Decisões e desafios num caminho que se quer coerente – Entrevista a Susana Réfega

11 Abr, 2018

A vida é uma só, apesar das suas várias dimensões. E, para Susana Réfega, o trabalho não poderia deixar de estar alinhado com as suas crenças e convicções, importantes chaves “de leitura e de vivência”. Dos estudos de veterinária para a cooperação para o desenvolvimento foi um salto de “sentido”, optando por aquilo que as experiências de voluntariado em África lhe pediam e deixando-se guiar por desafios propostos. Para a diretora-executiva da FEC, “os grandes desafios do planeta não obedecem a fronteiras”, e é “cruzando duas realidades – das pessoas e do planeta em que vivemos” que o desenvolvimento, nas suas múltiplas direções, se torna uma realidade. Na Plataforma Portuguesa das ONGD, que atualmente preside, a FEC assume um maior compromisso com esta rede de associadas que reúne um enorme potencial para “construir um capital de análise e de capacidade de fazer propostas sobre políticas públicas” nas suas diferentes áreas de atuação, sem esquecer a advocacia junto de decisores económicos que “têm hoje um peso muito grande”. Não é fácil decidir, mas uma escuta ativa, que procura perceber as pessoas, que são a alma das organizações, faz-nos pensar que uma decisão nunca se deixa ao acaso e que o acaso às vezes escolhe-nos. 

 

e-NCONTROS – Fale-nos um pouco da sua história antes de chegar à FEC…

Susana Réfega – A minha história tem sido uma mistura de opções e de acasos. Foi sendo construída com decisões, em alguns momentos em que foi preciso tomar decisões, mas também deixando alguns acasos conduzirem-me.

Eu estudei veterinária, mas sempre senti um grande apelo por África e por isso é que a minha vida começou a seguir um rumo se calhar menos expectável quando eu parti para Angola em 1997, com os Leigos para o Desenvolvimento. E aí começou a aproximação ao que é hoje a minha vida profissional. Com uma estadia de 2 anos em Angola, que me marcou muito enquanto pessoa, porque foi uma grande experiência de descentralização: de mim própria, da Europa, de um contexto que eu conhecia. Por isso, quando regressei de Angola, passados esses dois anos, fiquei com um grande dilema sobre o que fazer da minha vida – porque para mim a dicotomia entre a vida pessoal e a vida profissional é ténue: tenho procurado não compartimentar demasiado as coisas. E a partir daí queria trabalhar nesta área, da cooperação com outros países, na área do desenvolvimento – embora esta palavra tenha muitos significados – e também senti sempre uma forte identificação com a sociedade civil. Embora tenha tido experiências profissionais também no setor público, sempre senti que gostava muito de trabalhar na sociedade civil. E, a partir daí, fui trabalhando, primeiro em França – uns anos – depois, mais tarde, no Reino Unido, em Londres, e foi quando tomámos a decisão, em família, de regressar para Portugal que a FEC surgiu no meu caminho.

Ainda trabalhei no Alto Comissariado para a Saúde, no Ministério da Saúde, na área das relações internacionais e da cooperação. E, mais tarde, vim então para a FEC, em 2009. No fundo, como eu dizia, fui tomando decisões que me fizeram deixar a veterinária e a investigação para trás – ainda fiz investigação nessa área – numa procura de cumprir um sonho que era ter um trabalho que me fizesse sentido. Em que eu sentisse que estava a trabalhar com um propósito com o qual me identificava. Mas, ao mesmo tempo, apanhando oportunidades que foram surgindo e muitas vezes, por cruzamentos com pessoas, com encontros, como no caso da FEC.

 

e-NCONTROS – Como concilia tempo de trabalho e tempo de não trabalho?

SR – Procuro separar. Quando eu dizia que não há separação em termos de trabalho e vida é no sentido de haver uma coerência nas opções, ou seja, não vejo o meu trabalho só como um trabalho no sentido de um sítio onde eu tenho um ganha-pão e, se não fosse aqui, era noutro sítio qualquer. Não. Vejo o meu trabalho como também uma missão de vida, de cidadania. No entanto, tenho uma família e tento que o trabalho que faço não devore o outro tempo que também é necessário. Portanto, faço uma separação e tento manter essa disciplina, de haver tempos de trabalho, haver tempos de lazer, haver tempos de família – e sabemos que hoje isso é cada vez mais difícil, porque os mails nos entram pelos telemóveis e as comunicações, em vez de nos libertarem, estão a escravizar-nos mais para o trabalho. Tento fazer essa separação no sentido de procurar um equilíbrio de vida saudável. Às vezes consigo, outras vezes consigo menos, mas faço sempre esse esforço. Agora, não vejo a minha vida “às fatias”, ou seja, tento que tudo vá na mesma direção.

 

e-NCONTROS – De onde vem esse desejo de unidade, de coerência? Consegue identificar a origem?

SR – Acho que vem da juventude, da adolescência, de um forte desejo de haver uma certa unidade na vida e de tentar que as suas várias dimensões – o trabalho, os amigos, a família – façam parte de um projeto mais ou menos coerente. Há sempre incoerências… mas espero que constitua um projeto em que sinta que há uma unidade na vida. Esse sonho vem da juventude, claramente. Desde o liceu, da faculdade, que eu sempre sonhei que era possível encontrar esse caminho, que está sempre em construção. Hoje continuo à procura dele!

 

e-NCONTROS – É uma pessoa religiosa?

SR – Sou. Sou uma pessoa religiosa. Sou católica, tenho fé e isso também é importante para mim. É o fio condutor da minha vida e está subjacente àquilo que faço e àquilo que sou. Não ando sempre a falar disso. Não é importante para mim verbalizá-lo de forma constante e cresci e sempre vivi num contexto diverso, em termos de convicções religiosas. Mas é um aspeto estruturante da minha vida: ajuda-me a tomar decisões, a pôr em perspetiva muita coisa e a ter uma leitura do mundo e da minha vida que tem essa base. É uma chave de leitura e uma chave de vivência.  Mas foi um acaso ir trabalhando em organizações católicas durante a minha vida.

 

e-NCONTROS – O que é para si a FEC?

SR – A FEC é um conjunto de pessoas – quando digo pessoas não são só os nossos colaboradores que estão a trabalhar todos os dias – é um conjunto de parceiros, amigos, institutições e uma equipa de colaboradores que têm uma visão e uma missão comum: promover o desenvolvimento humano integral – e que mobiliza esforços, recursos, energia, vontades, para que isso possa acontecer, em sítios diferentes. Neste momento, estamos a trabalhar em 4 países, de uma forma mais sustentada, embora apoiemos projetos em todos os países de Língua Oficial Portuguesa e, por isso, no fundo, somos este grupo de pessoas que acredita que pode construir um mundo mais justo e que desenvolve projetos, iniciativas, programas em áreas diferentes, de forma criativa, para concretizar uma missão que é promover mais desenvolvimento humano integral.

 

e-NCONTROS – É possível o desenvolvimento?

SR – A palavra desenvolvimento tem muitas portas de entrada e é preciso descontruirmos o que é o conceito de desenvolvimento. Nós, na FEC, acreditamos que é possível o desenvolvimento humano integral em harmonia com a Terra. Para nós, desenvolvimento não é crescimento económico, para nós desenvolvimento não é só assegurar necessidades básicas – nós vemos o desenvolvimento de uma forma holística, integrada, que permite a pessoa desenvolver-se nas suas várias dimensões, ou seja, nos níveis económico, social, cultural, espiritual, mas também numa lógica em que este desenvolvimento da pessoa não destrua o planeta em que vivemos. Portanto, numa lógica em que o desenvolvimento humano não pode passar à frente da sustentabilidade do planeta. Cruzando estas duas realidades – das pessoas e do planeta em que vivemos – sim, acredito que é possível o desenvolvimento.

 

e-NCONTROS – Como é que surge a Plataforma Portuguesa das ONGD no seu percurso?

SR – Chego à Plataforma enquanto associada. Quando cheguei à FEC esta era já associada da Plataforma há muitos anos, desde 1999, já participava em grupos de trabalho, sempre foi uma organização pró-ativa dentro da Plataforma – comprometida, envolvida em várias atividades – e comecei a conhecer a Plataforma através dos grupos de trabalho, das suas iniciativas e da nossa participação na Plataforma. E sempre tive a convicção de que para termos um setor nesta área da sociedade civil, da Cooperação para o Desenvolvimento e Educação para o Desenvolvimento e Cidadania Global e Ajuda Humanitária, era muito importante termos uma rede forte. Ou seja, na diversidade de associadas que constituem a Plataforma era muito importante trabalharmos juntos para termos um papel na sociedade. Sempre acreditei no trabalho em rede e, por isso, a FEC sempre foi um membro ativo da Plataforma – para podermos ter uma voz mais forte na sociedade portuguesa. Integrar agora a equipa da Direção da Plataforma no fundo, foi um sentido de co-responsabilidade… é preciso também, às vezes, dar um bocadinho mais de tempo e mais investimento para estas redes. São opções e acasos, uma vez mais. Assumimos a Presidência do Conselho Fiscal nos últimos 2 mandatos. Estava-se a constituir uma lista, fomos conversando entre associadas, colegas e, a certa altura, surgiu a questão: é possível para a FEC neste momento dedicar mais tempo a este bem comum que é a Plataforma? E chegámos à conclusão que, numa lógica de corresponsabilidade com esta rede que é a Plataforma, era o momento de investir mais tempo e energia no cargo de Direcção. Foi este o caminho. Somos todos corresponsáveis e há momentos em que temos que dar um bocadinho mais.

 

e-NCONTROS – Qual é o lugar das ONG para o desenvolvimento?

SR – As ONGD têm vários lugares. Têm desde já um lugar de mobilização dos cidadãos. Acho que esse é um lugar muito importante de educação, sensibilização, mobilização, de ativismo – se quisermos chamar assim – de trazer mais pessoas para um compromisso cívico que pode ser materializado numa organização ou no seu comportamento individual. Eu acho que esse é um dos grandes papéis que as ONGD têm, cá em Portugal: um dever de cidadania e de mobilização de cidadania. Acho que esse é um aspeto importantíssimo.

Outro papel que as ONGD têm é de olhar para as políticas públicas nesta área. Um papel de análise e influência dos decisores políticos, para que as políticas sejam mais coerentes – com o desenvolvimento – e mais justas. Os grandes desafios do planeta são globais, não obedecem a fronteiras. A agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) é uma agenda para todos os países e, por isso, nessa análise das políticas públicas e de influência, às vezes há nuances sobre o que é que é cooperação internacional e o que são políticas públicas nacionais. Acho que há aí um trabalho muito grande para a sociedade civil, de poder ter um papel crítico – discordar, mas também propor. As duas coisas têm de vir juntas. Ver o que os decisores políticos estão a fazer, ter capacidade de análise, concordar quando se está de acordo, discordar quando não se está de acordo e propor outros caminhos, fazer recomendações. Acho que esse é um papel também da sociedade civil. Penso que nos temos focado muito nos decisores políticos – e são fundamentais – mas acho que, por vezes, nos temos esquecido dos decisores económicos, que sabemos, hoje em dia, acabam por ter um peso, direto ou indireto, muito grande nas grandes decisões que são tomadas.

Depois, outro papel para a sociedade civil é fazer acontecer, de forma muito concreta, projetos, ações que construam uma sociedade mais justa. A sociedade civil consegue, muitas vezes, fazer acontecer muita coisa, em áreas tão diversas como os direitos humanos, a educação, o desenvolvimento rural (para citar apenas alguns), por vezes com recursos limitados, mas também com muito profissionalismo e criatividade e com parceiros em outros países. Há muito trabalho que pode ser feito fora e cá dentro. Portanto, como dizia, é um lugar multifacetado. Tem várias dimensões mas, conjugando mobilização cidadã, advocacia política e concretização de alternativas, outras formas de trabalhar, tudo isso junto é catalizador de desenvolvimento. Não chega, por si só. Acho que a sociedade civil sozinha não consegue tornar real este desenvolvimento a que aspiramos, mas é um ator fundamental, absolutamente central, para que tal possa acontecer.

 

e-NCONTROS – Que dimensão é que as ONGD portuguesas privilegiam mais?

SR – As ONGD portuguesas são diversas e complementam-se, pelo que é sempre difícil fazer uma generalização sobre aquilo em que as ONGD portuguesas estão a investir mais. Ainda assim, arriscando, diria que as ONGD estão a trabalhar mais no primeiro e último pontos que referi, ou seja, na mobilização cidadã – trabalhar aqui em Portugal sobre as questões da Educação para o Desenvolvimento e Cidadania Global, e fazem um trabalho notável, muito importante – e no que eu chamei “fazer acontecer” – que são os projetos de Cooperação para o Desenvolvimento nas mais diferentes áreas setoriais, sobretudo, mas não exclusivamente, com os países de Língua Oficial Portuguesa – e onde têm investido menos, talvez, é na área da advocacia política e da influência política. E aí é que eu acho que entra o papel da Plataforma. A Plataforma pode, com as suas associadas, construir um capital de análise e de capacidade de fazer propostas sobre políticas públicas nestas áreas em que nós trabalhamos. Naturalmente há sempre excepções  –  e há ONGD que trabalham muito a advocacia e a influência política, mas é uma área que está menos trabalhada em Portugal e em que a Plataforma pode fazer um trabalho diferenciador.

 

e-NCONTROS – Qual a característica pessoal mais importante para o trabalho que faz?

SR – Bem, identificar uma é difícil… Eu acho que é observar – sou bastante observadora -, ter a capacidade de escutar e tomar decisões, ou seja, observar, ouvir, dialogar e não ter medo de tomar decisões. No fundo, liderar uma organização só é possível quando é feito com as pessoas. E para trabalhar com as pessoas temos que ter a capacidade de as ouvir; a capacidade de discutir ideias, de concordar e discordar, mas também não deixar de observar o que está a acontecer no mundo à nossa volta, o contexto, o mundo em que nos movemos; e depois… tomar as decisões – a maior parte das decisões são tomadas de uma forma concertada, mas é importante não ter medo de tomar as decisões quando é necessário. Acho que são características importantes para liderar uma organização.

Foto: Guto | Âmago

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