Ano Internacional do Turismo Sustentável

29 Jun, 2017

VIAGENS POR PORTUGAL E ITÁLIA ENTRE DIREITOS, BEM-ESTAR E PARTILHA

A Organização das Nações Unidas proclamou o ano de 2017 como o Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento, em reconhecimento ao grande potencial da indústria do turismo – responsável por cerca de 10% do produto interno bruto mundial – na luta contra a pobreza e na promoção do diálogo intercultural. Esta edição da e-NCONTROS foi procurar junto do Festival de Turismo Responsável IT.A.CÀ, na Emília-Romanha, em Itália, e junto dos Postos de Turismo Cultural e de Ecoturismo da CRESAÇOR, na ilha de São Miguel – Açores, Portugal, saber mais sobre este setor estratégico. Um setor que, para ser sustentável, tem de olhar pelos seus territórios e populações, incluindo as suas visões e aspirações num planeamento turístico integrado.

A partir da Emília-Romanha, Itália, Pierluigi Musarò, diretor do Festival de Turismo Responsável IT.A.CÀ, e Sonia Bregoli, responsável de comunicação e coordenação do IT.A.CÀ cidade, dão-nos a conhecer a riqueza das perspetivas que podem levar hoje residentes e viajantes a (re)conhecerem-se num mundo simultaneamente local e global. A 9ª edição do Festival IT.A.CÀ percorre Bolonha e outras 9 cidades da região de Emília-Romanha, de maio a outubro de 2017, incentivando um olhar crítico sobre a viagem no campo das mobilidades contemporâneas, aberta ao encontro das experiências quotidianas e menos dependente de lógicas comercialistas.

 

IT.A.CÀ – Migrantes e Viajantes

Festival de Turismo Responsável

Do ecoturismo ao trekking, do cicloturismo ao agriturismo, IT.A.CÀ convida, por um lado, instituições, operadores económicos, turistas e inteiras comunidades a experimentarem modelos alternativos, fazendo a ponte entre diferentes cidades e demonstrando que hoje um outro turismo é possível. Por outro, através de diversos eventos – como exposições, atividades em praças, convénios, concursos, visitas/itinerários em bicicleta, almoços Km0 e espetáculos – promove uma nova ideia de turismo, mais ético e respeitador do ambiente e de quem nele vive. Momentos de encontro e confronto para refletir, criticamente, sobre os conceitos de viagem e de hospitalidade, de migração, de cidadania global, de desigualdade, de desenvolvimento e de sustentabilidade. No território operam, de facto, muitas realidades que, partindo de iniciativas de desenvolvimento local, propõem formas de turismo sustentável numa ótica de valorização dos recursos do território, conservação do património natural e salvaguarda das tradições.  Programa de IT.A.CÀ aqui.

 

e-NCONTROS: Como nasce IT.A.CÀ e com qual espírito?

IT.A.CÀ - Pierluigi Musarò

IT.A.CÀ – Pierluigi Musarò

Pierluigi Musarò e Sonia Bregoli – O festival IT.A.CÀ representa o primeiro festival a nível europeu focalizado explicitamente no tema do turismo responsável. Criado em 2008, em Bolonha, a partir de três realidades do terceiro setor (Yoda, COSPE, NEXUS E-R) para sensibilizar os cidadãos sobre “direitos e efeitos” da viagem, o festival envolve hoje uma centena de atores desde os operadores locais, passando por instituições locais até entidades nacionais e internacionais. Há nove anos, através de 150 eventos espalhados por todo o território regional, o festival tem vindo a conjugar de maneira inovadora elementos estritamente interligados e estratégicos como sejam a produção cultural, a criatividade e a experiência turística. Tudo isto através de uma lógica participativa de base, que nasce da espontaneidade e da capacidade de pôr em rede a criatividade espalhada entre quem vive e faz viver o território, conseguindo envolver tanto residentes como visitantes.

e-NCONTROS: Entre viagens turísticas e viagens no seio de fluxos migratórios, como se posiciona IT.A.CÀ?

P.M. e S.B. – Para compreender como aos turistas seja sempre atribuído um significado positivo, enquanto os migrantes são citados quase sempre em relação a crimes cometidos ou imputados (quando não mesmo em relação ao seu desaparecimento no nosso mar), é suficiente considerar como se fala sempre do setor do turismo segundo uma dinâmica muito positiva e das migrações segundo uma dinâmica sobretudo negativa, sentidas como um problema. Contudo, por um lado, o turismo não se pode reduzir a uma fonte positiva de entradas e, por outro, a mobilidade é um direito e um fator essencial de desenvolvimento humano.

Festival IT.A.CÀ.

Festival IT.A.CÀ.

Um exemplo que conjuga os dois aspetos de maneira positiva e que IT.A.CÀ recebe é a experiência do Mygrantour Bologna, que nasce no seio do processo de difusão da rede internacional Mygrantour, criada em Turim, em 2008, e apoiada pela União Europeia a partir de 2013. Em Bolonha, o projeto nasceu em 2015 graças à colaboração entre a Oxfam Italia e a Associazione Next Generation Italy, uma associação composta por italianos e migrantes com o objetivo de promover a digitalização das segundas gerações e a integração intercultural. Concretamente, a experiência proposta diz respeito a uma série de itinerários interculturais urbanos nos espaços do quotidiano dos migrantes mas também dos restantes residentes que vivem e trabalham no bairro, acompanhados por alguns “guias migrantes” enquanto facilitadores do que pode ser definido como “encontro intercultural”.

e-NCONTROS – Como criar possibilidades de experiências turísticas entre os residentes de países maioritariamente recetores de turismo e com menos recursos para conhecerem o seu próprio país?

IT.A.CÀ - Sonia Bregoli

IT.A.CÀ – Sonia Bregoli

P.M. e S.B. – Incentivando a mesma filosofia de IT.A.CÀ, ou seja, criando oportunidades de reconsiderar a viagem não só como umas simples férias, aventura ou ócio, mas como uma experiência capaz de oferecer um desafio, um risco, o desejo de conhecimento e de descoberta do mundo, tanto perto como longe de casa. A viagem responsável, de facto, parte de casa e chega a casa (ît a cà = estás em casa? no dialeto bolonhês), uma qualquer casa, uma qualquer Itaca a alcançar, onde mais do que a meta conta o percurso e o modo no qual a pessoa se põe a caminho. Isto pode-se fazer sensibilizando as instituições, a indústria, os operadores turísticos e as pessoas para um desenvolvimento sustentável e socialmente responsável do território.

Por um lado, parte-se da ideia de que o exótico está ao virar da esquina e que para se ser um turista responsável não é preciso participar em longas viagens organizadas, pois o viajante auto-organizado, que não gosta particularmente de itinerários programados, pode muito bem interiorizar os valores do respeito e do encontro. Por outro lado, o turismo é considerado como algo quotidiano: experiências e atração rumo ao desconhecido, que não se reduzem a um período preciso de mobilidade nem acabam no momento em que atingimos a meta. A viagem começa muito antes e nunca termina, uma vez que o fio das recordações prossegue já depois de termos regressado, misturando diferentes mundos.

e-NCONTROS: Um turismo sustentável para todos. IT.A.CÀ propõe, entre outras iniciativas, “Adota um turista e viaja grátis”. De que se trata?

Festival IT.A.CÀ.

Festival IT.A.CÀ.

P.M. e S.B. – Adota um Turista envolve todos: falar da verdadeira hospitalidade é uma ocasião para promover novos pontos de vista sobre a viagem e falar de turismo sustentável. Baseia-se no conceito da hospitalidade que caraterizou desde sempre a história da civilização. Sentimos a necessidade de recuperar e trazer até aos dias de hoje a herança cultural da “xenia” grega, segundo a qual o anfitrião devia acolher o estrangeiro e o hóspede, por sua vez, devia ser gentil e não intrusivo, pronto a retribuir a hospitalidade acolhendo, por sua vez, o estrangeiro que se apresentasse à sua porta.

Propostas de excursões e viagens grátis aqui.

Para mais informações sobre o Festival IT.A.CÀ:

https://www.festivalitaca.net/2017/

 

Já da ilha de São Miguel, nos Açores, Portugal, Manuela Soeiro, responsável pelo Turismo Inclusivo na CRESAÇOR, apresenta-nos um modo de organizar o turismo em prol do bem-estar de todos para todos. O Posto de Turismo Cultural, em parceria com o Museu Carlos Machado, e o Posto de Ecoturismo Eco-Atlântida, em parceria com a Associação de Juventude da Candelária, oferecem diferentes propostas turísticas, em estreita harmonia com aqueles que são os recursos disponíveis, as suas potencialidades e a sua preservação, procurando dar oportunidades a todos os residentes de serem não só anfitriões mas também exploradores do seu próprio território. Tudo segundo uma lógica de desenvolvimento local comunitário que a economia solidária abraça.

 

CRESAÇOR e a economia solidária

A CRESAÇOR nasceu no âmbito do Projeto de Luta Contra a Pobreza – IDEIA (1999-2005) e pela criação de um programa para o desenvolvimento das Empresas de Inserção Sócio-profissional dos Açores, tendo assumido personalidade jurídica em 2000 sob a forma de Cooperativa de Solidariedade Social. Tem como missão a Promoção do Movimento de Economia Solidária nos Açores, aliando as dimensões do desenvolvimento local e comunitário, da formação profissional, pessoal e social e da produção e comercialização de produtos de economia solidária. A economia solidária é, antes de mais, uma atividade económica ou um conjunto de atividades económicas; promotora da coesão social; respeitadora e valorizadora do meio ambiente e de um reencontro digno com a Natureza; promotora e valorizadora da diversidade cultural; baseada em modelos de gestão, regulação, certificação e governância mais eficientes, rigorosos e integrados; territorializada e promotora do desenvolvimento comunitário; alimentada por processos de investigação-ação.

e-NCONTROS – Como nasce a proposta de Turismo Inclusivo e Cultural da CRESAÇOR?

Manuela Soeiro

Manuela Soeiro – A CRESAÇOR –COOPERATIVA REGIONAL ECONOMIA SOLIDÁRIA, enquanto empresa de animação turística com alvará nº 08/2005, promove o turismo social e acessível nos Açores desde 2004. Tendo em conta que esta valência tem como objetivo dar acesso ao lazer a grupos desfavorecidos e a pessoas com necessidades especiais, abrimos o Posto de Turismo Cultural em abril de 2015 (denominado Agência de Turismo Inclusivo e Cultural) no centro da cidade de Ponta Delgada (Rua Santa Bárbara nº18) por forma a estar mais perto dos turistas e da população, numa moradia cedida pelo Museu Carlos Machado. Com uma localização mais estratégica, dispomos de informação de caráter diverso, assim como roteiros culturais, atividades socioeducativas para escolas/IPSS e produtos e serviços para pessoas com necessidades especiais. Para além deste espaço, dispomos desde 2004 de um Posto de Ecoturismo nas Sete Cidades com alugueres de canoa, bicicleta, passeios de jipe, passeios pedestres e jogos tradicionais portugueses.

e-NCONTROS – Que visão vêm trazer as vossas propostas turísticas?

CRESAÇOR

M.S. – O Posto de Turismo Cultural, em Ponta Delgada, e o Posto de Ecoturismo, nas Sete Cidades, foram criados segundo os princípios de economia solidária, nomeadamente, da valorização das pessoas, da sustentabilidade, do ambiente,da cooperação, do desenvolvimento local e da democratização do turismo.

e-NCONTROS – Que impacto estão a ter no desenvolvimento local?

M.S. – Para além de se potenciar a diversificação das atividades desenvolvidas junto dos residentes e turistas, pretende-se apelar para a importância da responsabilidade social e do desenvolvimento local, nomeadamente, através do Posto de Ecoturismo nas Sete Cidades. Este tem um impacto muito grande no desenvolvimento local das Sete Cidades sendo o único espaço de informação turística, com iniciativas diversas de carácter ambiental, social, pedagógico e cultural. Desenvolvemos várias atividades para a população das Sete Cidades (crianças e seniores), assim como para o público em geral e turistas que visitam a região. Atualmente, os turistas têm cada vez mais preocupações ambientais e sociais, pelo que valorizam os projetos de integração social que desenvolvemos. 

e-NCONTROS – O que a mais tem surpreendido ao longo do tempo nas práticas de Turismo Inclusivo e Cultural da Cresaçor?

CRESAÇOR

CRESAÇOR

M.S. – Existe um potencial enorme no Posto de Turismo Cultural, desde a oferta de programas que incluem a visita às empresas de economia solidária sediadas em São Miguel, com uma vertente de responsabilidade social, a oferta de atividades de produtos de natureza e de lazer adaptadas a pessoas com necessidades especiais (tanto turistas como residentes) e as atividades lúdico-pedagógicas desenvolvidas junto de escolas e instituições.

Para mais informações sobre as atividades do Posto de Turismo Cultural e o Posto de Ecoturismo da CRESAÇOR:

http://azoresforall.com/pt/

CRESAÇOR

CRESAÇOR

2017: Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento

O Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento, proclamado pela 70ª Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas, visa apoiar a mudança de políticas, de práticas comerciais e do comportamento  dos consumidores rumo a um setor turístico sustentável em linha com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para 2030. Neste sentido, o #IY2017 está a promover o papel do turismo tendo em conta as seguintes áreas:

  • Crescimento económico inclusivo e sustentável;
  • Inclusão social, emprego e redução da pobreza;
  • Eficiência dos recursos, proteção ambiental e mudanças climáticas;
  • Valores, diversidade e herança culturais;
  • Compreensão recíproca, paz e segurança.

 

Conselhos para viajantes responsáveis na senda de um turismo sustentável

Mais informações em http://www.tourism4development2017.org/

Portugal associou-se à celebração do Ano Internacional do Turismo Sustentável para o Desenvolvimento em 2017. Mais informações aqui.

Últimas notícias…

Oportunidades criadas em tempos de COVID-19

Oportunidades criadas em tempos de COVID-19

A pandemia lançou-nos diversos desafios organizacionais e na implementação dos projetos que desenvolvemos. Obrigou-nos a pensar e definir planos de contingência, a cuidar da relação com parceiros e mesmo com comunidades à distância, a promover uma proximidade digital....

read more