Missão em Timor-Leste com os Leigos Missionários Hospitaleiros
Depois de um período de formação com a Juventude Hospitaleira, parti em Agosto de 2006 para colaborar na Missão em Timor-Leste dos Irmãos São João de Deus. Levava comigo uma pequena mala com o essencial (que com o tempo se vai descobrindo que é excessivo), muitos sonhos e projectos (que se vai percebendo que não são todos viáveis), um sorriso nos lábios (que se aguentou por um ano) e a fé numa mensagem de amor e fraternidade (que deu sentido a toda a partida e estadia). Laclubar passou a ser a minha morada.
Um vale abrigado pelo abraço montanhas, bem no centro de Timor. Um lugar que parece fechado para o mundo. As estradas estão bastante deterioradas, não existe rede telefónica, nem acesso a jornais e poucas são as casas que têm televisores e antenas. A falta de acesso à informação e a dificuldade de chegar às cidades, foi tornando Laclubar pequeno e os seus problemas enormes. Existe uma elevada taxa de analfabetismo, pouca informação sobre cuidados de saúde, elevadas taxas de mortalidade por doenças infecto-contagiosas e elevado abandono escolar. A isto se junta uma grande desmotivação da população, cujos sonhos têm como limite as montanhas que a envolve. Não há espaço nem oportunidades para pensar um amanhã um pouco diferente.
Mas o papel dos missionários é certamente o de construtores de sonhos, de trabalhar solos para que neles possam germinar as sementes dos ideais. Nem sempre é fácil trabalhar com as particularidades da população, que raramente cumpre um horário, que facilmente se acomoda, que não apresenta grande brio no que faz e que por vezes se enrola em histórias confusas que nos fazem desconfiar. Mas continuamos a acreditar que na formação e capacitação das pessoas está a chave para o desenvolvimento.
O meu contributo foi sobretudo em duas áreas. A primeira, na formação de jovens, através de aulas de Psicologia na escola secundária. O desafio era grande: pô-los a reflectir, a sonhar e a criar. Nem sempre nos damos conta da facilidade com que criamos outros mundos na nossa vida e como muitas vezes esse é o motor do avançar. Sentia que aqueles jovens tinham parado, rendidos a sistemas de ensino pouco motivadores e a um futuro que se afigurava cheio de impossibilidades. No fundo pretendeu-se criar um espaço onde eles se pudessem conhecer melhor, desenvolver competências pessoais e sociais e brincarem um pouco com a fantasia.
A segunda área de colaboração, relacionou-se com o Projecto EduSaúde, um projecto desenvolvido pela Ordem Hospitaleira São João de Deus, em parceria com a Fundação Evangelização e Culturas e com o apoio do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento. Pretendeu-se formar para a saúde e capacitar um grupo de pessoas da comunidade para serem transmissores dos conhecimentos para a restante população. Neste projecto, para além de estar responsável pelas formalidades exigidas (planos, relatórios, registo de presenças, avaliações, etc), tive o privilégio de estar com os formandos em sala.
Foi uma experiência interessante, principalmente pelo que dá a conhecer das dificuldades que existem, das concepções erradas que têm já interiorizadas, pelo choques que a prevenção (que tentamos promover) tem por vezes com alguns padrões culturais. Todo o restante tempo foi dedicado ao estar com a comunidade, partilhando o seu dia-a-dia e as suas histórias, das quais fui passando a fazer parte. E com o tempo foi-se quebrando a barreira da desconfiança inicial e foi-se ganhando o bem-estar de quem está em família.

Quanto ao trabalho e aos seus resultados, poderei apenas dizer que foram sementes lançadas e que serão cultivadas e cuidadas por todos os missionários que forem integrando este projecto. Mas certamente que a grande experiência, a grande mudança e o grande crescimento foram vivido por mim.
O laranja do amanhecer, o sorriso luminoso das crianças, a serenidade das pessoas, o olhar cheio de paz do Irmão Zé António e do Irmão Vitor, ficarão sempre em mim a recordar-me o quão bela e simples pode ser a vida, quando é vivida com Amor!