Homenagem a D. Manuel Vieira Pinto
D. Manuel Vieira Pinto
Este Luso Fonias é dedicado a D. Manuel Vieira Pinto, uma figura importante da história recente de Moçambique, antes e depois da independência. Natural de São Pedro de Aboim, no concelho de Amarante, D. Manuel foi arcebispo de Nampula entre 1967 e o ano 2000. Em épocas difíceis da história de Moçambique, defendeu sempre os direitos humanos e a paz, e a sua voz foi muitas vezes incómoda para o poder instituído.
Para nos falar da vida e do legado de D. Manuel Vieira Pinto, contamos com o testemunho do Padre José Luzia, missionário em Moçambique há mais de 40 anos, que trabalhou de perto com o bispo em Nampula.
Na opinião do P. Tony Neves – ‘D. Manuel Vieira Pinto – O Missionário de Nampula’
“Há pessoas que deixam marcas quando as encontramos. É o caso de D. Manuel Vieira Pinto. Na obra coordenada pelo P. José Luzia está este testemunho que escrevi em jeito de homenagem:
‘Encontrei-o em Nampula no ano 2000. Fui visita-lo ao Paço Episcopal, porque queria entrevista-lo. Fui recebido sem qualquer espécie de cerimónias como, percebi, era costume. Sem protocolos, levou-me para o seu gabinete de trabalho, uma sala grande, não muito arrumada, mas muito simples.
Fiz-lhe bastantes fotos mas, quando insisti em fazer uma entrevista, ele lá me foi dizendo que era melhor só conversarmos. Depois – garantiu mas nunca cumpriu – mandaria respostas mais elaboradas pelo correio. Até hoje.
A conversa foi fantástica, como toda a sua vida por terras de Moçambique. Antes e durante a guerra colonial, ele colocou-se do lado dos mais pobres e defendeu as populações autóctones das arbitrariedades de alguns dos colonos. Em Março de 1974, foi ‘expulso’ por ter defendido a independência de Moçambique, mas o 25 de Abril fê-lo voltar pela porta grande.
Na hora da independência, era uma das raras figuras da hierarquia da Igreja que as novas autoridades do país respeitavam. Tal não impediu que o governo de Samora Machel mandasse confiscar todos os edifícios da Igreja e impedisse a circulação dos Missionários. Como resposta pastoral, D. Manuel e outros bispos e missionários lançaram o projeto das comunidades ministeriais, onde o padre não aparecia mas os líderes leigos asseguravam a vida e as celebrações das Comunidades. Talvez por esta contingência da história, hoje Moçambique tem uma Igreja bastante descentralizada e com muito empenho dos leigos na vida e missão das Comunidades cristãs.
A idade foi avançando e a saúde piorando. D. Manuel deixou Nampula e veio até ao Porto, sua Diocese natal onde ficaria a residir na Casa Diocesana de Vilar. Foi lá que o reencontrei e foi nesse momento que percebi porque é que ele nunca respondera às minhas perguntas, conforme prometera. A memória tinha-lhe fugido e ele já não conhecia bem as pessoas e, muito menos, alinhava as ideias. Coisas da fragilidade da nossa condição humana…
Nasceu a 8 de Dezembro de 1923,em S. Pedro de Aboim-Amarante. 93 anos é muito tempo, é muita vida dedicada á causa do Evangelho. D. Manuel é um homem alegre. Em Nampula, tive a alegria de partilhar um tempinho com um pastor feliz. A meio do encontro, levantou-se da sua cadeira, foi ao pátio da casa onde tinham chegado crianças e começou a distribuir saudações e rebuçados. Era, pelo que me disseram, um ritual habitual que as crianças muito apreciavam, num tempo em que um rebuçado era uma pequena preciosidade naquelas paragens.
Se pudesse, ia dar-lhe um abraço. Sei que ele não o compreenderia, mas eu gostava de lhe exprimir a admiração que tenho por ele e por tantos homens e mulheres que, em tempos difíceis, ousaram anunciar o Evangelho da Justiça, da Paz e da Alegria’.
Obrigado D. Manuel. Que a sua vida e Missão sejam inspiração para muitos, dentro e fora da Igreja.”


