Portugal na Presidência do Conselho da União Europeia
Texto | Teresa Rebelo de Andrade, FEC – Fundação Fé e Cooperação 
“Os cristãos têm, atualmente, uma grande responsabilidade: como o fermento na massa, são chamados a despertar a consciência da Europa para animar processos que gerem novos dinamismos na sociedade. Por isso, exorto-os a empenhar-se corajosa e decididamente, prestando a sua contribuição em todos os âmbitos onde vivem e trabalham.”[1]
Numa altura em que Portugal assume a Presidência do Conselho da União Europeia, a carta enviada pelo Papa Francisco, em outubro de 2020, ao Cardeal Pietro Parolin, em comemoração das relações de longa data entre a Santa Sé e as Instituições Europeias, revela-se um importante guia de reflexão a todos os portugueses [cristãos e “pessoas de boa vontade” (FT 6) ] que queiram aceitar a oportunidade de se apropriarem da sua União Europeia e de contribuir para recuperar os sonhos do projeto comunitário que a moldaram, partindo da realidade onde se inserem e que representam.
Sob o lema “Tempo de agir: por uma recuperação justa, verde e digital”, acompanhado do mote da Agenda 2030 “sem deixar ninguém para trás”, a Presidência Portuguesa prioriza na sua agenda a implementação do Pilar Social Europeu e as relações com o continente Africano, entre outras prioridades[2], proclamando a abertura ao mundo e prometendo defender as parcerias internacionais que promovam todo o desenvolvimento humano, sobretudo no que diz respeito à saúde, educação e igualdade de género.
Enquanto membros de uma organização católica que procura o desenvolvimento integral da pessoa humana e se move pelo exemplo de Jesus Cristo, o Justo por excelência, chama-nos especialmente a atenção os desejos de justiça e solidariedade que a Europa revela, desde a sua formação, e que esta Presidência tanto procura tornar numa realidade palpável.
Na carta dirigida ao Cardeal Parolin, o Papa Francisco convida-nos a, sem aí prender o olhar, fazer memória dos princípios fundamentais e originários da comunidade europeia, apelando ao seu renascimento e autenticidade: “volta a encontrar-te. Sê tu mesma”, escreve, citando o seu antecessor São João Paulo II. Este é o desafio a que os princípios da justiça, inclusão, solidariedade e luta pela paz permaneçam como fundamento desta União, e não somente como princípios, atravessando assim o tempo e sustentando a comunidade, independentemente do peso das circunstâncias, como as que agora enfrentamos.
Para os cristãos, “fazer memória” é muito mais do que relembrar algum acontecimento ou alguém. “Fazer memória” é tornar a História de Salvação – que culmina em Jesus Cristo – num ato contínuo, vivo e real, que nos impulsa a, relembrando o passado, enfrentar o futuro cheios de esperança. Assim, recordar os valores europeus, deve conduzir-nos, naturalmente, ao exercício de nos questionarmos sobre quem foi verdadeiramente a Pessoa de Jesus Cristo e como podemos tornar realidade o sonho de Deus para a Humanidade, através da construção de uma Europa que, “saudavelmente laica”, se permite moldar pelos traços de Cristo.
A chave da encíclica Laudato Si, “tudo está interligado” (LS 91), veio revolucionar o nosso olhar sobre a crise ecológica “que não diz respeito apenas à proteção dos recursos naturais e à qualidade do ambiente onde habitamos; mas trata-se de escolher entre um modelo de vida que descarta homens e coisas e um modelo inclusivo que valoriza a criação e as criaturas.”[3]. A esta ideia, o Papa acrescenta o desafio de criarmos uma “cultura do cuidado” onde, tratando-nos a todos como irmãos (FT 8), podemos viver como verdadeiros filhos de Deus, honrado a dignidade com que nos criou.
O compromisso europeu de, durante a Presidência Portuguesa, aprovar a primeira Lei do Clima, como parte do caminho para transformar a Europa no “primeiro continente verde”, deve suscitar dos cristãos a maior das atenções. De facto, “o cuidado com a criação” é um tema que nos é especialmente querido e que nos últimos anos tem levado a ações concretas por parte dos cidadãos, mas que deve ser continuamente relembrado, de forma a não ser tratado paralelamente ao cuidado com os mais pobres e vulneráveis, aqueles que, tendencialmente, mais sofrem com os efeitos da crise climática.
A uma Europa que se quer justa e, simultaneamente, verde temos a responsabilidade de ser testemunhos vivos do cuidado de Deus para com o Homem e a Criação que, na pele de Jesus Cristo, tocou delicadamente o surdo-mudo para que os seus ouvidos e língua se abrissem – Effatá – e alimentou multidões esfomeadas; que nos propunha olhar os lírios do campo, num convite à confiança absoluta em Deus, contemplando os ritmos da natureza, que são também os nossos; que entre fariseus e samaritanos foi capaz de não “deixar ninguém para trás”[4], acolhendo cada um num amor inigualável; que “sendo rico Se fez pobre” (2 Cor 8, 9) para habitar entre os que mais sofrem e a eles levar a bondade salvífica de Deus. Nesta procura de justiça que, para a Igreja Católica assume sempre a opção preferencial pelos pobres, temos o fiel exemplo de tantas comunidades religiosas missionárias que, mesmo nas situações de maior tensão, não abandonam aqueles que lhes foram confiados.
Numa espécie de prelúdio à Fratelli Tutti, o Papa Francisco dedica uns breves números da Laudato Si ao “amor civil e político”, que somos chamados a desenvolver, onde afirma que o compromisso social e político é “uma forma eminente de caridade” e que “o amor social é a chave para um desenvolvimento autêntico” (LS 231). De facto, “poderá o mundo funcionar sem política? Poderá encontrar um caminho eficaz para a fraternidade universal e a paz social sem uma boa política?” (FT 176).
A uma Europa que se quer verdadeira e solidamente solidária, só podemos responder à luz do sonho da fraternidade, mas que é a fonte do “ímpeto do ideal” Cristão, que durante tantos séculos moveu homens e mulheres a criar comunidades que se revelaram verdadeiros sinais do Reino. Neste sentido, os compromissos e ideias europeus, em específico deste Presidência, criam um espaço estratégico de ação e evangelização para os Cristãos, uma porta aberta à concretização daquilo que nos identifica como discípulos de Cristo.
Na sua exortação a sonhar o futuro do Velho Continente, o Papa Francisco afirma “a certeza de que a Europa ainda tem muito para dar ao mundo” e apela-nos a não ter medo de tomar parte na responsabilidade conjunta de passar do ideal europeu à realidade de uma Europa que, em memória dos seus fundadores, se reconhece pela sua solidariedade, abertura ao mundo, justiça social e climática. Uma europa que é lugar de encontro (dentro e fora dos limites europeus), onde todos têm lugar e podem viver em paz. Esse é o sonho. O nosso e o de Deus.
[1] Carta do Santo Padre sobre a Europa ao Cardeal Pietro Parolin
[2] São cinco as linhas de ação prioritárias da PPEU21: Europa resiliente, verde, digital, social e global. Ver https://www.2021portugal.eu/pt/programa/prioridades/
[3] Carta da Santo Padre sobre a Europa ao Cardeal Pietro Parolin
[4] Agenda 2030
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