As tradições de São João
As tradições de São João
Neste Luso Fonias vamos festejar o Dia de São João lembrando uma das festas portuguesas mais tradicionais: o São João do Porto. Na noite passada, as ruas da Cidade Invicta encheram-se de milhares de pessoas munidas de martelinhos e alho porro, que saltaram fogueiras, soltaram balões e assistiram ao fogo de artifício. Vamos conhecer a origem de todas estas tradições, numa conversa com Germano Silva, um dos maiores conhecedores da história da cidade do Porto.
Na opinião do P. Tony Neves – ‘Santos populares?’
“Carlos Paião, de grata memória, cantou: ‘Viva o S. António, viva o S. João, viva o dez de Junho e a Restauração! Viva até S. Bento se nos arranjar dias feriados para festejar!” E, como a brincar se dizem grandes verdades, Carlos Paião pôs um dedo numa das feridas da nossa relação com as realidades sagradas: usamos e abusamos das pessoas e realidades religiosas!
Não tenho nada, rigorosamente nada contra as festas do povo. As pessoas precisam delas para descarregar stresses e recarregar baterias. E mais: as festas que juntam o povo são vitais para o exercício de uma cidadania responsável, pois obrigam as pessoas a congregar esforços e a celebrar juntos a alegria de viver. Fique aqui registada a minha concordância e apoio às festas das aldeias, vilas e cidades.
Mas (há sempre ‘mas’…) há que distinguir o que é festa popular e o que os santos e santas trazem de valor acrescentado à história da humanidade. São inspiração pela vida, pelas escolhas feitas, pelos compromissos radicais assumidos, pela fé testemunhada. Para nós, cristãos, celebrar Santo António, S. João e S. Pedro tem de ir além de sardinhas, marchas, alhos porros, martelos e muito bailarico! As suas vidas continuam a falar alto e calar fundo. Olhar para o sentido de Missão, a coragem da pregação, a largura de vistas da peregrinação de S. António, rasgas horizontes novos à vida. Ver com olhos de ver a coragem profética de um S. João Baptista a apelar para valores radicais e essenciais, a denunciar injustiças e atitudes indignas, aponta caminhos de mudança social. Perceber como S. Pedro deixa redes e passa o resto da vida como pastor da Igreja nascente, correndo riscos e dando a vida pelo Evangelho, fortalece as vidas marcadas pelas contrariedades e dores que não se suportam sem fé.
Ora, celebrar os Santos Populares é perceber, de uma vez por todas, que a vida cristã gera felicidade e alegria e, por isso mesmo, merece ser transformada em festa. É bom ver que, ao longo da história, o sagrado e o profano andaram de mãos dadas. Nos países de tradição cristã, as festas do povo eram as festas da Igreja, assentes na celebração da memória dos santos que carimbaram, com fé e coragem, convicções profundas.
Então, em que ficamos? Damos graças a Deus porque os santos marcam o ritmo festivo do povo. Mas não podemos aceitar, como cristãos, a perda de passar ao lado do essencial das suas vidas. Façamos festa de rua, mas participemos activamente nas celebrações litúrgicas que dão graças a Deus pela Sua presença nas vidas das pessoas. E é bom aprofundar a vida e a Missão destes santos populares para vermos a riqueza que ali vamos buscar.
Os santos são inspiração, Ninguém imita ninguém, porque não há duas vidas iguais. Mas as suas intuições e compromissos abrem-nos os olhos do coração para construir um mundo mais humano e mais fraterno. Não será esta parte da festa que as sociedades hoje esquecem, descapitalizando o muito de valioso que os santos têm para oferecer a todos e cada um dos cidadãos deste mundo?
Viva o Santo António, viva o S. João, viva o S. Pedro, vivamos todos com Fé e com Festa. Se assim for, o mundo será melhor porque mais feliz.”


