Fé e esperança entre os escombros
A Igreja está a mobilizar esforços a nível mundial, e em Portugal, para auxiliar o povo haitiano através da distribuição de água, alimentos, roupa e ajuda médica, preparando-se já para apoiar também na reconstrução do país. A extraordinária onda de solidariedade que cresce a cada dia à escala planetária está a reforçar a esperança de um povo que, muito pobre, nunca perde a fé

Mais de uma semana passada sobre a tragédia que assolou o Haiti, o drama de morte e destruição intensifica-se: o número de vítimas do sismo de magnitude 7 na escala de Richter que atingiu a 12 de Janeiro aquele que é um dos países mais pobres do mundo não pára de aumentar, há milhares de desaparecidos e, sobrepondo-se ao pânico da réplica sentida esta Quarta-feira, multiplicam-se agora os saques e a violência entre um povo desesperadamente marcado pela fome e pela doença.
A Igreja está a mobilizar esforços a nível mundial para auxiliar o povo haitiano através da distribuição de água, alimentos, roupa e ajuda médica, nesta primeira fase de emergência. Em poucos dias, a assistência no terreno - coordenada pela agência humanitária internacional dos bispos dos EUA, Catholic Relief Services (CRS), a pedido do órgão executivo do Papa para as situações de calamidade (o Conselho Pontifício Cor Unum) -, conseguiu colocar em funcionamento doze centros de distribuição da ajuda. Reunida com a Conferência Episcopal do Haiti, o Núncio Apostólico e organizações católicas caritativas, a CRS procura avaliar o impacto da catástrofe para adequar as respostas aos inúmeros sobreviventes que se acumulam nos campos de acolhimento provisórios instalados no aeroporto, nos hospitais e um pouco por toda a capital, Port-au-Prince.
No último Domingo, o Papa Bento XVI rezou pelas vítimas no Haiti, lembrando os mortos e enviando uma mensagem de conforto aos sobreviventes do terramoto, em particular aos que ficaram feridos ou desalojados: “os nossos pensamentos viram-se para a querida população do Haiti”, disse (citado pela agência Ecclesia), frente a milhares de peregrinos reunidos no Vaticano. O Papa está a “seguir e encorajar” os esforços das muitas organizações caritativas que acorrem a ajudar os haitianos, procurando suprir as “imensas necessidades” que o país atravessa agora. Dedicando as suas orações aos milhares de pessoas que “perderam a vida tragicamente”, Bento XVI lamentou ainda “o doloroso desaparecimento” do Arcebispo do Haiti, Joseph Serge Miot, e de “muitos padres, religiosas e seminaristas”.
Também o povo haitiano vem expressando nestes dias a sua fé com esperança e determinação, por entre as ruínas que transformaram a paisagem do país num cenário de devastação.
Cáritas já recolheu mais de 320 mil euros
A Cáritas Portuguesa é a organização encarregue de reunir e fazer chegar ao Haiti todos os donativos angariados pela Igreja no nosso país, esclareceu já o Presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social. Na homilia da celebração eucarística pelas vítimas do sismo, realizada esta semana na igreja de Santa Isabel, em Lisboa, o prelado explicou que a decisão justifica-se pela experiência desta instituição da Conferência Episcopal em campanhas de emergência e pela necessidade de evitar recorrer a grandes estruturas externas. Até ao dia 21 de Janeiro, a Cáritas recolheu mais de 320 mil euros, através da conta “Cáritas Ajuda Haiti” cujo NIB é o 0035 0697 0063 0007 5305 3. Os fundos recolhidos serão aplicados nas acções de emergência, mas também na reconstrução do país. Além desta campanha, as dioceses portuguesas estão também a promover diversas acções para recolher dinheiro que está a ser canalizado para esta mesma conta.
No Dia de Oração pelo Haiti (Terça-feira passada) D. Carlos Azevedo garantiu que a Cáritas Portuguesa está a organizar uma “resposta eficaz e sólida” ao desastre provocado pelo sismo no Haiti. Nesta “hora atribulada” para os haitianos, o também Bispo Auxiliar de Lisboa apelou “à liberdade da partilha, dos gestos solidários, à caridade na verdade”. Para D. Carlos Azevedo, as notícias e as imagens que chegam do “pobre Haiti” são suficientes “para nos encher de silêncio, nos esvaziar de palavras, no chão de tanta dor, tanta destruição, tanta ausência”, avança a Ecclesia.
Em entrevista a esta agência, o presidente da Caritas Internationalis, Cardeal Oscar Maradiaga sublinhou que muitas igrejas foram destruídas, incluindo a Catedral, Seminários, centros paroquiais, escolas e hospitais que “ficaram gravemente afectados”. Consternado, o Cardeal reconhece que o desafio é enorme mas afirma: “a nossa esperança aumenta com as mensagens de solidariedade e apoio que temos recebido das Cáritas no mundo”. Alimentos, água e cuidados de saúde estão a ser distribuídos através da rede de duzentos hospitais e clínicas gerida pela Cáritas no Haiti, explicou. Será necessário “um enorme esforço para ajudar na reconstrução”.
Várias são as organizações religiosas portuguesas que estão a colaborar nesse esforço de ajuda ao Haiti. A Fundação D. Bosco Projecto Vida, dos Salesianos de Portugal, está a recolher fundos para os primeiros socorros e reconstrução das casas de Acolhimento de crianças de rua e de outros espaços educativos. Os Claretianos disponibilizaram já um espaço multiusos de que dispõem na República Dominicana para acolher os muitos feridos haitianos que chegam à fronteira entre os dois países. A organização católica internacional Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) enviou uma ajuda de cem mil dólares aos seminaristas do Haiti. A Diocese do Algarve tomou a iniciativa de destinar as renúncias quaresmais obtidas em 2010 à reconstrução da Catedral do Haiti. Já esta Quinta-feira, o Cardeal-Patriarca de Lisboa anunciou que vai promover na Diocese um peditório diocesano a favor da população do Haiti, que irá decorrer nas celebrações dos próximos Domingos, dia 24 ou dia 31, “a juízo dos respectivos Párocos”. D. José Policarpo recordou que “o terramoto do Haiti atingiu proporções inimagináveis”.
Crescem as vítimas, mas também os apoios
O número de vítimas do terramoto no Haiti actualiza-se, infelizmente, a cada momento. Ontem, os serviços comunitários estimavam a existência de duzentos mil mortos, oitenta mil pessoas ainda soterradas, 250 mil pessoas a necessitar de auxílio urgente e dois milhões de desalojados. No meio do caos, alguns resgates de sobreviventes que permaneceram dias a fio debaixo dos escombros assemelham-se a verdadeiros milagres.
O mundo inteiro parece ter entendido a dimensão desta tragédia e a onda de solidariedade cresce a cada dia, à escala planetária. A título de exemplo, só os portugueses já contribuíram com cerca de seiscentos mil euros através de transferências bancárias para as várias contas solidárias de organizações humanitárias e com mais de 120 mil euros para a campanha que está a decorrer no Multibanco, segundo o último balanço. A mobilização global está a contribuir para manter a fé de uma população habituada a viver na mais extrema pobreza.
Aquela que é a nação mais pobre do hemisfério ocidental vai estar, nos próximos tempos, “no foco dos meios de comunicação e inundada de ajuda humanitária”. Como apelou o presidente da Caritas Internationalis, “que esta seja a oportunidade de se firmarem novos compromissos que levem a soluções duradouras, aliviando o sofrimento e a miséria dos haitianos”.