A Arte no Voluntariado
Muita coisa podia ser falada, relatada, descrita… Mas, fica-me sempre a sensação clara de que me será impossível abranger, numa página de texto, todos as faces deste diamante que a vida me ofereceu… Registo, aqui, apenas aquelas que consigo traduzir em palavras, as outras são memórias do meu córtex visual que me aquecem a alma no caminho para Vila Real de Trás-os-Montes. Desde pequena que ouvia falar o meu pai e toda a minha família paterna de Moçambique, dos vinte anos que lá viveram e da forma como os viveram… A esta percepção de Moçambique contrapunha a ideia da África longínqua, cheia de miséria e pobreza pela qual, nós europeus tantas vezes sentimos pena ou compaixão, mas pela qual, outras tantas vezes, fazemos tão pouco… De qualquer forma, ambas as noções se desvaneceram, logo que a porta do avião se abriu e os meus olhos alcançaram um horizonte bem maior e, ainda, mais plano do que aquele que alcanço no meu querido Alentejo! Senti, claramente, quão pequeno é o nosso mundo, quando construído através de uma caixinha mágica e dos livros das bibliotecas que nos arrumam as ideias e nos espartilham a real percepção do ser humano… Percebi que, mais que uma viagem de cerca de 10.000km, realizava uma viagem ao conhecimento do outro, na qual todos os estereótipos e preconceitos se desmontam, deixando as ideias baralhadas. Tudo é diferente em África, ou pelo menos, tudo é diferente em Moçambique!
Mãos à Obra
A minha formação académica, imediatamente me conduziu àquilo que mais gosto de fazer – desenhar, pintar, operar nas três dimensões e trabalhar com crianças. Talvez tenha deixado de lado algo mais importante ou necessário para a melhoria da qualidade de vida de um lar de rapazes em Maputo. Contudo, foi a expressão plástica que se sobrepôs ao que, por vezes, se considera prioritário à vida humana. Entendo a arte como uma forma de construção e apreensão do real e do imaginário, individual e colectivo, bem como, uma forma de estimular a nossa ânsia de aperfeiçoamento, de nós próprios e do mundo. Considero, ainda, que actividades que proporcionem a capacidade de estabelecer juízos visuais e desenvolvam o espírito crítico são fundamentais na formação do indivíduo, no sentido de o equipar para tomar parte na construção da dimensão estética, tão fundamental ao homem. Destes pressupostos surgiu o projecto que se centrou em duas fases fundamentais: - Criação de um Atelier de Artes Plásticas; - Intervenção plástica na sala de estudo do Lar, realizada de acordo com os interesses e motivações dos alunos.
Teoria e Prática
Foi importante fornecer, com este projecto, algumas noções gerais sobre a cor – cores primárias, cores secundárias – e sobre os elementos constituintes da linguagem plástica – ponto, linha, textura, estrutura – estabelecendo uma ligação mais consistente entre o desenvolvimento do trabalho prático e a área do saber com o qual este se relaciona. No entanto, foi minha prioridade desenvolver a capacidade criativa de uma forma autónoma, crítica e confiante. É preciso lembrar que, o processo visual não é passivo, está imbuído da mutação constante do mundo, da vida, da história, valores e crenças de um povo. Vivências diferentes originam diferentes formas de ser – ver. Uma cultura abrangente proporciona uma percepção da realidade mais rica, informada e sensível. Os desenhos começaram a surgir, pequenos, tímidos, com pouca cor, com muita cor, mais perfeitos, mais expressivos, mais soltos, mais… A parede, com meia dúzia de metros, parecia assustadora, quer pelo tamanho, quer pelo vazio... Mas, o entusiasmo era maior, e depressa a parede se encheu de riscos de lápis! A cor e a forma, quase instintivamente, dominaram o espaço, as manhãs e os finais de tarde até, dezanove dias depois, estar concluído o trabalho. E são agora, essas mesmas cores e essas mesmas formas que me lembram a alegria desses momentos, que eu caracterizo como uma partilha grande e sincera entre seres humanos. Como reflexão, só me consigo lembrar de um texto que escrevi no encontro de voluntários na praia do Bilene, perdoem-me a falta de originalidade, mas creio que transmite bem aquilo que são os resquícios desta experiência:
Na Praia do Bilene
O que fica depois desta caminhada? O que fica? …Acima de tudo a sensação clara do caminho longo que há a percorrer na ajuda, na troca, no conhecimento do próximo… Olhando para trás, mais do que caminho percorrido, há muros que caíram, barreiras que se desfizeram para mostrarem outra realidade, outra gente, outra forma de ver o mundo e, sobretudo, outra forma de o viver! Que falta de pressa e que vontade de conversar, de olhar nos olhos e compartir… Quanta presunção a nossa (enquanto europeus) de que vivemos mais felizes! Percebi nas crianças uma alegria genuína que transportam para as brincadeiras simples de todos os dias, no cavalo, no pilão, no jogo de damas… Comigo trouxe a vontade, a curiosidade e o desejo de conhecer e ajudar… Comigo levo muito mais! – O sorriso das crianças, a generosidade das gentes, a ânsia de aprender, a serenidade naquilo que se faz, a calma de cada gesto… e dou graças a Deus por ter aprendido mais do que ensinei e por me ter feito sentir em casa!
Salete Mansos Felício
Voluntária em Moçambique
08 de Julho a 25 de Agosto de 2004
Movimento Juvenil Salesiano