Cadafi Dias – do Crioulo ao Português
Cadafi Dias tem 28 anos e fala um português irrepreensível. É professor de português e um dos técnicos formadores de língua portuguesa da FEC. Natural de Cacheu, aí estudou até ao 6º ano.
Para progredir nos estudos foi para Bissau com 14 anos e ingressou no Liceu Jorge Ampa Cumelerbo. Embora frequentasse a escola pública de um país cuja língua oficial é o português, partilha que até aos 16 anos não falava nem ouvia português. Até ao 9º ano de escolaridade não sabia conjugar um verbo. A partir de 2004 começou a ouvir alguns programas de rádio, que embora falassem crioulo usavam expressões em língua portuguesa das quais ele procurava descobrir o significado e, com isto, despertou em si um interesse crescente pela língua oficial do seu país, e também por isso desejou ser jornalista.
Neste percurso e nesta vontade diz que conheceu um espaço fantástico que mudou radicalmente a sua vida. Começou a frequentar as Oficinas de Língua Portuguesa no liceu Agostinho Neto em 2007 e apaixonou-se pela língua.
As pessoas na Guiné-Bissau não leem, talvez tenhamos um dos piores índices de leitura do mundo, e porquê? Se eu leio uma coisa e não compreendo, vou continuar a ler? Claro que não… Se eu não compreendo um texto, porque quererei ler os livros de Amílcar Cabral, ler os pensamentos dele? Para que vou ler uma coisa que não percebo? E o problema de acesso a este património, a este conhecimento, está em não percebermos português. Ninguém aprende uma língua de um momento para o outro. Temos de começar já hoje e é preciso estímulo e motivação.
Diz Cadafi: “Estava inconformado com a minha situação, eu desejava falar bem português como alguém que tivesse estado em Portugal, e ‘consumia’ todos os livros, gramáticas e dicionários a que tivesse acesso. Isso ajudou-me muito. E agora, quando digo que nunca estive em Portugal, as pessoas ficam admiradas. O que me ajudou muito também foi o facto de ter entrado como colaborador das Oficinas de Língua Portuguesa e de começar a conviver informalmente com Portugueses neste trabalho.
Hoje sou formador de língua portuguesa da FEC e também professor. Exerço com muito amor e com uma dedicação imensa a profissão que escolhi porque eu sei que, despertando os jovens a falar a língua portuguesa, isso vai ajudar o meu país a ter mais acesso ao conhecimento e a crescer de forma mais justa e mais sustentável.”
Hoje Cadafi é casado e sorri com orgulho quando partilha que a sua filha de 6 meses ouve português em casa. Vai proporcionar à filha aquilo que não teve quando era criança, um acesso diário à língua portuguesa.
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