A fé muda sempre tudo

30 Jul, 2019

INQÚERITO AO VOLUNTARIADO MISSIONÁRIO

A diferença entre o voluntariado missionário e voluntariado internacional é a fé. É a fé que orienta os voluntários no seu caminho e é também a fé que está na base do relacionamento que estes estabelecem com as comunidades de acolhimento que os recebem. Para Catarina António, Coordenadora da Rede de Voluntariado Missionário que está sob responsabilidade da FEC desde 2002, a missão traz mudança e crescimento não só aos lugares que precisam do apoio de voluntários, mas também para a própria pessoa que parte. Neste mês, a respeito da apresentação dos resultados do Inquérito ao Voluntariado Missionário, falamos com Catarina António para dar a conhecer melhor quem este ano parte para dar o melhor de si aos outros.

Fotos: Gustavo Lopes Pereira

e-NCONTROS – Em que contexto surge o Inquérito ao Voluntariado Missionário? Nós todos os anos queremos dar rosto a estas pessoas que partem. Ouvimos muito no nosso contexto nacional que os jovens não se comprometem, que cada vez há mais dificuldade em mobilizar os jovens, e este inquérito prova exatamente o contrário. Que os jovens têm uma fé ainda muito viva, que os jovens estão disponíveis e são comprometidos. Um jovem que tem que deixar a sua vida, o seu conforto, o seu lar, para partir por um mês que seja, já está a fazer um grande compromisso, já está a dar um grande testemunho de fé. Queremos dar rosto e voz a estas pessoas. Dar a conhecer o seu trabalho. O inquérito surge no contexto da Rede de Voluntariado Missionário, que junta cerca de 60 organizações da sociedade civil, como IPSS (Instituições Particulares de Solidariedade Social), ONGD (Organizações Não Governamentais para o Desenvvolvimento), grupos de jovens, grupos paroquiais ou criados a partir de congregações religiosas e que promovem a missão do Voluntariado Missionário, dentro e fora de Portugal. Fazemos a diferença entre o voluntariado a nível nacional – o Voluntariado Missionário dentro do país – e o Voluntariado Missionário Ad gentes, além fronteiras, saíndo do nosso país para ir ao encontro dos outros.   e-NCONTROS – Que indicadores e tendências se destacam do inquérito? Antes de tudo é importante reforçar que estes dados são recolhidos a partir de 37 organizações e que a rede é composta atualmente por 62 entidades, pelo que os números são sempre inferiores ao real, dependendo do número de inquéritos efetivamente preenchidos. Dito isto, destacaria o voluntariado Ad gentes – para fora do país – que este ano envia 368 pessoas voluntárias que realizam projetos em países em desenvolvimento. E também o número crescente de pessoas a fazer voluntariado em Portugal. Temos 691 voluntários este ano em Portugal e vemos que já fazem missões e experiências de voluntariado concreto com maior compromisso. Temos grupos a fazer voluntariado uma vez por semana, em algumas regiões, tempos grupos a fazer um mês de missão, e isso também é muito positivo. Não se pode ir lá para fora sem ser voluntário cá dentro. E destacaria também aqui o facto de São Tomé e Princípe ser o país que recebe mais voluntários – 80 pessoas – e de termos 22 voluntários de longa e curta duração com imersão completa em projetos em Portugal, à semelhança do que acontece em missões internacionais. Os Leigos para o Desenvolvimento foram pioneiro a desenvolver missões de longa duração em Portugal [de 1 ano]. Outros países de destino, este ano, são: Moçambique, Angola, Guiné-Bissau, Cabo Verde, Brasil, Tanzânia, Zâmbia, Equador, Espanha, África do Sul, Marrocos, Etiópia e Timor-Leste.   e-NCONTROS –  Que atividades desenvolvem os missionários? Eles trabalham muito no campo da educação e da formação: dependendo das suas competências técnicas, dão aulas e formações, seja em Portugal ou noutros países. Trabalham também muito na área pastoral, apoiando o trabalho das igrejas locais, maioritariamente com crianças e jovens, desenvolvem atividades sócio-culturais, trabalham na agricultura. Atualmente já se começa a trabalhar na área do ambiente e da saúde. No fundo, acabam por trabalhar muitas áreas ao mesmo tempo. Não há um projeto estanque. O voluntário quando vai em missão não trabalha só numa área, trabalha em campos diversos.

 

e-NCONTROS –  O que é que voluntário ganha com esta experiência?

O voluntário ganha uma volta de 360º na sua vida. Muda tudo na vida do voluntário. Mesmo nas partidas de curta duração, que podem ser um mês a seis meses e que constituem a maior parte das partidas, essa pessoa nunca mais é a mesma. Aprende a viver com menos, aprende a ser mais simples. Percebe que tem que estar sempre disponível: na missão a pessoa está disponível 24 horas por dia. Ganha principalmente um crescimento a nível humano. Cresce-se muito com a fragilidade do outro, porque na fragilidade do outro nós encontramos a nossa própria fragilidade. É o nosso confronto com a realidade. Depois, os que são cristãos, e partem enviados em nome da Igreja, também ganham um crescimento e um amadurecimento da fé. Nós queremos muito que a Igreja seja à nossa imagem e semelhança – à nossa – e percebemos que não é assim. A Igreja é a imagem e semelhança de Cristo e somos nós que temos que ser mais parecidos com Ele – às vezes nas situações mais difíceis. Muitos vão-se confrontar com vivências que vão contra os seus valores e isso faz-nos crescer muito enquanto cristãos e faz-nos querer, cada dia mais, ser Igreja, com tudo o que isso significa. Mais tolerantes, mais disponíveis, mais multitask – que é uma coisa que hoje em dia é muito exigida.

 

e-NCONTROS – E o que ganham as organizações que acolhem os voluntários?

As organizações ganham o saber e a entrega do voluntário. Levam o seu saber, a sua maneira de estar. As próprias congregações religiosas ganham muito com a presença dos voluntários. É um trabalho muito árduo estar em missão anos e anos, 24 horas sobre 24 horas. Essa é a vida que escolheram, é a vocação que estão a seguir, e o voluntário leva alegria, leva entusiasmo e a ousadia de arriscar em coisas que quem está há muitos anos já está um bocadinho cansado. E essa alegria, essa ousadia, essa jovialidade que vai entrando nas missões, traz todo um crescimento à organização. E obviamente que depois as pessoas voltam [de missão] e, se houver um trabalho conjunto, as pessoas continuam o caminho cá. A colaborar com as organizações, a promover os projetos, a preparar outros voluntários para partir – às vezes a integrar as chefias, as direções dos grupos. E isso é sempre uma mais-valia para os grupos: ter pessoas mais envolvidas.

 

e-NCONTROS –  Este ano, cerca de 22% dos voluntários repetem a experiência…

Quem faz uma experiência destas, quer sempre fazer outra. Principalmente quem faz uma missão de curta duração, depois quer ir em projetos maiores. Também há pessoas que integram os grupos, passam para funções de coordenação e já vão com outra função a acompanhar outros voluntários. Outros querem ir trabalhar para o país onde estiveram em missão, com a mesma organização ou com outra. É uma marca que a missão deixa nos voluntários.

 

e-NCONTROS –  Qual é o perfil do voluntário missionário em 2019?

A maior parte dos voluntários tem entre 18 e 30 anos; 35% são estudantes e 32% são pessoas que estão empregadas mas que dedicam o seu tempo de férias para integrar estes projetos de voluntariado. 8% são recém-licenciados que acabam os seus cursos e dedicam estes primeiros tempos à missão. Continua a haver mais mulheres: 72%. Nas missões de longa duração o perfil etário aumenta até aos 50 anos. São pessoas que habitualmente já estão a trabalhar, já têm a sua vida profissional, já têm a sua vida estável, e é quando decidem pedir uma licença sem vencimento ou mesmo deixar o emprego para integrar projetos de voluntariado. Este ano temos 17 pessoas nessa situação. Outro dado interessante é o facto de termos 27 pessoas na reforma que decidem dedicar o seu tempo a esta experiência de voluntariado missionário. Já são 7% do universo total das partidas.

 

e-NCONTROS – Qual a diferença do Voluntariado Missionário relativamente a outros tipos de voluntariado?

A diferença entre o Voluntariado Missionário e o Voluntariado Internacional é a fé. Os jovens que partem em Voluntarido Missionário são jovens que ou são católicos, cristãos, ou estão ligados a congregações religiosas, quer na sua formação em Portugal, que depois nas suas missões no exterior. Essa é a grande diferença.

 

e-NCONTROS – Mas também há católicos a realizar missões de Voluntariado Internacional.

Sim claro, eu acredito que a religião não é um factor impeditivo para participar ou deixar de participar numa missão. Estes jovens que são católicos, que estão mais comprometidos com uma congregação, com um movimento, acabam por integrar esta rede porque têm um caminho próprio. Um caminho de formação, um caminho de conhecimento, e é diferente partir com suporte cá e lá, do que partir num projeto em que muitas vezes não existe suporte nenhum.

 

­e-NCONTROS – Mas existe diferença na prática? Ou seja, do ponto de vista daquilo que as pessoas fazem nos projetos, ou no terreno?

A fé muda sempre tudo, não é? A maneira como nós agimos está muito condicionada pela pessoa que nós somos. Obviamente que um voluntariado cristão, missionário, tem este cunho da fé e a nossa ação acaba por se pautar mais pelos valores da Igreja Católica. Penso que não fará diferença ao nível do trabalho concreto. Faz diferença na relação: na vida em comunidade, no trabalho que se faz com as comunidades locais, na proximidade com as pessoas. Os países de missão são países que têm a religião muito marcada. Uma pessoa que vive a mesma fé e comungue dos mesmos valores tem muito mais facilidade em chegar ao povo.

 

e-NCONTROS – Que conselho daria a alguém que está a pensar fazer voluntariado missionário?

Eu digo sempre esta frase: “não tenham medo”. Muitas vezes diz-se: “tenho muita vontade”, “gostava muito de…”, “tenho o sonho de…”, mas depois não arriscamos. Não arriscamos porque temos medo do que isso significa em termos de mudança na nossa vida. Mas se formos sem medos, avançarmos sem medos, e se formos de coração aberto… No caso concreto de pessoas que são católicas, que vivem a sua fé, como os voluntários missionários, nós somos missionários desde o dia do nosso batismo e somos impelidos a sair de nós e ir ao encontro do outro. Por isso, porque não arriscar? Entrar num avião, levar o que de melhor nós temos aos outros. Mas sem medos: quem tem Deus no coração, não tem nada a temer. Este é o meu conselho, sendo uma pessoa de fé que passou pela experiência do voluntariado. Quando saí do avião, depois da primeira missão, os meus pais quase não me reconheciam e eu, no princípio, fiquei um bocadinho assustada, mas dou sempre este conselho: fiquei assustada porque era diferente e tudo o que é diferente assusta, mas nem sempre o que é diferente é mau. No meu caso a diferença foi muito boa e mudou a minha vida de pernas para o ar, mas tornou-me uma pessoa melhor, uma cidadã melhor, uma profissional melhor e, acima de tudo, uma cristã melhor.

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