As florestas e os incêndios
As florestas e os incêndios
Este Luso Fonias é dedicado a um assunto que está na ordem do dia. Não sendo novidade em Portugal, os incêndios florestais voltaram a ser notícia quando, há três semanas, 64 pessoas morreram e várias ficaram feridas num enorme fogo na região de Pedrógão Grande. Para além da onda de solidariedade que se gerou, é importante que aproveitemos esta tragédia para nos informarmos melhor sobre o que pode ser feito para prevenir mais incêndios. E isto passa não só pelo papel das autoridades, mas também por aquilo que cada um de nós pode fazer nos seus terrenos ou nos espaços que visitamos.
Para nos falar sobre este assunto contamos com o testemunho do engenheiro Henrique Pereira dos Santos, para nos explicar precisamente porque é que continuamos a ter tantos incêndios e o que tem de mudar para que não se percam mais vidas desta forma.
Na opinião do P. Tony Neves – ‘Incêndios. Que prevenção?’
“Pedrógão Grande fez despertar o monstro adormecido durante o inverno: o dos incêndios florestais. E foi um pesadelo o que todos vivemos porque, desta vez, não arderam só milhares e milhares de árvores (como era habitual), mas morreram queimadas quase sete dezenas de pessoas e muitas outras ficaram feridas, sem entes queridos ou sem bens. Ora, subiu a parada das consequências deste flagelo que nos vitima há muito tempo e para o qual nunca se procuraram soluções adequadas. Também é verdade que o povo não reage de forma idêntica quando há apenas bens que se perdem ou quando há vidas ceifadas. E ainda bem que assim é porque o melhor do mundo são as pessoas.
O país acordou em estado de pânico e exige ao governo demissões e medidas. Não sei se se resolve alguma coisa apenas demitindo pessoas. Acho que se encontrarão melhores caminhos de solução se houver medidas sérias e exigentes que requalifiquem as nossas florestas e facilitem o combate aos eventuais incêndios que deflagrem ali.
Nos inícios da União Europeia foi implementada uma política agrícola comum. E, por causa dela, chegaram a Portugal milhões e milhões em dinheiro vivo para se abaterem vinhas e vacas, para se plantarem oliveiras e sobreiros, para não se cultivarem os campos… uma vez que vinho, leite, carne, trigo, milho era o que mais sobrava das agriculturas prósperas dos países mais desenvolvidos em tecnologia. À distância, acho que foi um erro aceitar entrar neste jogo que fez de Portugal um país de terras abandonadas, incluindo florestas. Este abandono dos campos fez do interior uma área a desertificar todos os dias, deixando abertas todas as portas a fogos e flagelos do género. Campos abandonados degeneram em silvados e giestais. Aldeias sem gado abandonam os matos e deixam-nos crescer apenas à espera de um fósforo que tudo transformará em cinza.
Chegamos ao abandono a que chegamos, em termos de terras outrora cultivadas e a matas… que podemos fazer no futuro? Não há soluções de catálogo. Mas há caminhos que devem ser percorridos, com pequenos passos. Sim, há que tentar limpar as matas e os campos transformados em selvas. Há que afastar as casas das árvores combustíveis. Há que abrir caminhos de combate ao fogo nas montanhas mais inacessíveis. E, pensando que nada disto vai resolver tudo, há que equipar bem os bombeiros e a protecção civil para que sejam ágeis e competentes quando os incêndios estiverem no seu início. Muitas vezes, quando se ataca um fogo, é já tarde demais e só se corre atrás do prejuízo.
Culpar apenas os agricultores pelo que não fazem para proteger as suas matas, parece-me pouco. Há uma responsabilidade global que tem de ser assumida por todos. Queremos uma terra mais segura, mais ecológica, sem incêndios…então trabalhemos na prevenção e no combate.”


