Ser Missionário em tempo de Covid-19

21 Abr, 2020

A FEC dinamiza desde 2002 a Rede de Voluntariado Missionário, com 61 organizações, e é anualmente responsável pela formação de dezenas de voluntários missionários que partem com grupos diferentes, para missões diferentes, criando laços e sinergias para projetos ainda mais ricos.

Neste momento, em Angola, Cabo Verde, Moçambique e Etiópia encontram-se seis voluntários, que participaram na formação da FEC em 2019, e que dão o seu testemunho do que é ser voluntário missionário hoje, em tempo de pandemia, em cada uma das suas comunidades.

Testemunho Maria da Conceição Julião | Grupo Missionário Ondjoyetu | Em missão no Sumbe (Angola):

 

“É no mínimo um pouco estranho ser missionário em tempo de Covid…

O afastamento a que nos vemos obrigados quando o nosso objetivo inicial, enquanto missionários, era exatamente a proximidade com as comunidades, o passar dos conhecimentos e experiências, ferramentas que tão necessárias são, para o desenvolvimento de um povo que após décadas de guerra continua a estar vulnerável, porque a guerra tudo destruiu e a reconstrução do país devastado demora muito tempo.

É no mínimo muito estranho ouvir a polícia nas ruas com megafone mandando que se saia da rua e que as pessoas fiquem em casa, quando a vida aqui é vivida na rua e as casas são somente para dormir. É no mínimo estranho que as populações que vivem do pequeno comércio nas ruas estejam impedidas de o fazer, que os mercados estejam abertos apenas até às 13h00 e só 3 dias por semana. As pessoas aqui não têm despensa, compram a cada dia aquilo que comem, não têm recursos para se abastecer.

É verdade, é muito estranho, porém há que criar alternativas e estratégias para lidar com esta realidade que a pandemia da Covid-19 nos traz, pondo-nos à prova enquanto cidadãos e desafiando-nos a ter reflexões mais profundas e que com fé e resiliência consigamos ultrapassar estes tempos.”

 

Testemunho do casal  Juliana Castro e André Alves | Voluntariado Espiritano | Em Missão em Cabo Verde:

“Ser Missionário em tempo de pandemia torna a missão, ainda mais, em um ato de fé.

Vai muito mais além do que sair da zona de conforto. É necessário reinventar, redefinir os espaços onde nos movemos e tentar continuar o percurso que foi começado; mais do que nunca a missão não é só fora de portas… é a oportunidade de nos concentrarmos em atividades que fomos protelando anteriormente, aprofundar laços e fazermo-nos ainda mais família da família que nos acolhe.

No entanto, torna-se difícil prosseguir quando a missão, aquela a que estamos habituados, está literalmente ao nosso lado e não a podemos abraçar no seu todo… já não são as dificuldades logísticas, nem os recursos, nem as saudades (tanto dos que estão perto, como dos que estão longe) o grande desafio. O verdadeiro desafio é enfrentar o tempo, suportar a espera e estar preparados quando o momento de voltar chegar.”

 

Testemunho de Susana Magalhães Vieira e Rui Magalhães Vieira | Missionários do CMAB | Em missão em Ocua, Pemba (Moçambique):

missionarios_CMAB pemba susana rui

“Neste tempo de dificuldades e de provações quase tudo mudou e, ao mesmo tempo, tanta coisa permanece como antes! Permanece o “estar em Missão”, a vontade de “ser Missão” e a convicção desta vocação. A convicção de que ser missionário é uma entrega total ao outro. Perante a dúvida e a incerteza, a decisão de permanecer no local que nos recebeu e dar continuidade ao “Sim” que nos enviou, e continuar a trocar o (talvez) certo pelo (talvez) incerto. E ir buscar o mesmo entusiasmo e convicção do primeiro dia e com o mesmo turbilhão de emoções continuar a viver, lutar e assistir às mesmas dificuldades agora acrescidas de um inimigo oculto.

E, afinal, o que muda? Muda a forma. A forma de estar com os outros: não há apertos de mão, não há abraços, há menos sorrisos. A forma de trabalhar: não há trabalho de pastoral “de campo”, permanece o trabalho essencial ajustado à nova realidade e idealizam-se novas formas de ajuda; adiam-se projetos e ideias que começavam a ganhar forma; intensifica-se o famoso “teletrabalho”, projetando o regresso à normalidade. Mudam os avisos e as chamadas desta ou daquela atividade para os avisos dos cuidados constantes a ter; bem como para serenar certos momentos de inquietação e de desânimo pelo que fica por fazer.

E mudam sentimentos: ora há mais angústia, medo, incerteza,… não muito diferente ao de outras vidas e realidades; ora há mais confiança e esperança de alcançar o final desta estranha forma de estar… que ainda assim não retira o entusiasmo deste “ser Missão”!”

 

Testemunho de Pedro Nascimento, Leigo Missionário Comboniano em Missão na Etiópia:

missionario, etiopia

“A missão é dom de Deus. Como instrumentos do Seu Amor sujeitamo-nos, muitas vezes a situações que limitam o nosso trabalho e o desejo de estar com as pessoas.
Também, aqui, na Etiópia, a Covid-19 fechou-nos em casa, afastou-nos fisicamente das pessoas, suspendeu os nossos trabalhos: escolas fechadas, atividades pastorais suspensas, estado de emergência em vigor.
Porém, a Covid-19 deu-me mais tempo para rezar pelo povo que me acolhe e por todo o mundo, tempo para aprofundar o estudo da língua, tempo para parar e refletir, tempo de espera evangélica.
A missão não está no muito fazer, senão no muito amar!”

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