Fratelli Tutti – Solidariedade, Fraternidade e Amizade Social
Ao tentarmos sair da crise pandémica global, o Papa Francisco ofereceu-nos as suas reflexões sobre como o podemos fazer, recordando-nos que nenhum de nós estará seguro se não estivermos todos seguros. Esta não é a primeira vez que o Papa fala da nossa interligação e responsabilidade de uns para com os outros, como uma família humana que partilha um lar comum. A sua Carta Encíclica anterior, publicada há cinco anos, “Laudato Si“, foi um apelo a compreender como as ações que tomamos, as escolhas que fazemos e os nossos próprios estilos de vida estão a ameaçar todas as formas de vida deste planeta, à medida que continuamos a ultrapassar as fronteiras planetárias. Há um ano, o Papa reuniu os Bispos e outros líderes da Amazónia para refletir e discutir a forma como o nosso comportamento colonial e destrutivo em relação à região amazónica está a conduzir ao rápido e dramático desaparecimento de culturas, espécies e vidas humanas nesta parte do mundo. Convidou-nos a ouvir, a abrir-nos a outras verdades, histórias e conhecimentos que os povos indígenas podem partilhar connosco, a fim de preservar o nosso planeta, o nosso lar e, portanto, nós próprios. Durante a pandemia de Covid-19, o Papa Francisco continuou, uma vez mais, a desenvolver estes pensamentos sobre interdependência e inter-relação e a ligação entre os nossos excessos, o nosso individualismo, o nosso nacionalismo e o sofrimento que vemos à nossa volta. Só juntos curaremos este mundo ferido, só transformando, convertendo-o numa cultura de cuidado, de responsabilidade, de harmonia e de escuta, sairemos mais fortes desta crise.
Esta nova carta para o mundo fala de solidariedade e fraternidade. Lembra-nos que temos que pensar em “bem comum universal”, empenharmo-nos numa economia que “é parte integrante de um programa político, social, cultural e popular”. Continua e aprofunda esta reflexão sobre a relação entre a forma como tratamos a terra e a forma como nos tratamos uns aos outros, aproximando-nos cada vez mais do nosso próprio papel e responsabilidade na forma como tratamos o nosso “vizinho”. Quem é o nosso “vizinho”? Pergunta o Papa, referindo-se à parábola do Bom Samaritano, apenas para responder que não se trata do outro. Trata-se de nós. Temos que ser o vizinho.
Na sua terceira Carta Encíclica, o Papa Francisco desafia-nos uma vez mais a sair das nossas perigosas tendências de construção de muros, de autoproteção, nacionalismo e isolamento. Apela às instituições multilaterais, aos políticos, aos governos, mas também aos indivíduos para que formem um novo tipo de comunidade humana. O Papa convida-nos à esperança, porque, como diz, “a esperança é ousada”, e a deixarmo-nos abrir ao mundo que nos rodeia, porque é na riqueza da nossa diversidade e na multiplicidade de vozes e ideias que construiremos a paz.
Por vezes, muito político, o Papa não se coíbe de identificar todas as formas em que não fomos bons vizinhos, não fomos irmãos e irmãs de outras nações, outros povos, e os excluídos nas nossas próprias sociedades.
Ao longo do texto, uma palavra volta tantas vezes, que é difícil de contar, como uma repetição meditativa. Amor. Amor ao nosso próximo, amor ao nosso povo, amor à nossa cultura, amor social, amor político, amor fraterno. Ao nomear as nuvens que pairam sobre o nosso mundo, o Papa partilha connosco como persegui-las e como imaginar juntos um novo mundo. Mas, o que é claro ao longo desta leitura, é que novos sistemas devem ser imaginados, novas ideias devem ser consideradas, novos caminhos devem ser construídos, e a única maneira de isto acontecer é se abrirmos os nossos corações à justiça, dignidade, solidariedade e bem comum. A paz será possível “a partir de uma ética global de solidariedade e cooperação ao serviço de um futuro modelado pela interdependência e a corresponsabilidade na família humana”.
Josianne Gauthier, Secretária-geral da CIDSE
A CIDSE é uma rede internacional de agências católicas para o desenvolvimento, da qual a FEC – Fundação Fé e Cooperação é o membro português.
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