Sustentabilidade passo a passo...
O projecto + Escola entregou entre o mês de Março e o início de Junho, em escolas na região de Bafatá, um baú grande, em latão, um cadeado com três chaves, um pincel e uma latinha de tinta, depois de já ter entregue alguns materiais pedagógicos e de administração escolar. Qual o sentido de tudo isto? Será a entrega de materiais, como o baú, garante de sustentabilidade a quem não os pode adquirir (de momento)?
De facto não, mas seja qual for o caminho esperamos que seja de salas com armários. O garante da sustentabilidade vem do lado menos visível do baú, o da responsabilidade dos que recebem cada uma das chaves (Director da Escola, presidente do Comité de Gestão e presidente da Associação de Pais e Encarregados de Educação), do pincel e da tinta com que o director deve escrever no baú o nome da escola comunitária da tabanca, e, muito importante, de todo o potencial de guardar que qualquer equipamento introduz na vida de quem o recebe.
Será suficiente? De todo, se não perguntarmos regularmente a alguém pelo seu baú, muitos são os que perderam a motivação na caminhada, mas é assim com todos nós e em tanta coisa na vida…
Os caminhos do Desenvolvimento vão-se fazendo passo a passo, para que se façam de sustentabilidade. A sustentabilidade é simultaneamente a matéria-prima do caminho e o plano de construção e na Guiné-Bissau, como em Portugal, devem ser feitos com as comunidades que os vão percorrer. O projecto + Escola na região de Bafatá, no leste da Guiné-Bissau, luta diariamente contra a falta de envolvimento das comunidades na escola, que afinal é comunitária. Uma escola comunitária é um tipo de escola que foi criada por iniciativa de uma comunidade e não do Estado. A comunidade pede ajuda para a construção a uma organização, no caso de Bafatá a PLAN (ONGD americana a actuar para a promoção da criança ao nível da educação, saúde, água e saneamento na região de Bafatá), sendo que é a comunidade quem deve recolher a areia e o cascalho (e a mão-de-obra) para a construção. A ONGD dará o zinco para o telhado e a formação para apoiar a constituição de um Comité de Gestão da Escola.
Perguntar-se-ia então como é possível não haver envolvimento de quem já tem a iniciativa da construção, a comunidade. Para responder a esta pergunta é preciso contextualizar a tabanca guineense no ordenamento do território nacional e na sua História. Mas podemos a um nível mais micro apontar factores que ajudam a compreender e a agir sobre o cenário. Alguns factores incidem sobre o conceito de escola, outros sobre a criança, outros ainda sobre o modo de vida da população.
Assim, a escola é compreendida como possibilitadora na medida em que o domínio de uma língua internacional, o português, permite melhorar a comunicação e as relações sociais e económicas, mas simultaneamente é vazia de conceito por quanto não se sabe, ou entende o que lá se ensina aos mais novos. Isto não impede, no entanto, a forte vontade de alguns mais velhos da comunidade em a quererem para a tabanca. Mas estas são escolas para crianças, que são entendidas como uma riqueza numa família, na medida em que ajudam na construção de laços sociais e na produtividade da economia familiar. O que está directamente relacionado com o modo de vida rural de trabalho manual de bolanhas de arroz, de apanha da castanha de caju ou da pastorícia do gado bovino, onde a criança ajuda de forma visível, embora nem sempre valorizada.
A escola tradicional surge assim como o conflito entre o que é a aposta no futuro da comunidade e o dia-a-dia laboral de subsistência. Ainda para mais pesado o facto de ser necessário pagar um subsídio mensal ao professor para que a estrutura já construída se possa chamar de Escola. Não é difícil prever que neste contexto não deverá também ser fácil encontrar professores que se sintam valorizados com a escolha profissional que fazem diariamente.
O que são então os pequenos passos rumo à sustentabilidade? Ajudar a pensar, ajudar a organizar e organizar-se, ajudar a escolher, ajudar a planear… ser facilitador, tendo para isso que ser formador, sensibilizador, animador, consultor, na caminhada com …
