Coração de Mulher
Coração de Mulher
Nesta semana em que celebrámos o Dia Internacional da Mulher, o Luso Fonias apresenta o trabalho da Ajudaris, uma associação com sede no Porto que presta apoio a crianças, jovens e idosos carenciados. Contamos com o testemunho de Rosa Vilas Boas, fundadora e presidente da Ajudaris, para nos contar tudo sobre este projecto. Da Guiné-Bissau, chegam-nos ainda os ecos do Dia Internacional da Mulher, numa peça da Rádio Sol Mansi.
Na opinião do P. Tony Neves – ‘Obrigado, P. Henrique Cheepens’
“Há homens que marcam e o P. Henrique é um deles. Eu estudava Teologia em Lisboa no fim dos anos oitenta. Saiu-me na sorte fazer trabalho pastoral na Paróquia da Cruz Quebrada, cujo pároco era o P. António Colimão. A Paróquia tinha duas grandes periferias: o vale do rio Jamor, junto ao Estádio Nacional, com refugiados timorenses, apoiados pelo P. Apolinário Guterres; o Alto de Santa Catarina, com um enorme e problemático bairro de lata, habitado por uma maioria de caboverdianos, apoiados pelo P. Afonso Cunha. Foi no centro da paróquia e, sobretudo, no Alto de Santa Catarina que tentei dar o melhor de mim entre 1985 e 1988.
Não muito longe do bairro estava outro bairro de lata com fama mais arrasadora: a Pedreira do Húngaros. Ali viviam, numa barraca no meio do bairro, os Padres dos Sagrados Corações, holandeses. O responsável da Comunidade era o P. Henrique Scheepens, homem de uma enorme coragem e radical opção pelos mais pobres. Muitas vezes lá ia com os jovens do Alto, outras tantas apenas para me encontrar com os padres ou celebrar no bairro a convite deles.
Fui para Angola e, no regresso, soube da destruição do bairro e realojamento dos seus habitantes. Perguntei pelos padres, sobretudo pelo P. Henrique, e disseram-me que tinha mudado de bairro, mas não de compromisso. Assim, instalou-se na comunidade que animava as paróquias da Charneca e das Galinheiras, mudando-se mais tarde para Unhos e Catujal. Sempre do lado dos mais excluídos e pobres, sensível às periferias e margens da cidade de Lisboa.
A vida dá muitas voltas e, em 2012, vou reencontra-lo com frequência nas reuniões de Superiores Maiores, em Fátima. Já quebrado pela idade e doença, em nada mudava o discurso e a sua convicção missionária de testemunhar o amor de Deus junto dos mais pobres e abandonados das nossas sociedades. Era uma alegria partilhar dois dedos de conversa e recordar os velhos tempos dos bairros de lata, pobreza de que nem eu nem ele tínhamos saudades. Mas as pessoas, essas sim, ficaram e ficam nos nossos corações e são o melhor do mundo.
Soube pelo novo Superior do P. Henrique que ele, por doença grave, teve de regressar à Holanda para cuidados continuados. Foi uma enorme tristeza para mim. Fiquei agora mais chocado com a notícia da sua morte, na sua terra natal mas muito longe do povo por quem deu a vida.
Obrigado P. Henrique pela força e coragem do seu testemunho, pela pobreza com que viveu e pela fé que transmitiu com as suas escolha de opção clara pelos pobres. A sua ousadia de percorrer periferia e margens serão para mim, sempre, um ponto de referência obrigatório.”


