria, acima de tudo, cuidar da “Casa Comum”.

Por fim, dia 9, todas as organizações que participaram na AGORA juntaram-se à missa dominical celebrada pelo Arcebispo de Katowice. A presença de todas estas organizações foi particularmente relevante, uma vez que, numa região e num país reticentes com a transição energética e onde, simultaneamente, a Igreja Católica tem muita influência, reveste-se de extrema importância uma base de apoio às orientações da Ecologia Integral, defendidas pelo Papa Francisco. A FEC marcou a sua presença neste momento apresentando, no ofertório, a mesma bandeira que tinha levado para a manifestação no dia interior, unindo assim o protesto cívico à ideia de conversão interior.

As organizações membro da CIDSE reúnem-se com o Arcebispo de Katowice e organizações da Igreja comprometidas com a ação climática, dia 9 de novembro na Faculdade de Teologia de Katowice © CIDSE

Por fim, deve-se referir os vários encontros promovidos nestes dias com Organizações da Sociedade Civil locais (o movimento cívico Bo Miasto, a associação Bona Fides, o Klub Gaja e o movimento LiberTea) e da Igreja (a Caritas Internationalis, a Caritas Polaca, o Global Climate Catholic Movement, a Ordem Franciscana Internacional). Estes foram momentos de reflexão privilegiados, em que se deram a conhecer diferentes linhas de ação, da Educação para a Cidadania Global e da Advocacia de pequena e grande escala; em que Norte e Sul globais trocaram impressões sobre o impacto que as alterações climáticas estão a ter junto de comunidades específicas neste preciso momento e, não menos importante, em que se focou a importância de aplicar os princípios da sustentabilidade dentro das próprias organizações, não apenas no sentido ecológico, mas também humano.

Destes dias de algumas conquistas e muitas frustrações, sobra a certeza de que vai ser necessário reforçar os nossos esforços na ação climática. Tal como afirmou António Guterres no seu discurso de abertura da COP24, pode ser muito desafiante concluir negociações sobre metas de redução de emissões de gases de efeito de estufa, mas é bastante mais difícil ser pastor no Sahel ou pescador no Kiribati com os crescentes impactos do aquecimento global. É por este motivo, que a FEC, nos países em que atua e nos projetos que já tem em curso, com os seus parceiros locais e internacionais, vai continuar comprometida com a defesa da dignidade humana, pautando-se, cada vez mais, pelos princípios da Ecologia Integral.

Pedro Franco | Fundação Fé e Cooperação

 

Link:
Documentário Energy to Change

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