São Tomé e Príncipe
São Tomé e Príncipe
Este Luso Fonias é dedicado a S. Tomé e Príncipe, que celebrou na passada quarta-feira 42 anos da sua Independência. Para nos falar deste país, da sua comunidade e da sua cultura, contamos com o testemunho de Nádia Dinis, uma voluntária portuguesa do Projecto Sonha, Faz Acontece, que desde 2012 tem intervenção na ilha do Príncipe.
Na opinião do P. Tony Neves – ‘S. Tomé e Príncipe – alegrias e dificuldades do povo das Ilhas Verdes’
“Hoje, ao falar de S. Tomé e Príncipe, vou dar voz ao Bispo destas Ilhas verdes. Ele encontrou um povo simples e bom, com vontade de crescer na fé e na cidadania. Problemas também os havia à farta. De alma e coração, D. Manuel António pôs mãos á obra na evangelização integral do povo santomense.
Diz: ‘O povo santomense é naturalmente religioso. Há uma cultura crioula muito arreigada, sentindo-se isso também na vivência da fé. Nota-se a presença de rituais de tradição animista, mas também muito de outras tradições, particularmente de Portugal. Temos as festas dos santos, com as suas procissões, as suas novenas, mas onde também se misturam crenças ancestrais, pedidos de protecção, ritos sincretistas. O baptismo continua a ser muito procurado, mas já não tanto os outros sacramentos. A fé mistura-se com ritos e crenças, sentindo-se uma forte tendência para ver a religião mais como um conjunto de ritos protectores que uma caminhada de vida com o divino. Há uma desestruturação familiar acentuada, com uma grande maioria das famílias a ter a mulher como o sustentáculo do lar, já que o homem prima pela ausência.
No entanto, sente-se a presença de uma cultura católica marcante. As Igrejas com as suas festas, as suas cerimónias litúrgicas, as suas eucaristias vivas, as missas pelos defuntos, são marcos bem presentes na paisagem humana santomense’.
Sobre a situação política, económica e social, o Bispo é cauteloso nas palavras: ‘São Tomé e Príncipe ainda é visto por muitos hoje como um exemplo de democracia em África. A nível económico a situação sempre foi difícil e continua. O desequilíbrio entre as importações e exportações é enorme. O orçamento de Estado é feito contando apenas com dez por cento de rendimentos próprios. O desemprego é elevadíssimo. O Estado acaba por ser o maior empregador do país, um Estado com pouca capacidade de resposta aos desafios que lhe são apresentados. A agricultura de subsistência e a pesca artesanal são os sectores que mais gente ocupam. A pobreza generalizada é uma realidade que não se pode ocultar. E a vida é muito cara. Os salários são baixíssimos, mas os produtos custam tanto ou mais que na Europa. A nível social, encontramos uma sociedade onde a falta de esperança no amanhã é talvez o maior drama que afecta a vida das pessoas. A falta de emprego, de perspectivas de futuro e a pobreza generalizada contribuem para isso. A desestruturação das famílias também não ajuda. O facto de muitas famílias contarem apenas com os rendimentos da mãe, contribui para a pobreza das famílias. Vive-se à espera de “messias”, de salvadores. Mas estes tardam em chegar. Apesar de tudo, a escolarização da população aumentou muito, a luta contra a malária tem sido um êxito, tem havido um esforço grande para levar água e energia a todas as povoações, o abastecimento do país em bens tem sido regular’.
A última palavra de D. Manuel António é virada para o futuro: ‘Apesar de todas as limitações que sofremos, continuo a acreditar no futuro de São Tomé e Príncipe. A aposta na formação das nossas crianças e jovens, o empenho numa catequese permanente e capaz de levar à conversão e adesão à Igreja, a perspectiva de virmos a ter brevemente um número significativo de sacerdotes santomenses, o entusiasmo que se sente na comunidade cristã na celebração da sua fé, são aspectos que nos ajudam a acreditar no amanhã. E acredito que brevemente São Tomé e Príncipe poderá mesmo ter à sua frente um bispo africano. Quando tal suceder, ficarei contente, porque será sinal de que a Igreja destas Ilhas verdes, plantadas no Equador, se afirma capaz de assumir os seus destinos’”


