A Alegria da Páscoa

30 Mar, 2017

Um convite para sermos livres, numa reflexão do Pe. Miguel Almeida

 

O nosso mundo é um mundo ferido. O que nos é oferecido todos os dias, desde as guerras e os ataques terroristas ao escândalo das mortes de milhares de refugiados no Mediterrâneo, revela bem que a Paixão e Morte de Jesus não pertencem ao passado, mas é algo que se repete ao longo da história humana. Além dos crimes que se perpetram, manifesta-se particularmente horrenda a indiferença que o acesso fácil à informação provoca perante o sofrimento de tantos seres humanos como nós. Perde-se a sensibilidade e ganha-se um sentimentalismo imediatista, egoísta e infértil.

Diante desta realidade, apetece embarcar no pessimismo corrente da resignação que considera que tudo “vai de mal a pior”. E, no entanto… a fé cristã recusa-se a ceder ao desânimo e encontra na cruz de Cristo o caminho da alegria. Nada parece mais paradoxal.

Mas o paradoxo é, de facto, aparente. A grande parábola da história, como a lê o cristianismo, é a de uma Vida escondida dentro da vida. No decorrer do quotidiano deparamo-nos com o ofusco próprio da nossa contingência: “Hoje vemos como por um espelho, de maneira confusa, mas então veremos face a face. Hoje conheço de maneira imperfeita; então conhecerei tal como sou conhecido” (1Cor 13, 12). Nada é absolutamente límpido, nada é total, nada é pleno. Mas sempre busca, caminho e peregrinação para essa plenitude desejada e plantada no íntimo, desde o momento em que o Criador soprou o hálito de vida no nariz do homem e ele se tornou um ser vivo (Gn 2, 7).

Se aceitássemos, com todas as suas consequências, a incarnação de Cristo, reconheceríamos que a vida inclui muitas mortes. O que viveremos em plenitude no fim dos tempos, já o podemos saborear agora. Os sofrimentos que experimentamos no presente, trazem já a semente do sentido pleno da vida, e a tristeza pode conviver com a alegria, tal como a cruz de Jesus trazia já escondida a Vida Eterna.

Toda a nossa história é história de salvação. A dor, a confusão, o medo, o pecado!, tudo é assumido pela cruz de Cristo. E este é o âmago do Evangelho. “A alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria” (Papa Francisco, EvangeliiGaudium – EG, 1).

Porém, Cristo não é mágico; é salvador. Por isso, não apaga o mal como se não tivesse existido; mas até do mal tira Bem. A alegria não extingue a tristeza; integra-a e supera-a. A vida não apaga a morte. A ressurreição é uma alegria dorida.

Na tarde daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, com medo das autoridades judaicas, veio Jesus, pôs-se no meio deles e disse-lhes: «A paz esteja convosco!» Dito isto, mostrou-lhes as mãos e o peito. Os discípulos encheram-se de alegria por verem o Senhor (Jo 20, 19-20).

É substancialmente significativo que Jesus, ao tornar-se presente como o Ressuscitado, mostre, como sinal da sua identidade, as mãos e o peito. Quer dizer, Aquele que foi crucificado, Aquele que estava morto, é O mesmo que agora está aqui, no meio deles, no meio de nós, no centro da nossa vida. E não deixa de ser intrigante que o texto de João afirme que foi precisamente quando Jesus mostrou as mãos e o peito que os discípulos se encheram de alegria! Mas as mãos e o peito levam a marca da dor e do sofrimento! A nossa reação mais espontânea não pode deixar de ser de espanto. Como é que mostrar as feridas da vida e da morte pode encher os discípulos de alegria?

Só podemos constatar que existe aqui uma sabedoria de fundo que escapa à superficialidade das nossas buscas de falsas alegrias. A alegria da ressurreição é a verdadeira, a única que ninguém nos pode roubar. E essa, é fruto da morte, e morte de cruz. Esta imagem plasma toda a nossa existência. Não é possível a alegria sem a dor, como não é possível a ressurreição sem a morte. Jesus vence a morte, não porque a evitou, mas porque a atravessou! A grande tentação é a de imaginar uma vida plena sem entrega. Como se fosse possível a alegria sem o amor. E como se fosse possível o amor sem a dor. As ofertas do mundo são ilusórias precisamente porque nos apresentam essa alegria de plástico que, afinal, não passa de uma caricatura da verdadeira alegria.

Imaginamos algures, num mundo que não existe, uma alegria que não seja nunca beliscada pela dor. Confundimos alegria com prazer. A verdadeira alegria será sempre uma “alegria dorida”, pois será sempre fruto de entrega, de compromisso, de luta, de reconciliação, de perda do meu próprio amor, querer e interesse. “A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é inseparável do dom de si mesmo… Na sua encarnação, o Filho de Deus convidou-nos à revolução da ternura” (EG, 88). Numa palavra, a alegria é o resultado de uma vida desvivida, tal como o trigo que nasce do grão que, lançado à terra, aceita morrer para dar muito fruto (Jo 12, 24).

A cruz é o lugar horrendo da morte de Jesus. Mas porque é o símbolo da entrega de amor incondicional até ao fim, revela-se, afinal, o lugar da geração de uma nova vida. Esta é a fonte mais originária da nossa alegria e a meta última da nossa existência.

Quando estamos centrados em nós mesmos, tendemos para a vitimização ou autoelogio, para a vanglória ou autojustificação; o horizonte torna-se curto, tornamo-nos mesquinhos e o nosso umbigo é o centro do mundo. Mas basta recordarmos algum momento de profunda alegria na nossa vida para reconhecermos como ela nos abre a Deus e aos outros: “As alegrias mais intensas da vida surgem quando se pode provocar a felicidade dos outros, numa antecipação do Céu” (Papa Francisco, AmorisLaetitia – AL, 129). Esta alegria que antecipa o Céu, e que nasce da ressurreição de Cristo, dá-nos a capacidade de nos descentrarmos de nós próprios. Arranca-nos do nosso mundinho, rasga horizontes, torna-nos pessoas agradecidas e desejosas de servir. “Devo estar a crescer – diz o Miguelito à Mafalda – a minha cabeça está cada vez mais longe do umbigo” (Quino). A alegria faz-nos crescer como pessoas.

O que de mais significativo existe na vida humana são as pessoas que partilham connosco a experiência de viver. Por isso, a Páscoa é o fundamento mais profundo da nossa existência, porque se revela a explosão do amor que transforma a morte em vida. E “o amor abre os olhos e permite ver, mais além de tudo, quanto vale um ser humano” (AL 128).

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