Um Povo ao encontro da Mãe

1 Jun, 2017

ENTREVISTA COM A JORNALISTA AURA MIGUEL SOBRE A VINDA DO PAPA FRANCISCO A FÁTIMA

Para celebrar a vinda do Papa Francisco a Fátima, a e-NCONTROS preparou uma edição especial. Um momento de encontro com aquele que veio como peregrino desafiar-nos a ouvir em silêncio o apelo mais profundo. Aura Miguel, jornalista da Rádio Renascença, que tem acompanhado as atividades do Santo Padre em Roma e nas suas viagens pelo mundo inteiro 51 com João Paulo II, todas as de Bento XVI e, agora, com Francisco faz o balanço deste encontro do Papa Francisco com a Mãe, na que considerou uma impressionante comunhão com um povo que soube dar “as razões da sua fé”. Para acabar com conflitos que persistem pede-se corações renovados. Para tal, numa mensagem de futuro, Francisco chama-nos a seguir modelos de oração, de penitência e de abnegação como os de Santa Jacinta e de São Francisco Marto, numa conversão que “é pessoal, é dos povos e é do próprio Papa e da Igreja”. O Pe. Tony  Neves, a realizadora Inês Leitão e Susana Réfega, diretora-executiva da FEC, mostram como na atitude de proximidade, inclusiva e transformadora do Papa Francisco ecoa o apelo de Fátima à peregrinação de cada um de nós, em escuta, por um mundo melhor.

 

e-NCONTROS – Que balanço podemos fazer da visita do Papa Francisco a Fátima?

Aura Miguel – Em relação à visita do Papa a Portugal, acho que uma chave de leitura importante foi o balanço que ele fez no Regina Coeli, no dia 14 de maio, com várias vertentes para aprofundar, como a razão pela qual ele canonizou os pastorinhos – lembrando que não são santos por terem visto Nossa Senhora, mas sim pelo exemplo de vida e de fidelidade ao Envangelho que testemunharam. Um exemplo de vida dos pastorinhos centrados em Jesus Cristo, com a ajuda de Nossa Senhora… e isso é possível para todos.

“A sua santidade (de Jacinta e Francisco) não é consequência das aparições, mas da fé e do ardor com que corresponderam ao privilégio recebido de poderem ver a Virgem Maria. Depois do encontro com a “Bela Senhora” – assim a chamavam – rezavam frequentemente o Rosário, faziam penitência e ofereciam sacrifícios para obter o fim da guerra e pelas almas mais necessitadas da misericórdia divina.”

Papa Francisco, Regina Coeli, Roma, 14.05.2017

Também me impressionou, por outro lado, a experiência que ele diz ter feito com o povo em oração. Isso aconteceu já com outros Papas também, mas tal foi muito evidente com o Papa Francisco, uma vez que permaneceu muito tempo em silêncio, quase dez minutos, no dia 12 de maio, quando chegou à capelinha das Aparições. Francisco gosta muito de sublinhar a importância da teologia do povo. Ele diz que o povo, de acordo com a forma como expressa e vive a fé, é modelo para o resto da Igreja. E Fátima, por excelência, mostrou isso… No meio do povo em oração –  dizia ele –  sentiu-se acompanhado. A experiência que presenciei – pois eu estava mesmo ao lado – foi como se o Papa estivesse sozinho no santuário de Fátima. E a leitura que retiro é que, quem estava ali, sabia dar as razões de estar ali. Quer dizer, um por um, aqueles que ali estavam presentes, tinham-se dado à fadiga de ir, ao cansaço de chegar mais cedo, à logística que era complicadíssima este ano… Apesar dos avisos e das reticências de tantos de que era perigoso e de que podia acontecer alguma coisa, as pessoas, mesmo assim, foram! Acho que o silêncio gerado naquele momento era o reflexo disso. Era um povo em oração que sabia dar as razões da fé. Esta é talvez a dimensão mais impressionante que depois se refletiu, como sempre, com Papa ou sem Papa, na procissão das velas, na maneira como se participou na missa, na procissão do adeus, à qual o Papa Francisco aderiu imediatamente puxando de um lenço… Portanto, este mergulhar do sucessor de Pedro na presença comunitária de um povo em oração foi impressionante. Eu acho que isso talvez tenha sido das coisas que mais impressionou o Papa.

“Em Fátima imergi-me na oração do santo povo fiel. Uma oração que lá (em Fátima) escorre há cem anos como um rio.”

Papa Francisco, Regina Coeli, Roma, 14.05.2017

e-NCONTROS – O que traz de novo esta visita à relação que tem vindo a ser estabelecida entre os Papas e Fátima, ao longo do tempo?

Aura Miguel – Eu acho que é mais uma confirmação porque, por exemplo, na oração que ele rezou depois deste momento de silêncio no dia 12 de maio, apresenta-se como Bispo vestido de branco, alargando o horizonte da terceira parte do segredo de Fátima. Quando ele se apresenta ali e une esta expressão às vestes brancas que vêm do Baptismo e até mesmo ao sangue derramado pelos mártires, é o Papa e é toda a Igreja que se manifesta com uma projeção de atualidade da mensagem impressionante.

“Ó Virgem Peregrina, ó Rainha Universal, no mais íntimo do teu ser, no teu imaculado coração, vê as alegrias do ser humano, quando peregrina para a pátria celeste, (…) vê as dores da família humana que gemem e choram neste vale de lágrimas, (…) adorna-nos com o fulgor de todas as jóias da tua coroa e faz-nos peregrinos como peregrina foste tu.”

Papa Francisco, Oração na Capelinha das Aparições, Fátima, 12.05.2017

Portanto, creio que qualquer Papa que venha não pode passar ao lado da verdadeira mensagem de Fátima.  Mas a relação do Papa Francisco com Fátima começou ainda antes, com aquela videomensagem dirigida ao povo português, tão bonita, a dizer que precisava muito da nossa oração e que vinha ao encontro da Mãe. E, de facto, na homilia dele no dia 13 de maio, por duas vezes, diz, com uma certeza incrível, “temos Mãe!”… Ou seja, não estamos órfãos. Temos quem nos guie, portanto, temos alguém que nos ajuda a chegar a Jesus, assim como foi com os pastorinhos também é connosco… Penso que essa é a experiência vivida já na primeira pessoa por Francisco, confirmada com a atualidade da mensagem de Fátima.

“Queridos peregrinos, temos mãe! Temos mãe!” (…) “Sob o seu manto não se perdem, dos seus braços virá a esperança e a paz de que necessitam e que suplico para todos os meus irmãos no Baptismo, em Humanidade, de modo especial para os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e os abandonados.”

Papa Francisco, Homilia da Santa Missa com a Canonização de Jacinta e Francisco, Fátima, 13.05.2017

Vejo que com a vinda do Papa aqui, com tudo aquilo que ele disse, inclusivamente na mensagem aos doentes – impressionante, pedindo-lhes para não terem vergonha de se apresentarem protagonistas através do sofrimento, o que já era bem evidente desde o início, até com o sofrimento do próprio Papa -, nada é cancelado. Tudo o que se viveu até agora e com o Papa Fancisco assume uma projeção de futuro impressionante, e também de esperança. Toda a cruz, preocupações, angústias e tristezas assumidas pelo Papa, na sua missão, foram levadas a Fátima, e isso também se aprende muitas vezes lendo os discursos. Podemos fazer uma leitura superficial dos discursos, dos textos, mas se os lermos mesmo com o desejo de aprofundar, dali remetem muitas chavetas para assuntos que, de certo modo, são a característica do Pontificado do Papa Francisco. As periferias, por exemplo… a oração que ele traz à capelinha também evidencia, uma vez mais, a sua preocupação pelos migrantes, pelas periferias… está lá tudo. Eu pelo menos li assim, que Fátima não está concluída, pelo contrário, tem um potencial de chave de leitura para a frente. No que diz respeito à conversão, a conversão é pessoal, é dos povos e é do próprio Papa e da Igreja. Eu acho que isso ficou muito evidente nesta visita.

“Também hoje é tão necessário rezar e fazer penitência para implorar a graça da conversão, para implorar pelo fim de tantas guerras que estão espalhadas um pouco por todo o mundo e que se estendem cada vez mais, como seja o fim de tantos conflitos absurdos, grandes e mais pequenos, que deformam o rosto da Humanidade.”

Papa Francisco, Regina Coeli, Roma, 14.05.2017

e-NCONTROS – De facto, o Papa Francisco vem a Fátima cem anos depois das aparições de Nossa Senhora aos pastorinhos, ocorridas em plena I Guerra Mundial, como peregrino num mundo ainda em guerra…

Aura Miguel – É a primeira vez que, no seu Pontificado, o Papa vem de visita só como peregrino. Ele vai muitas vezes a determinados países, dos quais vem no mesmo dia e onde tem vários acontecimentos, de vários géneros, uns religiosos, outros políticos… Agora foi mesmo exclusivamente uma peregrinação ao encontro da Mãe, mas eu vi também que isto era muito só para ele… Por exemplo, na oração do terço foi aquele esplendor de luz maravilhoso… Ele estava de costas, vidrado na imagem de Nossa Senhora. Ele fixou sempre o olhar na Virgem. Uma necessidade quase de oxigénio do filho com a Mãe.

Uma ligação profunda que depois, no dia seguinte, quando ele nos garante que temos Mãe, é também a experiência dele que se angustia certamente por vivermos uma terceira guerra mundial, mas aos pedaços, não é? Repartida por vários pontos e de várias maneiras… Sim, tudo isso trouxe uma nova projeção ao conteúdo da mensagem que parece que é uma mensagem antiga porque tem 100 anos, mas não… Bem, o Evangelho tem 2000 anos… Esse também é antigo, mas é sempre novo… E a condição para ser sempre novo é o coração desejar converter-se e eu acho que isso foi muito manifesto da parte do próprio Papa ao querer vir a Fátima como peregrino, antes de mais para a conversão dele. E isso dá-nos o exemplo…

“Fátima é sobretudo este manto de proteção, de luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da terra quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe para lhe pedir, como ensina a Salvé Rainha, mostrai-nos Jesus!”

Papa Francisco, Homilia da Santa Missa com a Canonização de Jacinta e Francisco, Fátima, 13.05.2017

e-NCONTROS – Gostaria de acrescentar alguma nota deste seu encontro com o Papa Francisco?

Aura Miguel – Fiz o livro “Conversas em altos voos”, que tem por base a entrevista que ele me deu em setembro de 2015. No voo para o Cairo – anterior a este de Fátima – levei-lhe o livro e disse-lhe: “Santo Padre, tenho um presente para lhe dar…”. Mostrei-lhe o livro, cuja capa somos nós os dois a conversar , e disse-lhe: “Isto é um presente para si, que é a nossa entrevista, mas a primeira parte é um relato de como é viajar no avião papal e conversar consigo…”. Ele riu-se e agradeceu.

No voo seguinte, que foi para Fátima, a caminho de Monte Real, ele chega ao pé de mim e eu digo-lhe: “Finalmente, Santo Padre! Finalmente Fátima!” Ele, comentando à sua volta, exclama: “Olhem para ela… toda contente!”, ao que respondo “Obrigada, Santo Padre, pela videomensagem que enviou ontem aos Portugueses, que é muito bonita”. E ele, segurando-me na mão, olhando à volta com ar de gozo e apontando para mim o dedo, diz: “Ela? Escreveu um livro antes de eu vir, imaginem depois da viagem!… Vai escrever para aí uns dez livros mais…”.  E nisto todos desatam a rir, incluindo ele, na minha cara… Portanto, ele tem imensa graça, é bastante bem-disposto e eu acho que ele estava muito contente com a perspetiva de vir fazer a experiência no santuário de Fátima. Penso que a leitura que ele faz, de conclusão, naquele dia à janela na praça de São Pedro no domingo 14 de maio, é muito definidora do potencial de futuro e de esperança de que é portadora a mensagem de Fátima, não só para os Portugueses e para ele, mas para a Igreja inteira.

“Sob a proteção de Maria, sejamos no mundo sentinelas da madrugada, que sabem contemplar o verdadeiro rosto de Jesus Salvador, aquele que brilha na Páscoa, e descobrir novamente o rosto jovem e belo da Igreja, que brilha quando é missionária, acolhedora, livre, fiel, pobre de meios e rica do amor.”

Papa Francisco, Homilia da Santa Missa com a Canonização de Jacinta e Francisco, Fátima, 13.05.2017

O exemplo do peregrino Francisco, que traz as periferias para o centro da ação e que nos convida a sermos protagonistas do mundo que, guiados pela fé, caminha para a paz.

 

Francisco, essa lufada de ar fresco

Quando Francisco apareceu à janela do Vaticano e pediu a bênção aos peregrinos, algo parecia estar a mudar. Depois, as suas opções iniciais de simplicidade e proximidade captaram a simpatia de meio mundo.  A escolha de um nome (Francisco), transformado em programa de pontificado, também atraiu atenções, olhares e sintonias. Senti a bênção do Papa naquele olhar sorridente que me lançou na praça de S. Pedro em outubro de 2013, quando assisti a uma das audiências das quartas-feiras. Ele falou dos dramas do mundo e apelou a uma opção clara pelos mais pobres, em vésperas do dia de S. Francisco, data escolhida por ele para visitar Assis. Depois, em agosto de 2016, na Solenidade de S. Pedro e S. Paulo, concelebrei com ele na Basílica de S. Pedro. Passou perto de mim, com ar cansado, mas sempre feliz. Falou de uma Igreja unida e alegre, sempre em saída, na direção das periferias e margens da história. Vem aí, depois de ir ao Egipto, dizer que a paz é um dom de Deus e que em nome Dele ninguém pode justificar a violência e a guerra. Aqui em Fátima vem, certamente, falar da conversão, da paz e da importância dos pequeninos e pobres. Bem-vindo, Papa Francisco. Faz-nos falta esse olhar feliz para os descartados deste mundo, combatendo a globalização da indiferença com rostos de esperança e de futuro.

Pe. Tony Neves, Missionário Espiritano

Créditos: DR

No dia em que conheci Francisco

Foi, em 2014, um fevereiro frio e feliz que me levou a mim e à minha irmã a Roma, a uma audiência geral com o Papa Francisco. Lembro-me – talvez como se fosse ontem – da felicidade de embarcar com o documentário que havíamos realizado sobre o trabalho dos padres e das irmãs missionárias da Consolata no Zambujal para lho entregar pessoalmente. O documentário chamava-se “O meu bairro” e foi o segundo que fizemos sobre o trabalho de congregações religiosas em Portugal. Mais do que uma audiência geral, era o momento de dizer a Francisco que nós as duas, com um budget minúsculo, conseguimos levar a nossa fé até aos ecrãs televisivos das pessoas comuns em suas casas e mostrar-lhes a Igreja: essa Igreja que atua nas margens, nos subúrbios onde ninguém quer estar. Acredito que não existem palavras para descrever aquilo que sentimos à medida que Francisco chegava até nós. Tudo o que pensávamos do nosso Papa estava ali à nossa frente: um homem grande, imponente, que em si próprio era a materialização do amor de Deus pelos homens na Terra. Dissemos-lhe ao que íamos e ele agradeceu-nos. Pensámos em tirar uma selfie para memória futura mas acabámos por quebrar o protocolo e pedir mais: queríamos um abraço seu. Em 2014 recebi um dos melhores abraços de sempre. Do meu Papa, aquele que representa a Igreja em que acredito. Se podia ter mais sorte? Acho que não.

Inês Leitão, realizadora

Créditos: Vaticano Press

Na FEC, posso afirmar, sentimos o Papa Francisco como “muito nosso”!

E desde a primeira hora! Recordo que, logo a após a sua nomeação, fomos convidados pela Renascença a comentar a escolha do novo pontífice e que expetativas tínhamos enquanto organização que trabalha sobre as questões do desenvolvimento e no combate à pobreza. Tal como muitos católicos, não conhecíamos o Cardeal Bergoglio, mas a nossa colega Patrícia que deu a entrevista à Renascença, após leitura e um pouco de investigação… chegou à FEC entusiasmada, falando deste Papa que chegava das periferias com um novo olhar e sobretudo com uma nova visão para a Igreja, alicerçada na sua experiência e na vida vivida junto das comunidades de Buenos Aires. E começou aí o nosso encontro. Outros se foram sucedendo, como aquando do 25º aniversário da FEC, em que tivemos a alegria e privilégio de, com uma equipa de colaboradores da FEC portugueses e guineenses, encontrar o Papa numa audiência. Foi um momento único e muito emotivo poder ouvir o Papa Francisco, com palavras simples, a encorajar o nosso trabalho e missão. Poder estar perto deste homem profético, inspirador e profundamente coerente, foi de facto uma bênção que não me canso de agradecer. Agora em Fátima, novamente podemos, enquanto FEC, ouvir o Papa a lembrar-nos que “a vida só pode sobreviver graças à generosidade de outra vida“. Mas diria que o encontro mais importante com o Papa, porque mais transformador e estruturante, foi o encontro com a Laudato Si’! Esta encíclica tem sido fundamental para a FEC, nestes últimos anos de trabalho, e podemos afirmar que ela constitui a linha orientadora da nossa ação e do nosso Plano Estratégico 2017-2021. A Laudato Si’ tem sido para nós um espaço de reflexão, questionamento, mas também de mudança e ação concreta. Acho que temos mais do que razões para sentir o Papa Francisco como “muito nosso”!

Susana Réfega, diretora-executiva da FEC

Créditos: Vaticano Press

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