O dia em que nos conhecemos e contamos uns para os outros: Entrevista a Victória Rita e Páscoa Ferrão, oradoras do Seminário Internacional de Educação realizado em Bissau

19 Jun, 2018

Victória Rita e Páscoa Ferrão conheceram-se no Seminário Internacional de Educação – Educação em Países Lusófonos: realidade e diversidades, em Bissau, nos dias 21 e 22 de março. As histórias pessoais da Técnica de Estatística e Educação do Ministério da Educação, Cultura, Ciência e Comunicação de São Tomé e Príncipe, e da Diretora Nacional Adjunta da Criança do Ministério do Género, Criança e Acção Social de Moçambique, respetivamente, cruzam-se de forma íntima com a história do sistema educativo dos seus países de origem. Agora, no rescaldo do seminário que reuniu em Bissau diferentes PALOP, consideram que o pré-escolar é um setor de ensino determinante para a vida adulta. Um setor onde o acompanhamento prestado, as línguas faladas, os jogos realizados e as regras aprendidas e partilhadas são uma base forte onde fazer erguer a continuidade da escolarização. Ao mesmo tempo, saber quantas crianças existem, incentivar o seu registo e inserção no sistema escolar são pilares dessa base, fundamentais para alimentar e orientar a política educativa de um país. No final do seminário, cada uma segue o seu caminho, mas já não sem antes saberem que, mais do que nunca, contam uma para a outra.

e-NCONTROS – Gostávamos de conhecer, antes de tudo, um pouco da vossa história…

Páscoa Ferrão –  Sou Páscoa Sumbana Ferrão. Sou Moçambicana. Nasci em Maputo. Sou funcionária do Ministério do Género, Criança e Acção Social desde 1983, com 35 anos de experiência na área social de trabalho com e nas comunidades. Fui diretora provincial da Mulher e Acção Social nas Províncias de Téte e Inhambane e atualmente sou diretora nacional adjunta da criança do Ministério do Género, Criança e Acção Social, afeta à Direcção Nacional da Criança.

Para mim, a educação de infância é uma paixão. Quase posso dizer que foi o meu primeiro curso. Eu quando entrei no Instituto de Ciências de Saúde primeiro estava para fazer curso de enfermagem, mas como nós tinhamos 15 dias de integração antes de escolher uma opção, então fomos visitar os hospitais, as maternidades… Depois, fomos visitar os Centros Infantis. E lá me apaixonei. Quando vi aquelas crianças ali, a brincarem, a cantarem, a saltarem… Eu senti que a minha vocação não era fazer curso de Enfermagem mas estava inclinada para fazer o curso de Educação de Infância. Daí ter feito o curso. Gosto muito de trabalhar com crianças. Apesar de não ter tido a sorte de exercer, porque depois do curso nunca sentei para trabalhar com um grupo de crianças. Sempre tive com funções ao nível da Direcção de instituições ligadas à infância, mas mesmo assim sempre estive disponível para apoiar os meus colegas na preparação de materiais didáticos, para ocupar as crianças caso uma educadora falte. Eu ia fazendo vários trabalhos com crianças.

Victória Rita – Eu sou a Victória Rita, nasci em São Tomé, numa zona em redor da capital. Fiz os meus estudos primários e secundários. Depois, na altura da independência, tive interesse em fazer uma formação no exterior. Davam bolsas de estudo para Cuba, principalmente, para a União Soviética, e eu estava interessada em fazer formação fora. Já no meu 11º ano comecei a trabalhar como professora porque era obrigatório. Quem quisesse realmente ter bolsa como estudante tinha que fazer dois anos de participação, dando aulas para apoiar o sistema, porque na altura os professores eram escassos… Então, o governo apoiava os que já tinham a 11ª feita [secundário completo] e podiam dar dois anos no nível que quisessem: primário ou secundário.

Nessa altura eu concorri para o primário – fiz dois anos no ensino primário, do nível de monodocência, mas depois tive que voltar a repetir mais dois anos porque não consegui a bolsa. Em 84 fui a Cuba fazer uma formação ao nível de Economia do Trabalho. Fiz lá três anos e em 87 regressei para São Tomé pensando que não ia ser mais professora, mas que podia trabalhar nas finanças ou noutra parte. Tendo em conta o nível de sub-emprego que nós temos em São Tomé e o facto de que na altura não havia enquadramento para a Economia do Trabalho, eu tive que voltar a ser professora.

Enviaram-me para a Ilha do Príncipe, onde trabalhei dois anos, agora como professora de Matemática. Não como professora primária, mas como professora do Ensino Básico e Secundário, [na altura chamava-se assim]. Então, fiz dois anos na ilha do Príncipe, voltei para São Tomé, continuei a trabalhar como professora de Matemática até ao ano 2003. Mas depois eu vi que já estava a ficar um bocado cansada, por causa da idade, de tanta aula…  E eu já estava a avisar: porque é que eu não experimento indagar no Ministério da Educação, no Departamento da Estatística, se não precisam de uma pessoa que já deu Matemática? Porque não entrar para a área de Estatística? São números também, não é? E assim o Ministério aceitou e eu então fui indicada, como professora, para exercer funções no departamento de Estatística. Continuava com o título de professora, mas tecnicamente estava no departamento de estatística, em 2003. Foi então que, quando comecei, vi os meus colegas na recolha de dados, no tratamento de dados e eu comecei a apropriar-me – porque eu entrei no zero –, se bem que na Economia do Trabalho nós estudamos a componente de estatística. Então foi assim que eu fui dando atenção ao que se podia fazer.

 

e-NCONTROS –  São felizes com o que fazem?

Páscoa Ferrão – Eu posso também dizer que gosto daquilo que eu faço. Principalmente de trabalhar com crianças, crianças em idade pré-escolar. Mas devo dizer que, na verdade, para nós a educação pré-escolar não começa nas zonas rurais. No caso de Moçambique, primeiro nós temos as instituições infantis. Instituições infantis que estão nas zonas urbanas. Logo após a independência, não tínhamos centros infantis públicos nem as escolinhas comunitárias. As escolinhas comunitárias – no caso de Moçambique –  surgem a partir de uma iniciativa comunitária em 1986 quando na altura, depois da independência, no quadro de reformas políticas e reformas públicas, houve aquilo que nós chamávamos de cooperativas agrícolas, onde as famílias, principalmente as mulheres, deviam ir trabalhar. Nas cooperativas para produzir porque, depois da destruição que houve, nós em Moçambique ficámos praticamente no zero. Então nós precisávamos de reconstruir o país. Aí toda a gente tinha que trabalhar – principalmente as mulheres – e as mulheres não tinham com quem deixar os seus filhos para ir trabalhar. Eles organizaram-se. Organizaram-se no bairro de Hulene, em Maputo. Um grupo de mulheres organizou-se. Escolheram algumas senhoras que são animadoras – nós chamamos de animadores – para cuidarem das crianças enquanto as mães trabalham nas machambas. E depois disso, em 1986, tínhamos 56 escolinhas comunitárias. Essa moda pegou. Começámos a expandir. Porque a iniciativa vem da comunidade e o governo abraçou aquela iniciativa na formação, preparação, acompanhamento, monitoria e supervisão das escolinhas comunitárias e apoiou em algum momento com material didático, caso o Ministério tivesse. Então, aí a moda pegou a nível nacional porque também tinham as cooperativas agrícolas. Hoje nós temos 736 escolinhas comunitárias e são iniciativas das comunidades, são escolinhas sem fins lucrativos. Os que lá trabalham não têm nenhum salário. Eles recebem um subsídio ou um valor simbólico que os pais e encarregados de educação dão. São 25 meticais. Para o caso daqueles pais que não conseguem tirar este valor, eles podem contribuir em género, por exemplo com um prato de amendoim, algumas maçarocas. Aqueles produtos que eles conseguem nas machambas. Ou então, um grupo de mães que têm filhos naquela escolinha e que não conseguem tirar esse valor, podem-se organizar e irem trabalhar nas machambas daqueles educadores e animadores que estão lá a cuidar das suas crianças. Para nós, neste momento, a promoção e criação das escolinhas comunitárias é um desafio muito grande para o Ministério, porque nós todos sabemos que nenhuma criança naquela idade deve ficar de fora, porque é uma preparação que esta criança está a ter para o seu futuro. Porque já está visto que uma criança que vem de uma escolinha comunitária, quando vai à escola já não tem dificuldades, porque ela já teve uma preparação. Desta forma, já temos pelo menos um grupo de crianças que está a viver em situação de vulnerabilidade e que também tem acesso à educação pré-escolar e isso para nós é muito bom. Começámos pela elaboração de um guião de abertura das escolinhas comunitárias, porque há uma expansão, um alargamento tal que, para nós não perdermos controlo – porque cada um já tirava crianças, punha num sítio, ficavam lá às vezes sem condições, dizia que é uma escolinha… – padronizámos o guião para abertura e funcionamento das escolinhas comunitárias e distribuímos por todas as escolinhas comunitárias, para eles lerem, acompanharem e verem o que é que devem fazer, quais são os requisitos para uma pessoa, por exemplo, ter uma escolinha comunitária.

Outra coisa importante nas escolinhas comunitárias é que nós introduzimos também a educação parental. Isto porque se viu a necessidade dos pais fazerem parte da educação pré-escolar dos seus filhos, de forma a acompanharem e não fugirem daquilo que é o conhecimento que as crianças recebem nas suas escolinhas e dar-lhe continuidade em casa.

Victória Rita – Eu gosto de fazer estatística. De educação… eu  gosto mesmo. Eu gosto quando eu paro e vejo os dados, analiso e vejo em que posição nós estamos. Principalmente, como o país é pequeno, gosto de muito de ir ali para os distritos para saber qual é o número de população que temos lá e se eles estão todos na escola. Se não estão, ver onde é que podiam estar. É assim… Com os diretores eu sempre aconselho: “vocês são os gestores da escola, quando um aluno falta dois, três dias à aula, o que é que vocês fazem como gestores? Estamos a primar para que todos os alunos cheguem ao sistema, para evitar os abandonos. Como gestores o que é que vocês fazem? Qual é a vossa participação para ajudar o Estado?” Eu vou dando, assim, conselhos: “vocês devem chamar o encarregado de educação. Na altura da matrícula, no registo da inscrição, tem lá o nome da mãe, o nome do pai, o contacto. Num país que tem esta dimensão, a gente pode rapidamente chegar a um pai, a uma mãe: “o que é que passa com a sua criança?” Não deixar que ela fique uma semana, duas… depois acaba por não ir para a escola, não se sabe onde está. Essa conversa é praticamente diária junto aos diretores, no sentido de fazerem melhor.

 

e-NCONTROS – Contem-nos um pouco daquilo que trouxeram do Seminário Internacional de Educação, realizado em Bissau, em março deste ano.

Victória Rita – O importante que eu vi no seminário é a questão de falar da pré-escolarização. Viu-se que houve debate forte nessa questão da escolarização – do pré-escolar – porque deu-se conta que é um nível que, dependendo dele, haverá progresso na continuidade do estudo das crianças. Portanto, é pegar fortemente nessa questão…

Páscoa Ferrão  – Essa é uma verdade. Eu não esperava que tivéssemos um debate daquela dimensão quando apresentámos o tema sobre educação pré-escolar. Éramos três oradoras e os conteúdos de cada uma de nós divergiam muito entre si. Em suma, o que nós trazíamos é a ideia que, na realidade, a educação pré-escolar é algo de fundamental para a vida das nossas crianças, porque as prepara. Prepara as crianças para as classes seguintes. Podemos dizer que é o alicerce onde tudo começa, porque a criança vai sendo preparada. E, se a criança não tiver o acompanhamento do adulto, podemos até, no futuro, ter crianças deficientes em termos de saber ler, saber fazer, saber ser, saber escrever, enfim… Hoje em dia, por exemplo, estamos a dizer: a criança tem a 4ª ou a 5ª classe e não saber ler… Mas ninguém conhece o histórico desta criança. Como é que esta criança chegou até aqui? Será que esta criança passou pela educação pré-escolar? Se não passou pela educação pré-escolar, será que teve o acompanhamento dos pais? Porque é verdade que há crianças que não frequentam a educação pré-escolar, mas têm pais que, pelo menos, lhes dedicam algumas horas… compram até caderno, compram qualquer coisinha para ensinar o seu filho em casa. Mas quando estamos a olhar a realidade dos nossos países africanos, muita das vezes nós não temos esse tempo, porque o pai ou a mãe saem muito cedo de manhã. O pai vai para o serviço, a mãe se calhar está no mercado informal. E a criança fica em casa sem nenhum acompanhamento. Então, se a criança passa pela educação pré-escolar onde vai ter um animador, uma pessoa para poder acompanhar a sua rotina durante a semana, ela vai ter uma boa preparação. Foi vincado esse aspeto várias vezes. Nós sentimos que, na verdade, é muito importante. As contribuições que as pessoas iam deixando foram muito importantes para nós prestarmos muita atenção nessa parte da literacia das nossas crianças. Prestarmos atenção à escrita, mas à pré-escrita também. Prestarmos atenção à preparação da nossa criança. Não olharmos só para as brincadeiras que ela possa fazer quando está na creche, mas a criança tem que estar preparada também para esta outra fase da vida. Esta outra parte da escola, em que já vai começar a aprender a ler, a escrever. Isso é muito importante.

Victória Rita – Outra parte que nós vimos é a questão das línguas faladas no país. É preciso dar atenção a essas duas partes: tanto ao crioulo como à língua nacional. Porque pode esquecer-se que a língua é uma forma de comunicarmos e se, entrarmos muito no crioulo e deixarmos a língua oficial, ficamos um pouco aquém na comunicação. Portanto, é preciso rever isto. Cabo Verde, por exemplo, é um país onde falam um só crioulo. Não é como a Guiné-Bissau, que tem variedades linguísticas. Mas é preciso apostar e ensinar as duas coisas. Mesmo em tenra idade a criança é capaz de aprender diferentes línguas. Pouco a pouco, as línguas vão entrando rumo a uma melhor comunicação. Posso dar conta que às vezes se fala mais a língua materna do que a língua oficial e isso complica a comunicação. Às vezes as pessoas podem não poder participar, por exemplo, num diálogo oficial, porque dependem do crioulo – crioulo que é a língua materna. Portanto, convém combinar as duas coisas para uma não ficar aquém da outra.

Outra questão forte que nós também vimos é a questão dos dados: eu tenho que contar as pessoas. E como posso contar as pessoas? Era bom que houvesse medidas de política, com vontade política do governo em fazer com que a mentalidade mude. Por exemplo: as mulheres dão à luz fora da maternidade. É preciso criar condições, postos de atendimento, para que uma senhora dê à luz num lugar apropriado, que esteja ligado a uma forma de registo automático. A criança ao nascer tem o seu direito, automaticamente, de ser registada. E ao ser registada, conta. Então, começa-se a contar a criança. E assim vamos saber quantos nós somos. Vê-se assim a importância da ligação entre o Ministério da Saúde, o Ministério da Justiça e os INEs [Institutos Nacionais de Estatística]. É uma forma de começar a mudar a forma como se tem vindo a trabalhar até agora, porque não se sabe realmente o número de crianças que existem. Quantas crianças existem? Eu vou escolarizar que número de crianças dentro de três anos? Portanto, mudando esse paradigma eu acho que se podia começar a contar melhor as crianças que vão entrando no sistema – em combinação com os INEs. E daí a questão das inspeções. A inspeção tem um grande papel para fazer com que o sistema possa funcionar. Tem que haver medidas corretivas, porque não havendo medidas corretivas cada um faz aquilo que quer. Creio que o seminário foi muito produtivo.

Foto: Guto | Âmago

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