Apostar na Educação para erradicar a Pobreza

27 Out, 2016

No passado dia 17 de outubro assinalou-se o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Eliminar a pobreza de forma sustentada só é possível através da educação. Um estudo do Banco Mundial revela que um ano extra de educação primária aumenta o salário potencial de uma rapariga de 10% a 20% e um ano extra de ensino secundário de 15% a 25%. A propósito da educação enquanto instrumento de desenvolvimento e erradicação da pobreza, a e_NCONTROS falou com Iranete Sampanha, mentora do projeto Mwarusi, Acredita em ti!, promovido pela associação moçambicana Girl Move.

 

e-NCONTROS: Atualmente, a Iranete participa no Programa Avançado de Liderança e Empreendedorismo Social, promovido pela Academia Girl Move em Moçambique. E está a concluir o seu estágio internacional em Portugal. Que mudanças trouxe à sua vida a participação neste Programa?

Iranete Sampanha: Ter tido a oportunidade de beneficiar do programa avançado de liderança da Girl Move foi uma experiência única e excelente, que tem trazido mudanças significativas na minha vida, tanto pessoal como profissional. Antes de entrar para o programa de formação da academia eu era uma pessoa muito introvertida e tinha dificuldade em fazer apresentações diante de um público. Mas o programa da academia de liderança da Girl Move, em particular no módulo de auto conhecimento (liderar o eu) do primeiro semestre, ajudou-me a identificar os meus pontos fortes e pontos fracos e, em função disso, traçar um plano de desenvolvimento e tive que trabalhar em função das áreas que tinha que desenvolver. Finalmente, consegui desenvolver e despertar as minhas capacidades e hoje sou uma mulher mais aberta, que faz apresentações diante de um público e sou vista pelas jovens de Nampula como exemplo.

O estágio nas empresas tem sido uma experiência boa, pois tenho aprendido muita coisa nova em matéria de Gestão de Recursos Humanos e Gestão de Projetos. Os conhecimentos adquiridos serão grande mais valia para a minha atuação profissional em Moçambique.

 

e-NCONTROS: A Girl Move tem como missão capacitar as jovens e mulheres moçambicanas para serem as principais agentes de desenvolvimento, através da Liderança pelo Serviço. Enquanto participante da Academia Girl Move, a Iranete é hoje mentora de raparigas em situação de vulnerabilidade. Qual o seu papel enquanto mentora? E qual a importância de fazer parte deste movimento de dar poder às raparigas?

IS: O meu papel como mentora das raparigas é: i) ser um exemplo de referência para as raparigas, pois isso dá-lhes uma nova visão das coisas. Elas percebem que se a mentora conseguiu estudar e formar-se, então elas também podem estudar e formar-se.

Tenho também como missão estabelecer uma relação de confiança. É muito importante que a mentora seja alguém em quem as raparigas confiam, porque isso permite criar espaço de diálogo com as menina e, sempre que tiverem qualquer problema, sabem que podem contar com a mentora e que a mentora não vai contar a ninguém os seus segredos, se elas assim o quiserem.

Tenho também como função dar orientações às raparigas através da escuta ativa e empática. O papel da mentora não é de resolver os problemas das raparigas, mas sim de escutar e dar linhas de orientação que facilitem as raparigas na decisão para a resolução dos seus problemas. Esse processo acontece por meio de conversas individuais, onde a mentora tem o papel de escutar o que as raparigas têm a dizer.

Para mim, é muito importante fazer parte deste movimento de dar poder às raparigas, porque assim elas serão autónomas, isto é, independentes, capazes de gerir as suas vidas sem depender de outras pessoas para sobrevier e sem comprometer o seu futuro. E a educação e formação profissional é o único meio para tal.

 

e_NCONTROS: Que mudança concretas já viu acontecerem na vida das raparigas com quem trabalha?

IS: Com o projeto houve muitas mudanças nas vidas das raparigas. Antes nas sessões as raparigas eram muito fechadas e tinham vergonha de falar nas sessões e em qualquer outra atividade do projeto, mas hoje as raparigas são mais abertas, autónomas, participativas nas sessões, nas dinâmicas do grupo e nas outras atividades do Projecto.

As raparigas não sabiam dizer o que gostavam de ser em termos profissionais futuramente. Quando a mentora perguntava o que elas gostavam de ser quando fossem grandes, diziam casar e ter filhos. Mas hoje as raparigas já sabem dizer o que querem ser. Dizem que querem ser médicas, professoras, engenheiras, advogadas, entre outras profissões.

As raparigas não conheciam os seus direitos. Hoje conhecem os seus direitos e fazem questão de divulgá-los às outras pessoas das suas comunidades.

As raparigas não viam a escola como algo importante para a vida delas, nem viam os benefícios da frequência escolar. As sensibilizações feitas pelas mentoras e o exemplo que as mentoras são para as raparigas, permitiram que passassem a ver e encarar a educação como o único meio para a melhoria das suas condições de vida e de desenvolvimento das suas comunidades. Hoje já reconhecem o valor que a escola tem para o futuro delas e adiam o casamento para mais tarde.

 

e_NCONTROS: Qual o papel que as raparigas podem desempenhar no desenvolvimento da comunidade onde vivem?

IS: As raparigas podem desempenhar um papel de agentes de mudança, através da educação, que tem um efeito multiplicador por meio das suas ações.

 

e_NCONTROS: Acredita que educar uma rapariga tem um efeito multiplicador e potencia o desenvolvimento económico de um país. De que forma este processo pode acontecer?

IS: Sim, acredito que educar uma rapariga tem um efeito multiplicador e potencia o desenvolvimento económico de um país. Porque educar uma rapariga é educar uma futura geração, porque a rapariga de hoje será mãe amanhã e ela poderá passar os ensinamentos aos seus filhos e, por sua vez, os filhos farão o mesmo. Contribui, assim, para o combate à pobreza e para o desenvolvimento económico do país. A criação de pequenos negócios melhora a situação financeira familiar e também cria oportunidade de emprego para as outras pessoas.

 

e_NCONTROS: Que mensagem gostaria de deixar às raparigas que nos leem?

IS: Que as raparigas acreditem mais nelas, porque elas podem e são capazes de fazer a mudança. A mudança não acontece por si só. A mudança começa contigo, comigo e com todos nós!

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