Pequenos passos para um consumo mais justo e responsável

19 Nov, 2019

PEQUENOS PASSOS PARA UM CONSUMO MAIS JUSTO E RESPONSÁVEL

Entrevista com Maria Marques, Coordenadora da Campanha Pequenos Passos

A campanha da FEC “Pequenos Passos” está na internet e na rádio e pretende “despertar consciências e mobilizar os cidadãos para assumirem compromissos concretos que os tornem consumidores e utilizadores mais responsáveis”. A iniciativa arrancou em outubro e até ao final de janeiro o público pode contar com pequenas provocações, estimulando para a ação. A ideia é “passar a mensagem de que um consumo e produção mais justos e sustentáveis são o caminho para se concretizarem os imperativos da responsabilidade intergeracional”, invocando o compromisso com a Ecologia Integral “enquanto novo paradigma de justiça e de preocupação com as gerações vindouras”. Maria Marques, coordenadora da campanha, fala com a e-NCONTROS sobre a iniciativa.

 

e-NCONTROS – Em que consiste a campanha Pequenos Passos?

A campanha Pequenos Passos pretende despertar consciências e mobilizar os cidadãos para assumirem compromissos concretos – pequenos passos – que os tornem consumidores e utilizadores mais responsáveis. A campanha é uma iniciativa promovida pela FEC – Fundação Fé e Cooperação, com o apoio do Instituto Camões e da Comissão Europeia, através do programa “Trade Fair, Live Fair”.

 

e-NCONTROS – O que está na origem da campanha?

A ação climática e a produção e consumo sustentáveis são preocupações de uma minoria crescente, mas ainda aquém da mobilização geral que o tema exige. É preciso perceber em que é que mudamos, de que é que estamos dispostos a abdicar e a fazer mais com menos. Sabemos também que o impacto mais pesado das alterações climáticas “recai sobre os mais pobres”. A proposta de um “novo estilo de vida” é um dos propósitos da Encíclica Laudato Si, sobre o cuidado da casa comum, na qual o Papa Francisco critica o consumismo e o desenvolvimento irresponsável e faz um apelo à mudança.

Os pequenos passos que propomos não são um caminho individualista a percorrer, mas sim uma maneira de nos religarmos aos valores da transformação social que pretendemos, de forma a acelerar a ação climática e proteger os direitos humanos. A campanha propõe-se contrariar a “lógica do descartável”, ambiental ou humano, através da mensagem-chave de que os hábitos de consumo e, consequentemente, a produção deve reger-se pelo princípio da suficiência e da partilha e não da acumulação.

 

e-NCONTROS – Como é que as pessoas podem conhecer a Pequenos Passos?

A campanha arrancou em outubro e assenta em quatro princípios, inspirados no “Guia Prático para Jornalistas sobre Estilos de Vida Sustentáveis” (2019), um recurso da CIDSE, parceira da FEC:

  • Mostrar pessoas “reais”, com a recolha de vários compromissos de cidadãos europeus que assumiram pequenas mudanças de comportamento nas suas vidas quotidianas;
  • Contar histórias com impacto local, como a Caminhada pela Mudança da Laura e da Madalena, duas jovens que foram de Lisboa a Roma, no mês de outubro, atravessando 8 países, tendo em vista a participação no Sínodo da Amazónia. A história mostrou que existem alternativas sustentáveis concretas, com base nos valores da partilha, da espera (expressas nas boleias e no acolhimento) e do pensamento global (tendo como fim o Sínodo da Amazónia);
  • Mostrar as causas e os impactos das alterações climáticas, através de um vídeo e da criação de infografias onde é possível perceber de forma simples o impacto do consumo no planeta, em áreas que vão desde a alimentação, à mobilidade, energia, moda e gadgets;
  • Ter cuidado com os discursos negativos e de protesto, optando por mensagens positivas e inspiradoras.

A campanha conta com vários canais, desde o site (www.pequenospassos.pt), às redes sociais da FEC (facebook e instagram) e a spots transmitidos na rádio.

 

e-NCONTROS – Num contexto desigual em termos de poder de comunicação face a marcas e publicidade, que impacto consideram que uma campanha como esta pode ter nas pessoas?

Sabemos que a situação que vivemos implica uma urgência na ação e que essa urgência se prende com a mudança de comportamentos de pessoas, organizações e governos. A comunicação desempenha um papel crucial para apoiar e provocar a mudança. Por outro lado, as organizações da sociedade civil, como a FEC, têm um papel determinante na sensibilização pela sua proximidade com os vários públicos. E este é um pequeno passo nesse caminho. Este apelo à mudança de comportamentos a nível individual é complementado pelo trabalho de advocacy junto de decisores políticos e pela mobilização de outras organizações, no âmbito do projeto Juntos pela Mudança, onde se insere esta iniciativa.

 

e-NCONTROS – Como é que chegaram ao mote da campanha: “não deixes o futuro em standby”?

A campanha conta com várias provocações como “Não deixes o teu futuro em standby” ou “Não queres ser a última geração”, procurando passar a mensagem de que um consumo e produção mais justos e sustentáveis são o caminho necessário para se concretizarem os imperativos da responsabilidade intergeracional. Este mote convoca o compromisso com uma Ecologia Integral, enquanto novo paradigma de justiça e de preocupação com as gerações vindouras.

 

e-NCONTROS – Qual tem sido a reação do público?

A campanha tem tido uma aceitação ampla que reside, em grande parte, no poder da narrativa e nos spots transmitidos na RFM. Contar histórias de pessoas concretas facilitou o envolvimento do público. Temos o testemunho da Leonor, uma avó com quatro netos pequenos que se compromete a “oferecer mais tempo de qualidade em experiências, em vez de brinquedos, procurando alternativas de diversão mais próximas da natureza”. Ou o compromisso da Flor, de 12 anos, que pediu aos professores para reutilizar os cadernos do ano passado. “Assim, não tive que comprar tantos cadernos novos, nem desperdiçar os do ano passado que não estavam completos”, diz-nos.

A campanha alerta para questões que nos devem preocupar a todos: alterações climáticas, padrões insustentáveis de consumo, desigualdades, entre outras. E com tanta desinformação é importante que estes temas não deixem a agenda mediática, mas sobretudo é importante que não deixemos de pensar criticamente sobre eles. Se a campanha reforçar esta mensagem, já terá dado um contributo positivo.

 

e-NCONTROS – O que se pode esperar da Pequenos Passos até ao Natal?

A campanha decorre até final de janeiro e será marcada por provocações lançadas em alturas de apelo ao consumo como a blackfriday, a cybermonday e o Natal e apelos vários “Do velho se faz novo”; “O barato sai caro”; “Juntos, vamos mais longe”; Desliga o ecrã e liga-te ao futuro”. A campanha foi ainda reforçada pelo lançamento de um livro infantil da escritora Rita Taborda Duarte e do ilustrador Pedro Proença, enquanto leitura para as crianças, mas um alerta para todos. O livro deixa-nos uma mensagem importante “Lembra-te: deitar fora é sempre deitar dentro do mundo”.

 

e-NCONTROS – A campanha faz parte do projeto Juntos Pela Mudança? Em que consiste o projeto?

A campanha insere-se no projeto Juntos pela Mudança II, que tem como objetivo contribuir para a resiliência às alterações climáticas, através da adoção de estilos de vida e estratégias mais justas e sustentáveis a nível local e global. O projeto é financiado pelo Camões – Instituto da Cooperação e da Língua, I.P e conta com a parceria da Associação Casa Velha – Ecologia e Espiritualidade e da CIDSE.

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