Padre Américo e a Casa do Gaiato

28 Out, 2017

Padre Américo e a Casa do Gaiato

by Luís Leal

Este Luso Fonias procura conhecer melhor a vida e a obra do Padre Américo Aguiar, fundador da Casa do Gaiato. Esta semana assinalaram-se 130 anos sobre o nascimento deste sacerdote português, impulsionador de várias casas de acolhimento para rapazes carenciados, que hoje perduram em Portugal, Angola e Moçambique. É nosso convidado Luís Leal, investigador do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, que tem estudado o pensamento e o legado do Padre Américo.

Na opinião do P. Tony Neves – ‘O Padre dos meninos de rua!’

“Evocar o Padre Américo aqui na Bolívia e Paraguai dá vontade de gritar e chamar por ele. Missões como a ‘Obra da Rua’ continuam actuais e urgentes, um pouco por todo o mundo. Aqui, nestas paragens latino americanas, há tantas crianças de rua que se torna decisivo arregaçar as mangas e fazer algo por elas, enquanto não se faz tarde demais.

Conheci o P. Américo através do jornal ‘O Gaiato’ que chegava a casa e que eu lia sempre com muito entusiasmo. Embora nascesse e crescesse muito perto de Paço de Sousa, só lá fui quando tinha mais de 20 anos, mas conhecia bem a figura carismática do P. Américo e o amor que nutria pelos abandonados das nossas sociedades. Agradava-me nele, sobretudo, a compaixão pelas crianças que as famílias mandavam para rua onde tinham de sobreviver por qualquer preço. E todos podemos imaginar o alto preço dessa sobrevivência!

Marcou-me muito, em 1992, em plena guerra civil, a visita que fiz à Casa do Gaiato de Malanje, em Angola. Por ali passaram (e continuam a passar!) muitas crianças, adolescentes e jovens sem família. A alma desta instituição tão apreciada por todos era o P. Telmo Ferraz, um transmontano que fez de Malanje a sua terra. Construiu casas, escolas, oficinas, Igreja, pomares e campos para o cultivo. E fez da Casa do Gaiato uma grande escola de vida. Durante a guerra civil, militares e bandidos assaltaram e destruíram várias vezes as estruturas da instituição. Sempre o P. Telmo ousou partir do zero (ou quase) e levantar das cinzas esta obra cada vez mais emblemática. Nem o peso dos anos nem a desilusão das destruições o fizeram quebrar ou recuar. Vivia a mística do P. Américo a quem só a morte de acidente fez baixar os braços.

Tenho encontrado muitas crianças aqui nesta parte sul interior da América Latina. Abarrotam as escolas, as Igrejas, as ruelas dos bairros. Muitas parecem passar ao lado de um futuro risonho porque a pobreza é muita e escasseiam oportunidades. Muitas adolescentes aparecem grávidas. A experiência que fiz com o projecto ‘Gotas de Amor’ marcou-me muito. No imenso mercado abastecedor, nas periferias de Assunção, há centenas de crianças e adolescentes ao ‘deus-dará’, sempre à espreita de uma oportunidade de ajudar a carregar ou descarregar algo. Muitos esperam apenas por bocados de fruta estragada que possam pegar, comer e levar para casa. O projecto ‘Gotas de Amor’, fundado pelos Espiritanos, apoia dezenas destas crianças, cada sábado, com equipas de rua que vão ao encontro das crianças, conversam com elas e dão-lhes uma refeição quente. Mas pretendem ir muito além, pois muitíssimo fica por fazer em ordem a uma integração destas crianças na sociedade.

Há carismas que têm o selo da perenidade, pois serão actuais em todos os tempos e lugares. Esta preocupação do Padre Américo pelos rapazes sem família continua a ser desafio forte para a Igreja hoje. Mudam-se os tempos e as formas de intervir, mas os problemas atravessam as fronteiras do tempo e do espaço e mantêm-se quase sempre os mesmos.

É uma honra poder olhar para figuras como o P. Américo e captar algo da sua inspiração. Homens como ele fazem muita falta à Igreja e às sociedades, porque lhes fizeram muito bem.”

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