O Impacto da Pandemia na Saúde Mental
A pandemia covid-19 veio alterar rotinas, mudar estilos de vida e acima de tudo veio colocar restrições aos direitos humanos essenciais. O período pós pandémico revela-se, agora, um desafio na luta contra os efeitos causados, nomeadamente ao nível da saúde mental. O facto de se terem vivido tempos de confinamento (no domicílio ou em locais distantes, a separação exigida de familiares e amigos, a alteração do regime de trabalho para o teletrabalho, exigindo assim a separação física das equipas de trabalho, a perda de familiares e amigos sem a tão necessária despedida apropriada e ritos culturais, os internamentos hospitalares (por vezes em situações graves) dos próprios ou de familiares e amigos, foram geradores de ansiedade, de pressão e, muitas vezes, de stress pós traumático, o que veio semear efeitos na saúde mental que não serão resolvidos a curto prazo e que vão exigir um acompanhamento longo e demorado. Caso não se tenha atenção a estes efeitos na saúde mental, podemos observar que os efeitos vão desde adições a álcool, drogas, etc, bem como depressões moderadas a graves, podendo chegar ao limiar da falta de apreço e de valorização pela própria vida.
De acordo com um artigo1 publicado por Pedro Afonso (Ordem dos Médicos) nas Cartas ao Editor, “cerca de três anos após a quarentena, verificou-se um aumento de risco para o aparecimento de abuso de álcool, sintomas de perturbação de stress pós-traumático e depressão”. Este facto deve-se, principalmente, aos receios associados ao pós-pandemia: medo de contrair a doença, medo de infetar os familiares ou amigos, medo das consequências económicas (desemprego, perda de rendimentos, etc), assim como ao facto de muitos terem sido aqueles que não conseguiram viver o luto pelas perdas que sofreram (seguindo tradições e padrões culturais) como era suposto: “Devido às medidas preventivas de saúde pública, as cerimónias fúnebres estão a ser realizadas quase sem pessoas. Muitos familiares e amigos estão privados de se despedirem de quem morre; ou seja, não existem abraços, nem o habitual consolo do luto feito em comunidade. Isto acarreta um enorme sofrimento para todos aqueles que perdem os seus familiares e amigos. Em suma, vivemos tempos estranhos. Neste período levantam-se muitas dúvidas, e irá certamente demorar muitos anos até compreendermos qual foi o verdadeiro impacto da pandemia na saúde mental.”2
“Assim, como todo e em qualquer desastre biológico de grande magnitude, é natural que medos, incertezas e estigmatização se tornem presentes no dia-a-dia, e essas condições possam se tornar barreiras imaginárias que dificultam as intervenções médicas e de saúde mental apropriadas”3. O foco do período pós-pandemia tem de, assim, focar-se em primeiro ponto na saúde mental dos cidadãos, de modo a que consigam aos poucos voltar a retomar o seu dia-a-dia. É impossível, de certo, reverter alguns dos danos causados pela pandemia, pelo que o acesso ao acompanhamento emocional, espiritual, médico, tem de ser uma das prioridades de cada governo. Sem saúde mental, será impossível recuperar económica, física e socialmente. Se tivermos uma sociedade desmotivada, deprimida, que viva com medo, sem saber em que informação acreditar, certamente teremos uma sociedade destruturada que não conseguirá retomar a tão desejada normalidade.
“A necessidade futura da contínua realização de estudos e avaliação da experiência prática é essencial à reorientação das políticas e medidas de intervenção na saúde mental. O acompanhamento contínuo dos doentes com perturbação mental de novo ou prévia e a documentação de possíveis sintomas relacionados com a infeção pelo SARS -CoV-2/COVID -19 são fundamentais para respondermos a variadas dúvidas emergentes.”4
Se olharmos, por exemplo, para os doentes já institucionalizados vemos uma regressão dos progressos efetuados ao longo de anos de internamento e acompanhamento que se devem, em grande parte, aos sucessivos confinamentos, à falta de contacto físico por parte das pessoas que os acompanham dia-a-dia, por falta das visitas habituais dos seus familiares. No período pós-pandémico, a ansiedade dos reencontros está acentuada e o medo do desconhecido tornou-se cada vez mais premente. O toque físico deixou de fazer parte do seu quotidiano (algo pelo que tanto ansiavam) e a tentativa de qualquer aproximação física é vista com receio e alguma desconfiança. Observamos que os progressos de anos na sua recuperação (ou pelo menos manutenção) mental foi posta em causa devido a todas as restrições e pela doença em si. Muitos perderam amigos, familiares, colaboradores que cuidavam deles e que, muitas vezes, não conseguem entender o porquê nem o para quê.
No caso das crianças, é visível a dificuldade do regresso à normalidade. Sendo que foram “forçados” a aderir ao formato online do sistema de ensino, forçando o seu isolamento, no regresso às escolas é notória a dificuldade de integração, a relutância quanto ao convívio entre pares, a resistência ao formato presencial pela insegurança que ainda sentem quanto à disseminação da Covid-19. Muitas foram as crianças que, no momento em que davam os primeiros passos no ensino básico, se viram privados do acesso à educação por não disporem de meios informáticos bem como a falta de capacidade para utilizar os mesmos (os que os tinham). O facto dos sucessivos confinamentos, teve impactos emocionais gigantes no que respeita a dimensões tão fundamentais para esta faixa etária: ensino de qualidade, socialização, partilha entre pares, etc. É urgente a recuperação de aprendizagens mas, acima de tudo, é urgente a estabilidade emocional das crianças mais afetadas pelos confinamentos.
Deste modo, é urgente a “medição” do impacto da pandemia e consequentes medidas restritivas na saúde mental da população em geral, principalmente nos grupos mais vulneráveis. É, consequentemente, urgente a adoção de medidas por parte dos serviços de saúde para que seja dada uma resposta holística a cada cidadão para que sejam mitigados os efeitos da pandemia e para que no período pós-pandemia, sejam assegurados os direitos humanos básicos, contribuindo para uma estabilização ao nível da saúde mental.
Sem uma sociedade sã, estável, estruturada e cujas necessidades básicas estejam asseguradas, não será possível a recuperação (a todos os níveis) dos países dos quais são cidadãos.
Catarina António
Gestora de projetos FEC | Fundação Fé e Cooperação
Voluntária em Saúde Mental
O projeto TiK TaK – Human Rights on Hold, tem como objetivo refletir sobre o impacto das medidas restritivas da COVID-19 nos Direitos Humanos e é promovido pela FEC | Fundação Fé e Cooperação em parceria com a Par – Respostas Sociais e a Norsensus Mediaforum, e financiado pelos EEA Grants no âmbito do Programa Cidadão Ativ@s, gerido, em Portugal, pela Fundação Calouste Gulbenkian e Fundação Bissaya Barreto
Referências:
1 Cartas ao Editor, Acta Med Port 2020 May;33(5):351-358; https://actamedicaportuguesa.com/revista/index.php/amp/article/viewFile/13877/5925
2 Idem
3 Silva HGN, Santos LES, Oliveira AKS. Efeitos da pandemia no novo Coronavírus na saúde mental de indivíduos e coletividades. J. nurs. health. 2020;10(n.esp.):e20104007
4 https://www.revistapsiquiatria.pt/index.php/sppsm/article/view/146/62
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