A visita do Papa a Angola: razões e perplexidades
«É minha intenção deslocar-me a Angola, no próximo mês de Março, a fim de celebrar, mais solenemente, o V Centenário de Evangelização desse País».
Com estas palavras, Bento XVI anunciou, em meados de Outubro passado, a sua visita a Angola. Um anúncio que colheu a todos de surpresa. Há 18 anos que já não se falava de mais celebrações desse género e no ar não pairava nenhum boato de visita papal. As reacções não se fizeram esperar. Enquanto bispos e sacerdotes procuravam consciencializar o povo sobre a necessidade de uma preparação espiritual para acolher o Papa, uma alta figura da hierarquia católica foi à Rádio Ecclesia para dizer que ele era bem-vindo a Angola, enquanto Pastor universal da Igreja Católica, para visitar o povo de Deus e confirmar os seus irmãos na fé, mas que fosse bem claro que o V Centenário da Evangelização de Angola, já tinha sido celebrado em 1991!
Esta reacção chamou-me atenção. João Paulo II visitou Angola em Junho de 1992, um ano depois da referida celebração. Nessa altura, Joseph Ratzinger, o actual Papa, era o Prefeito da Congregação para a Doutrina e Fé e, por isso, não só conhecedor da história da evangelização de Angola e das celebrações então em curso, como terá acompanhado, pelos mass-média, a viagem comemorativa do Papa ao nosso País. O que terá levado, então, o Santo Padre, a programar mais uma celebração do mesmo evento?
Eu pus em itálico a expressão «mais solenemente», porque me pareceu que estavam aí, velados, alguns motivos da sua viagem. Em primeiro lugar, o termo «mais» parece apontar para a afirmação inequívoca de uma celebração anterior, plenamente realizada, e não a sua ignorância. Mas o eco das celebrações do V Centenário de Evangelização de Angola, em 1991, coroadas com a visita do Papa, em 1992, foi abruptamente silenciado e engavetado pelo reacender da guerra, em Outubro de 1992, que arrasou o País até Fevereiro de 2002. Assim, os dois acontecimentos, tão relevantes, não tiveram impacto quase nenhum, na história e na vida posterior da Igreja angolana. O «celebrar mais solenemente» pode soar, pois, como uma trombeta para despertar a todos de uma espécie de «sonolência» em que caiu a celebração de 1991 e um alerta aos anunciadores da Palavra, para a prática da ‘nova evangelização’ que deve orientar a acção missionária do 3º milénio, de modo a evitar os erros do passado que levaram a certos insucessos.
As celebrações, em 1991, e a visita do Santo Padre, em 1992, foram vividos num clima de tentativas para se manter a paz e promover a reconciliação dos angolanos, ao mesmo tempo que se organizavam as primeiras eleições gerais, em Angola. Esse clima é, hoje, muito semelhante. Há 7 anos que Angola respira um ar de paz, fruto do calar das armas, mas a guerra em muitas mentes, mesmo as cristãs, é ainda uma realidade. A visita de Bento XVI ajudará a alargar os passos que estão a ser dados, a nível político, social e eclesial, na consolidação da paz e no árduo processo de reconciliação nacional e as suas palavras poderão iluminar a Igreja e a Nação a divisar novos caminhos de solução para os problemas de sempre e os desafios próprios da era actual.
Contudo, para além do claro e positivo contributo que a visita do Papa pode trazer ao País, prevalece sempre, na mente de uns quantos, uma certa confusão, provocada por certas coincidências demasiado matemáticas: a visita do Santo Padre com a proximidade das eleições políticas, em Angola. Em 1992, das legislativas e presidenciais, e desta vez, das presidenciais, uns escassos meses após as legislativas. Mas será que se trata mesmo apenas de meras coincidências?
