Natal em Timor-Leste
Laclubar, Dezembro 2009
É com uma imensa alegria que escrevo algumas (poucas) palavras neste mês em que nos preparamos para receber Jesus, para O deixar nascer em nós.
Sendo esta uma época em que devemos preparar o nosso coração para acolher, a minha partilha hoje vai muito nesse sentido da transformação, não só exterior (porque, acreditem ou não, eis que já engordei…) mas principalmente uma transformação interior.

Estou em Timor faz quase dois meses e a verdade é que, emocionalmente falando, já fiz uma viagem tão longa e complexa que sinto como se estivesse aqui há anos. Se no início tudo me era estranho, agora tudo me parece e soa familiar. Os rostos, os cheiros, as palavras, os sorrisos, tudo se vai entranhando bem devagarinho e aninhando no meu coração. É como se sempre tivesse dormido nesta cama, como se este sempre tivesse sido o meu quarto, como se sempre me tivesse sentado a esta mesa, como se sempre esta tivesse sido a minha casa e estas pessoas a minha família. É verdade, encontrei aqui uma verdadeira família, como vos direi mais adiante.
A nível de actividades concretas, ainda sinto que não fiz muito. Já vivi muito, sim. Estive durante três semanas a ter aulas de língua tétun, com um professor timorense. Foram dias muito enriquecedores, de “banhos de cultura” e de aumento de vocabulário. Acima de tudo senti-me a aprender, com vontade de ambas as partes, aumentar o que foi introduzido em Portugal. Já consigo construir algumas frases completas e já compreendo grande parte do que oiço. Isso deixa-me muito feliz, a língua é de facto muito importante para uma boa integração e para um bom serviço à, para e com a comunidade.
Iniciei recentemente também aulas de conversação e redacção de língua inglesa aos aspirantes. Vamos ver como corre!
Uma vez que o ano lectivo sofreu alterações e só começa em Janeiro, os alunos acabam por ter muitas férias (quase 5 meses imaginem!). Para que possam aproveitar esse tempo para melhorar e aumentar as suas capacidades estamos a apostar na formação ao nível do Português e da Informática. A Florbela está a dar um curso de português e eu estou a dar um curso de informática. Paralelamente a isso, ultimam-se as obras do Centro Pastoral e Comunitário: a Ludoteca já está concluída e já começa a tomar forma e cor no seu interior, a sala de informática também está pronta (aguarda apenas alguns pormenores) e a biblioteca está quase, quase pronta… Tem sido muito bonito acompanhar a evolução e conclusão destas obras, ver na cara dos jovens um sorriso, ver o entusiasmo dos bibliotecários na arrumação. Claro que aqui as coisas e as pessoas têm outro ritmo, o seu próprio ritmo. Nem sempre coincide com o nosso, com o que idealizamos… mas eis que tenho aprendido a ser paciente, a respeitar o ritmo dos outros, a deixar de lado o que eu acho que deve ser o ritmo certo e a tentar aceitar e entrar no ritmo do outro. A tarefa mais difícil é sempre sair de nós para ser com o outro…

Para o mês de Janeiro também já existem alguns planos, ainda a ser delineados mas praticamente certos. Fui convidada a leccionar uma disciplina na escola secundária, Sociologia. Confesso que a início fiquei muito reticente, não estou certa se terei ou não essa capacidade e também por causa dos timings. No entanto, este é mais um desafio que Deus me coloca e vou aceitá-lo de coração aberto. As aulas serão em português, o que facilita. Coloco-me ao dispor para que estes jovens possam crescer, como pessoas, como estudantes e como futuros profissionais. Como dizia uma frase do calendário que temos na nossa casa, “Faz o que podes, com o que tens, onde estiveres!”… Tenho apenas a certeza de que darei o meu melhor. (E, já agora, se alguém tiver material disponível que possa enviar de sociologia, não se iniba!). Quando tiver mais novidades, no próximo ano, partilharei convosco.
Quanto à “minha nova aldeia” tenho a dizer-vos que o meu coração está entregue! Laclubar é de facto um pedaço de céu. Lembro-me que na primeira viagem que fiz para cá, quando avistámos da estrada, a Flor me disse “é o paraíso não é?” e eu não percebi porquê… Hoje sei… É um lugar encantado, onde é impossível não entregar o nosso coração. Sinto como se sempre tivesse estado aqui. Encontrei uma nova família, como já vos disse antes. Quer na comunidade alargada, quer na população e, principalmente, aqui em casa. A Flor tem sido pai, mãe, irmã, amiga, confidente… Sei que as coisas nem sempre serão tão fáceis como estão a ser agora, que os problemas e as dificuldades também hão-de surgir. Como pessoas diferentes que somos é natural que assim seja. No entanto, sinto que estes dias têm sido muito importantes para solidificar a nossa relação, tem sido como criar uma base sólida para que o ano seja feito de partilha de vida, de missão, de oração e de fé. Como tenho repetido algumas vezes, não haveria outro lugar nem outras pessoas onde e com quem quisesse estar aqui. Sinto que o coração aterrou e se vai entregando a cada dia. Pode ser apenas uma ilusão, pode ser ainda muito precipitado dizer isto, mas é o que sinto agora, é como me sinto nesta altura.
Outra coisa que quero partilhar convosco é o facto de que apesar de estar habituada a uma vida social muito agitada, aqui tenho exactamente tudo o que preciso: um lar, amigos, família, comida na mesa, amor, carinho, alegria… Tudo o resto se torna acessório… Não preciso de telemóvel sempre no bolso (excepto para servir de despertador), até tem a vantagem de aqui não se ouvirem telemóveis a tocar na missa eheh; temos computador o tempo adequado, só temos internet quando vamos à cidade e isso afasta de nós a tentação de perder horas no computador e descurar as relações; não temos frigorífico nem os ingredientes e alimentos que usualmente se guardam lá, mas já aprendi a gostar de arroz, supermin e modo e, acreditem, já como com gosto; não temos chuveiro, e o gaio tornou-se já um amigo, inclusive na poupança da água; não temos água a sair das torneiras, temos de ir ao rio buscar, e isso ensinou-me já a dar valor a este bem tão precioso, a não desperdiçar e a aproveitar… Enfim… Uma série de coisas que pensei que me iam fazer falta e na verdade não fazem… aqui temos o principal e o essencial: amor, família, hospitalidade.
Quero desejar a todos um Santo e Feliz Natal, na companhia dos que mais amam. A minha mensagem deste ano vai muito nesse sentido:
Que neste Natal cada um de vós (e de nós) saiba dizer aos que ama, que os ama. Sem vergonhas, sem receios nem rodeios. Olhar nos olhos do outro e dizer-lhe “Eu amo-te e tu és-me essencial”. Que saibamos ser exemplo do amor de Deus. Que saibamos acolher o outro como acolhemos este Jesus que nasce em nós. Que saibamos ver para além dos presentes que se trocam, o presente maior que temos no dia-a-dia: o dom da vida! O dom da nossa vida, o dom de poder acordar todos os dias de manhã, o dom da vida de todos os que amamos e que fazem já parte de nós, de todos os que nos tocam o coração. Que saibamos fazer Natal em nós. Que saibamos fazer Natal nos outros. Que saibamos viver o Natal em cada dia das nossas vidas. Um Santo e Feliz Natal a tod@s!
Aqui de Timor, me uno a tod@ e cada um de vós, abraçando-vos no coração.
A vossa sempre,
Catarina