Um outro olhar sobre o Desenvolvimento
A propósito do Dia Mundial da Fotografia (19 de agosto) estivemos à conversa com Mário Cruz, fotógrafo que este ano ganhou o primeiro prémio de Temas Contemporâneos do World Press Photo, o concurso de fotojornalismo mais importante do mundo. Conversámos sobre a reportagem que lhe valeu este prémio, sobre a escravatura e exploração de crianças no Senegal e na Guiné-Bissau, o papel do fotojornalismo na denúncia de situações que ofendem os direitos humanos e sobre o livro que vai lançar em Setembro.
E-NCONTROS – Mário, fale-nos sobre a reportagem que fez em 2015, no Senegal e na Guiné-Bissau, sobre a vida de crianças que são exploradas para trabalho infantil – um trabalho a que deu o nome “Talibés, Escravos dos Tempos Modernos”. Como é que soube desta realidade dos meninos talibés? E, já agora, explique-nos o que são os talibés?
Mário Cruz – Eu estava na Guiné-Bissau em 2009, ao serviço da agência Lusa, mas na altura estava a fotografar as eleições presidenciais. Ouvi muitas histórias de que realmente existiam crianças que estavam a desaparecer e que, já na altura, se supunha que já na altura fossem para o Senegal ser escravas destes professores corânios. Muitas delas são entregues pelos próprios pais, sob falsas promessas, mas há outras que são traficadas, que estão a brincar, estão a jogar à bola e desaparecem. É muito recorrente ver crianças a serem traficadas por zonas florestais da Guiné-Bissau para o Senegal e essas histórias ficaram na minha cabeça. E depois de ter feito outras no meu país, em Portugal, decidi que queria tentar perceber o que se estava a passar. E o que eu encontrei, surpreendeu-me, porque eu não conhecia aquela realidade, surpreendeu-me em dimensão e sobretudo surpreendeu-me a dimensão e a indiferença. Eu encontrei um método de ensino completamente subvertido, a tradição talibé já é longa, é um sistema que era respeitado, em que realmente as crianças muitas vezes tinham de mendigar, uma hora por dia, duas horas por dia mas esse dinheiro era para elas, era para a sua educação, era para as suas famílias, era para os seus estudos. E o que aconteceu infelizmente é que na última década muitos falsos professores, falsos guardiões, viram naquelas crianças uma fonte de rendimento. Também muito a ver, obviamente, com a situação económica do próprio país. E, ao verem aquelas crianças como forma de rendimento, o sistema mudou. Hoje em dia as crianças não têm de mendigar uma hora ou duas por dia depois sobra o resto do dia, longe disso, têm de mendigar oito horas por dia em média, pouco estudam para não dizer nada, e têm que obter um valor monetário completamente impossível. Hoje no Senegal, em média, recebe-se quatro dólares por dia e muitas das vezes é pedido a estas crianças que tenham três dólares por dia. E só na região de Acar são mais de 30 mil crianças e penso que no Senegal sejam mais de 50 mil. Como é óbvio, é impossível, simplesmente impossível, que todas essas crianças tenham esse dinheiro que é imposto e isso só significa uma coisa: punições. Estas crianças sofrem agressões diariamente, são violadas diariamente e estamos a falar de crianças entre os 5 e os 15 anos em que a maior parte delas realmente é do Senegal mas existe uma parte considerável que é traficada de países periféricos e vizinhos.
E-NCONTROS – É uma coisa muito comum naquela zona não é?
Mário Cruz – É uma coisa muito comum o ensino na escola corânica, obviamente, mas o tráfico de crianças foi uma coisa que disparou imenso porque os professores, esses falsos professores, perceberam realmente essa fonte de rendimento, o que poderia lhes trazer e então começaram a perceber que o número de crianças senegalesas era insuficiente. E daí muitas crianças serem traficadas de outros países, nomeadamente a Guiné-Bissau. E eu quando percebi o que se estava a passar, comecei a iniciar esses contactos com várias ONG’s…
E-NCONTROS – Não teve medo, quando começou a entrar neste mundo?
Mário Cruz – Tive receio obviamente quando estava no Senegal, mas eu nunca poderei ter muito medo…Eu como fotojornalista não posso ter medo do que eu sei que é correto e eu sei que o que eu deveria fazer era aquilo e portanto eu nunca poderei ter medo que para mim é correto.
E-NCONTROS -Naquilo em que acredita, não é?
Mário Cruz – Naquilo em que acredito e obviamente tive esse receio, sobretudo porque durante a preparação do trabalho, antes de ir para o Senegal, já muito perto de ir, portanto eu já tinha os bilhetes de avião, já tinha tudo tratado, já tinha pedido a minha licença sem vencimento da Lusa para poder me ausentar durante dois meses para poder fazer esta história e várias ONGS aconselharam-me a ir também (“nós achamos que é importante trazer atenção mas tens de esquecer a parte fotográfica”). Isso não me faz de todo sentido, eu sou fotojornalista, a parte fotográfica é a parte que mais me interessa e para mim é o principal motivo de ir até aí até porque é a falta de provas que contribuiu imenso para que isto mudasse tanto. E fui, como é obvio sentia-me preparado antes de ir, foram seis meses a ler muito, a tentar perceber muito o que realmente se estava a passar, muitas conversas, muitas reuniões mas na verdade eu nunca poderia estar totalmente preparado para ver crianças a serem chicoteadas à minha frente, crianças acorrentadas à minha frente, dezenas de crianças a tremerem de medo e portanto foram coisas que eu tive de saber lidar na altura e no momento tive de saber gerir isso muito bem porque eu, ao estar naqueles locais, estamos a falar de uma rede criminosa, muito grande e muitas vezes nem conseguimos perceber como é que essa rede está ligada, porque muitos destes falsos professores chegam a ter mais do que uma dara, uma dara é a suposta escola corânica, portanto chegam a ter várias daras, dezenas de crianças sob a sua alçada e como é que aquilo é organizado muitas vezes não percebemos, mas percebemos assim que entramos num daqueles sítios que estamos num mundo bastante violento.
E-NCONTROS -Existe conivência da parte dos governantes?
Mário Cruz – existe pelo menos uma aceitação sim, porque a verdade é que existem ainda muitas boas escolas corânicas no Senegal e isso é preciso referir e são exatamente essas boas escolas as primeiras a condenar o que se passa nestas falsas escolas. Agora, temos de perceber que é difícil mudar a mentalidade de uma sociedade. Muitos dos pais que hoje ainda entregam as crianças (e estamos a falar de famílias bastante pobres tanto no Senegal como nos países periféricos) acreditam fortemente que estão a fazer o melhor por elas porque eles não têm meios de lhes dar uma boa educação… e quando vem um professor bater-lhes á porta eles acreditam “ok, eu vou entregar o meu filho porque ele vai finalmente ter uma boa educação”. E temos de ver isto de outra maneira, é que muitos daqueles pais tiveram uma boa educação através desse sistema portanto, para eles, há um confiar no sistema. Chegar ao pé destes pais e dizer “Repare uma coisa, o sistema mudou, neste momento existem crianças a ser violadas todos os dias”, eles não vão acreditar…E não acreditam porque também não existe a prova…E vamos sempre bater ao mesmo que é a falta de prova…E portanto, quando eu me apercebi de todas estas complexidades desta realidade senti que tinha de ir. E portanto fui, fui até lá.
E-NCONTROS – Mário, falemos um pouco sobre este prémio. O World Press Photo é um prémio dos mais prestigiados do mundo. O que é que sentiu quando soube que tinha vencido este prémio na categoria Temas Contemporâneos com esta reportagem dos Direitos Humanos? E que retornos é que já teve da mesma?
Mário Cruz – Senti uma enorme felicidade. O trabalho custou-me muito a fazer a todos os níveis. Foi para mim muito difícil tomar a decisão de ir, foi difícil para mim tomar a decisão de arriscar e entrar em muitos daqueles sítios mas também foi difícil criar as condições para poder ir e portanto depois de voltar também se iniciou um processo muito complicado para publicar o trabalho. Lá está, é difícil hoje em dia publicar este tipo de histórias e o World Press Photo o que trouxe foi exatamente aquilo que eu mais procuro, que é a visibilidade. E trouxe essa visibilidade não para mim mas para o trabalho, que é o que interessa e essa visibilidade traduziu-se logo em resultados imediatos. 24 Horas depois muitas crianças foram resgatadas e trazidas de volta para a Guiné-Bissau mas ainda maior surpresa foi o contacto do Governo Senegalês que a meu ver é um dos principais responsáveis e que contribuiu pelo menos para que esta situação se arrastasse e chegasse a este ponto em que não se faz ideia de quantas escolas destas existem e não se sabe ao certo quantas crianças estão nesta situação. E realmente o Governo Senegalês entrou em contacto comigo, pediu autorização para utilizar as fotografias numa campanha de sensibilização que irá percorrer o país e isso para mim foi uma excelente notícia.
E-NCONTROS – Só por isso já valeu a pena não é?
Mário Cruz – Valeu sempre a pena porque eu assim que consegui a prova, eu percebi que iria ajudar. Agora, depois de ter a prova é preciso mostrá-la, que essa é o principal objetivo do fotojornalismo e do jornalismo, é mostrar estas realidades mas felizmente as coisas acabaram por correr bem e passado um ano um livro que acabou por ser criado.
E-NCONTROS – Veio há pouco tempo da Guiné-Bissau, onde foi inaugurar, digamos assim, uma exposição (sobre os talibés). Queria que falasse um bocadinho sobre isso, fale um bocadinho sobre o livro e um bocadinho também sobre esta exposição. E já agora, se esta exposição depois se pode ver noutros sítios, se irá passar para outros países também.
Mário Cruz – A exposição passou primeiro por Bissau (pela Casa dos Direitos de Bissau) e depois em Gabú, uma das regiões que infelizmente sofre muito com o tráfico de crianças. E foi muito importante ter essa experiencia de contacto direto, porque eu ainda não tinha visto ninguém a ver uma fotografia minha, a não ser no World Press Photo, mas é completamente diferente, uma experiencia completamente diferente. O acesso que nós temos á informação é completamente diferente do acesso que existe na Guiné-Bissau. E então foi muito interessante ver porque a primeira reação é o choque, algumas das fotografias são chocantes para as pessoas e então há esse primeiro sentimento. Mas esse sentimento, felizmente e para minha profunda felicidade, transforma-se logo em reação, o que é se pode fazer, o que é que pode ser feito, o que é que já está a ser feito e em que é que nós podemos contribuir. A segunda exposição em Gabu foi inaugurada com a presença de professores corânicos, de líderes religiosos, de forças de segurança e também, para minha surpresa, de talibés que tinham sido resgatados. E portanto eu penso que foi uma ótima experiencia e que foi um ótimo contacto direto. Eu penso que sim, que a exposição irá percorrer outros países da CPLP, ainda está em fase de estudo para onde vai e quando vai, mas é certo que irá. As pessoas também já perceberam o que se está a passar um pouco por todo o lado. Em relação ao livro, foi o culminar de um ano muito intenso com este trabalho e que me deixa muito feliz perceber que tive muito apoio não só em Portugal mas também lá fora e que centenas de pessoas contribuíram para criar este livro, que não é somente um livro de fotografia, é o testemunho, é a voz de milhares de crianças. Felizmente conseguimos, foi um mês que pareceu mais do que um ano, mas a campanha foi bem conseguida e o livro está muito perto agora de ser divulgado e de as pessoas receberem e de percorrer o mundo. Era importante criar esta prova física que também irá pressionar as autoridades locais e também internacionais a agirem, porque dantes uma das desculpas era “não existe prova”…Agora existe, temos é de a saber usar…
Este trabalho pode ser consultado online em:
http://www.worldpressphoto.org/people/m%C3%A1rio-cruz
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