Educação, Cultura e Direitos Humanos em 2019: uma missão para um bem maior

24 Jan, 2019

O que é ser Coordenador de País de uma ONGD? Que desafios se colocam? Quais as motivações que orientam essa escolha de vida? São muitas as “dores de cabeça” que a função implica? Na entrada do Novo Ano, Carla Pinto e Tiago Coucelo, Coordenadores de País da FEC na Guiné-Bissau e Moçambique, dão a conhecer um pouco do seu dia-a-dia no terreno, ao mesmo tempo que apresentam as linhas de força da ação da Fundação para aqueles países em 2019

FOTOGRAFIA: GUSTAVO L. PEREIRA

e-NCONTROS – Como é a vida de um Coordenador de Programa/Coordenador de país?

Carla Pinto – Na Guiné-Bissau, desde reuniões institucionais com entidades que trabalham connosco, financiadores, [reuniões] de acompanhamento de programas ou de captação de financiamentos, diplomacia, até aos nossos parceiros, como Ministérios da Educação ou da Família; com gestão da equipa – gestão macro, os nossos gestores de equipa –, com o gestor de comunicação, ou coisas mais operacionais que tem a ver com tudo o que possas imaginar, desde a logística até a segurança das pessoas que estão a trabalhar connosco. Portanto, é uma operação que implica atividades muito distintas da função, com mais foco numas do que noutras, como é óbvio, mas muito diversa. Isso também é um bocadinho apelativo à função – é interessante. É que não é igual de dia para dia, apesar de ter focos mais situados na representação.

Tiago Coucelo – Enquanto Coordenador de país temos várias valências no nosso trabalho, não é?! Neste caso, em Moçambique – e também na Guiné – somos a cara da instituição em Moçambique e na Guiné-Bissau. Temos a questão da representação institucional, que é muito importante – representar a FEC e os projetos que estamos a implementar, os programas, junto dos parceiros, da tutela, dos financiadores; a discussão, mesmo de questões que não falámos há bocado, de comunicação, de visibilidade – é sempre essa questão que é sempre muito relevante para todos nós; temos a questão da logística e de aspetos do dia-a-dia, que é um aspeto que nos ocupa bastante tempo; temos a questão da gestão de equipas, que no meu caso não é por aí além, mas vai começar a ser, vamos ter mais colaboradores. [Gestão] tanto aqueles problemas do dia-a-dia, que surgem, como gestão… temos que saber como é que os projetos estão a ser implementados, os pontos de situação, se as atividades estão a correr da maneira que estava estabelecida e no meu caso tenho uma [valência] que é: o Coordenador de País em Moçambique também é responsável pela gestão de um projeto, que é o projeto Ser Jovem em Xipamanine, na área do empreendedorismo. Então eu também dedico alguma parte – pode não ser do dia-a-dia – mas durante a semana a trabalhar com o parceiro que está a implementar o projeto, a ver os resultados, aquele trabalho mais do dia-a-dia, mesmo a acompanhar todas as atividades, a ver se vão ao encontro aos indicadores que nós temos. Mas penso que é basicamente isso, acho que não me esqueci de nada.

 

e-NCONTROS – Dá muitas “dores de cabeça”?

Tiago Coucelo – Dá! Dá bastantes! […] Dissemos a parte boa de trabalhar em África – em África ou em qualquer outro lado – mas depois também há uma outra parte. Não há condições para tudo, há algumas falhas, [as coisas] não andam ao ritmo que nós desejaríamos – não estou a dizer que nós é que estamos certos, atenção, até das primeiras coisas que temos é que nos adaptar ao contexto e ao ritmo local – mas depois há sempre essas coisas: o ritmo que nos pedem aqui às vezes na sede não é o ritmo que há lá.

Carla Pinto – A dimensão logística então é um desafio muito grande, porque tudo acontece num país onde não há estruturas, onde não temos água e luz garantidas sistematicamente, onde a internet não é necessariamente mantida, onde os problemas de comunicação existem. É um desafio. Há diferenças culturais a que nós temos que nos adequar e respeitar, onde somos uma equipa multicultural, é um desafio. – Separada por provinciais também. Também acontece muito isso [Tiago Coucelo] – Exactamente, bem lembrado! Nós temos escritórios em quatro regiões e, portanto, até essa distância dentro do país é grande. Regiões com poucos acessos e mesmo nos escritórios aí nós temos programas, nomeadamente na Educação, onde chegamos a todo o país e, portanto, desde as [ilhas] Bijagós onde vamos de barco, até o Oio onde vamos de carro e levamos muitas horas. Portanto, o desafio logístico é uma aventura, é enorme.

 

e-NCONTROS – Quais as linhas de força da FEC para a Guiné-Bissau e Moçambique em 2019?

Carla Pinto – Bem, nós temos dois eixos muito marcados e que vão ser continuados para o ano, que é a Educação e os Direitos Humanos. Nessas duas áreas temos projetos muito marcantes na Guiné-Bissau e que têm ajudado a contribuir para o desenvolvimento destas áreas no país. Na área da Educação, nomeadamente, temos projetos que foram projetos-piloto, nomeadamente na Boa Governação da Educação, e que neste momento estão a ser repensados, estão a ser pensados para, posterior à fase piloto – coma conclusão da fase piloto com sucesso –, serem amplamente divulgados e implementados em toda a Guiné-Bissau. Posso falar do projeto Firkidja [Firkidja di Skola, suporte/apoio à escola] que é um contributo para haver estatísticas da educação. Mas também a nível da implementação do programa de formação de docentes e de direções de escolas, a FEC tem contribuído muito para a definição das políticas educativas na Guiné-Bissau e isso é claro que é para continuar. Na área dos Direitos Humanos, da mesma forma, estamos também a implementar projetos que envolvem os direitos das crianças e das mulheres e é nossa intenção também continuar, conseguir que os projetos neste ano consigam apelar a definições mais claras ao nível político da proteção social da criança, por exemplo. E estes são dois eixos muito concretos que nós vamos continuar em 2019 vincadamente a apostar.

Tiago Coucelo – Em Moçambique temos também esta [vertente] da área da Educação, até porque que é um eixo estratégico da própria organização. Nós neste momento estamos mais na área da Educação de Infância. Temos dois projetos marcadamente de Educação de Infância. Um no Niassa, que é o Othukumana [Juntos], e um que vai iniciar agora com uma nova colega em Maputo, que é o Tchovar [Empurrar]. São dois projetos marcadamente de Educação de Infância. Temos outro que é o projeto Raízes e Cultura, que é um projeto – tal como o nome indica – na área da Cultura, que é o primeiro projeto financiado pela União Europeia que a FEC teve em Moçambique e toca vários eixos. Toca o eixo da Cultura e do Artesanato, e de Produção Literária infantil; toca o eixo da Educação de Infância, também, porque vamos tentar que esses materiais sejam adaptados para as crianças e mesmo os educadores são formados em algumas áreas; e temos a área mesmo da própria Educação porque o Ministério da Educação em Moçambique não é o ministério que tutela os jardins-de-infância, é o Ministério da Acção Social, então temos que ter três ministérios a trabalhar connosco. Temos um projeto que é uma área onde nós trabalhamos muito e sei que se vai trabalhar também mais na Guiné, ou até já se está a trabalhar, que é a área do Empreendorismo, que é um projeto que é em Maputo, num bairro que se chama o Bairro de Xipamanine, onde se tenta dar alguma formação aos jovens e que eles tenham alguns negócios geradores de rendimento. E temos uma parceria também muito importante com a Universidade Católica, que já vem desde o início do nosso trabalho em Moçambique. (…) A complementar o que a Carla diz, estamos a tentar que os projetos – e não é só Guiné e Moçambique, mas neste caso estamos nós aqui – tenham algumas sinergias. Eles também trabalham com a cultura, nós trabalhamos a cultura, a educação de infância – é tentar criar algumas sinergias e algumas atividades que possam ser complementares, porque isso até já acontece informalmente. Materiais que foram produzidos na Guiné-Bissau são utilizados em Moçambique, com algumas adaptações, claro, ao contexto. Mas é uma área que nós achamos muito importante, é tentar trabalhar mais em conjunto.

Carla Pinto – Isso leva-me a vincar talvez mais dois aspetos na Educação. Nós temos apostado muito na Educação de Infância e na Educação de Infância produzimos imenso trabalho, nomeadamente, agora estamos a fazer um mapeamento nacional da caracterização da Educação de Infância na Guiné-Bissau, que é um trabalho com muito impacto e que vai, por exemplo, orientar as políticas educativas e a implementação de financiadores, e que temos muito trabalho feito que vai ser – como o Tiago estava a dizer – conciliado também com Moçambique. E na Cultura, nos Direitos Humanos temos um projeto que capacita artesãos na área do empreendorismo, que é um projeto que tem criado muito interesse também, porque surgiu, por exemplo, desse projeto, uma Associação de Artesãos da Guiné-Bissau – é um fruto desse projeto. E isso é uma boa prática que vamos trabalhar também em articulação. Vamos começar a criar sinergias de conhecimento, nomeadamente a partilha destes atores, dos próprios artesãos…

Tiago Coucelo – E dos escritores! Nós neste projeto temos uma parceria em que dois escritores de Moçambique, da Associação, vão visitar a Guiné e dois da Guiné vão visitar Moçambique.

 

e-NCONTROS –  Já estão a chegar à fase em que existem mesmo mecanismos de geração desse intercâmbio?

Tiago Coucelo – Esta já está oficializada mesmo em termos de projeto. Está feito. Foi pensado assim. Mas queremos que surjam muitas mais, porque faz todo o sentido. É assim: são realidades, apesar das diferenças gigantes que existem, que têm muitas complementaridades. Falamos todos português, os financiadores também são os mesmos em alguns dos sítios – a União Europeia e a Cooperação Portuguesa. Então, na nossa opinião, faz sentido tentar isso. Achamos que há pouco. Temos que fazer mais. Estamos a trabalhar para isso, para esses intercâmbios – até mesmo de equipa, achamos que é importante as equipas também conhecerem outras realidades, mas estamos a tentar, sim.

Carla Pinto – Esta é uma vertente – dos projetos – em que estamos a conseguir conciliar saberes e experiências, que achamos que é muito enriquecedor, mas também com outros países onde a FEC não está. Por exemplo, no Kumpu [Kumpu Tera di MininezaConstruir a terra das/para as crianças], na linha de Proteção da Criança, fomos com o grupo de trabalho a Cabo Verde ver outras realidades, portanto, também tirar as pessoas que trabalham para ver outros percursos e criar essas sinergias está dentro das nossas lógicas de projeto.

 

e-NCONTROS – O que vos motiva?

Carla Pinto – Bem, a mim, trabalhar em cooperação para o desenvolvimento é… se calhar vou dizer uma série de lugares-comuns, mas é na realidade o que nos motiva. Bem, é um bem maior! É um bem maior. É trabalhar para países que realmente precisam de apoio e poder contribuir de forma mais significativa do que o faço no meu próprio país. E depois a dimensão humana que – isto não pode ser descontextualizado da FEC – a dimensão humana na FEC é central e isso faz parte da minha forma de ser e de trabalhar, na dimensão profissional. E isso traz-me à FEC, também, e à cooperação para o desenvolvimento. E depois porque eu acho que quem trabalha esta área são pessoas diferenciadas e que me motivam muito e que são motores de transformação e isso no meu dia-a-dia é muito importante. Ser motivada e ser levada a níveis de desempenho interessantes e sempre humanizados e para objetivos que eu acho que são relevantes, que é o que nós conseguimos fazer no trabalho em cooperação.

Tiago Coucelo – Exato. São muitos clichés mas é a verdade. É sentir, como a Carla disse e bem. O nosso trabalho nós conseguimos medi-lo mais facilmente. Enquanto aqui se calhar estamos o ano todo a trabalhar e não…  claro que faz sentido e conseguimos marcar a diferença, mas lá [no terreno de intervenção] acho que é mais fácil medir essa diferença. Também é a questão das pessoas, em Moçambique também tem pessoas muito boas. Há pessoas boas e más em todo o lado do mundo, mas é muito bom trabalhar em Moçambique, sentir que as pessoas nos recebem bem, mesmo a própria tutela nos recebe bem, recebe bem a FEC, percebe o impacto que estamos a ter, o profissionalismo que temos, e aí é da FEC, é assim: não é receber por receber, tem que se mostrar que se está a trabalhar para o bem comum, integrado, tendo em conta as políticas do país, não é chegar e fazer como queremos. E depois também é isto: conhecemos pessoas realmente interessantes nesta área. São pessoas que têm muito conhecimento, mesmo colegas de outras instituições, da tutela, são pessoas que de facto querem fazer a diferença. Estamos a trabalhar com crianças, com professores, são áreas realmente importantes para o desenvolvimento de um país, a área social, a área da Educação. São esses clichés mas que fazem sentido para nós. E depois quando se começa é difícil depois parar. Basta ter uma experiência…

Carla Pinto – É viciante. Principalmente se [a experiência] for positiva. A minha experiência na Guiné-Bissau – o Tiago estava a falar de Moçambique – todos nós que passamos pela Guiné-Bissau temos esse vínculo de carinho com o país e é, de facto, pela forma como somos acolhidos, tanto pelas pessoas com quem nos relacionamos no dia-a-dia, como institucionalmente, e também porque nós – isto também é interessante – não é só trabalhar nestes âmbitos por trabalhar, é porque também temos uma marca profissional muito forte e a mantemos. A FEC garante-nos uma exigência profissional a um nível interessante. Mas o país é muito… é um apelo que nos marca e que nos faz viciar.

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