“Éramos jovens, precisávamos de uma luz” – Entrevista com Domingos Chissano, Secretário Executivo da Khandlelo

7 Mar, 2018

Nesta edição da e-NCONTROS, Domingos Chissano, Secretário Executivo da Fundação moçambicana Khandlelo, fala-nos da sua passagem por Portugal no início deste ano, dando continuidade ao trabalho desenvolvido com a FEC desde 2012, nos setores da Educação e da Cultura. Mas a vela da Khandlelo está há quase 20 anos acesa no acompanhamento de crianças e jovens de Maputo. Fortemente marcado pelo movimento católico Comunhão e Libertação, que o motivou para o voluntariado e para os estudos, após terminar Direito, o coração “falou mais alto” e Domingos Chissano trocou a advocacia pela Khandlelo, que ajudou a fundar. Nesta entrevista dá-nos a espreitar, em particular, os projetos desenvolvidos com a FEC, como o Xipamanine Empreendedor e o Ser Jovem em Xipamanine. “Este tipo de projetos é importante porque é a abertura de uma possibilidade”, por isso alerta os jovens para a importância de saberem aproveitá-las já que “há bairros que não têm as mesmas possibilidades”. Independentemente de os jovens não poderem ir para a universidade, “há muitas formas de cada um dar o seu contributo para a sociedade” e a formação humana que têm recebido na Khandlelo tem sido fulcral para os jovens perceberem que, por menos recursos económicos que possuam, eles contam, têm valor e podem gerar valor.

 

e-NCONTROS – Fale-nos um pouco da Khandlelo.

Domingos Chissano – Khandlelo é uma ONG moçambicana sem fins lucrativos. Tem uma origem católica: nasceu da experiência do movimento católico Comunhão e Libertação e tem como carisma ajudar as pessoas que mais precisam. Os nossos projetos estão mais virados para a educação da pessoa, portanto, o centro das nossas acções é a pessoa humana.

Nasceu no ano 2000 através de uma experiência caritativa tida por um grupo de jovens estudantes do Bairro de Xipamanine e no qual eu me incluo: íamos à missa ao domingo e depois da missa íamos fazer visitas caritativas a pessoas que tinham mais necessidades do que nós. Dessas visitas identificámos um grupo de crianças que estavam em idade escolar mas que não iam à escola porque não tinham sido registados e, face a isso, o nosso primeiro gesto foi mobilizar as mães para registar as crianças, para a partir daí procurarmos matricular essas crianças na escola. E foi assim que nasceu a experiência da Khandlelo.

Começámos com um grupo de cerca de 125 crianças e, através de um casal de italianos que vivia em Moçambique, conhecemos a experiência da Fundação AVSI (Associação Voluntários para o Serviço Internacional), que apoiava iniciativas similares através de ONG nacionais. Começámos então a pensar em criar uma organização moçambicana que pudesse trabalhar em parceria com a Fundação AVSI para podermos ter um apoio para estas crianças. Isto lá para 1999 e, em 2000, foi, então, criada oficialmente a Khandlelo.

Khandlelo quer dizer luz da vela… Éramos jovens, precisavamos de uma luz e queríamos que a luz iluminasse as crianças. Daí Khandlelo. Vem de candeia.

 

e-NCONTROS – E o Domingos? Qual é a história do Domingos Chissano? Como é que chega à Khandlelo?

DC – Eu nasci no Bairro de Xipamanine, casei-me há 15 anos, mudei-me para um outro bairro agora, mas a minha história… Bem, era um jovem naquela altura, também era pobre e tive várias pessoas que me ajudaram – uma das pessoas foi o Padre João Seabra, que é português – e conheci o movimento católico Comunhão e Libertação, que mudou a minha vida. A partir deste movimento tive uma experiência muito virada para a humanidade, para o voluntariado. Depois estudei, formei-me em Direito, e quando formámos a Khandlelo e eu terminei o curso de Direito preferi sair para a advocacia, mas no fim falou mais alto o coração: ficar na Khandlelo, continuar com o trabalho social. A minha história é essa. Sou casado, pai de duas meninas e um rapaz.

 

e-NCONTROS – Como é que começa a relação da Khandlelo com a FEC?

DC – Acho que a relação começou no ano 2012, em Maputo. Quem representava a FEC em Moçambique era o Simão [Cardoso Leitão]. O nosso desejo, por razões culturais e históricas, era ter um projeto que tivesse apoio de uma organização portuguesa e, na altura, conheci o Simão e abordei-o sobre esta questão: a ideia de encontrarmos um projeto em que pudéssemos trabalhar juntos. É verdade que na altura não havia um projeto em concreto, mas já trocávamos ideias, já trocávamos impressões e eu apreciava a experiência da FEC na área da Educação de crianças e jovens. Só mais tarde é que conseguimos ter um projeto concreto juntos. Daí, primeiro termos tido uma coisa muito pequenina, mas que foi significativa para nós, que foi a Campanha Presentes Solidários – através da qual ajudámos 8 ou 9 jovens a fazer uma formação profissional – e depois tivemos um projeto um pouco maior e muito bem executado, que foi o projeto Xipamanine Empreendendor – um projeto de formação profissional -, e neste momento estamos com o projeto Ser Jovem em Xipamanine.

O projeto Xipamanine foi muito bom para nós, Khandlelo, mas sobretudo para os jovens, porque nós começámos com um projeto de sustento à distância com apoio da Fundação AVSI, no ano 2000, mas as crianças foram crescendo, tornando-se adolescentes e jovens e já não conseguíamos dar uma resposta às suas necessidades. O projeto Xipamanine Empreendedor, com a FEC, veio dar uma resposta às necessidades dos jovens. Muitos jovens que estavam desempregados, ou não tinham ocupação, beneficiaram deste projeto. Era um pacote de formações que procurava habilitar os jovens a começar um auto-negócio. Depois, contruímos também uma incubadora de apoio aos jovens que tivessem iniciativa para desenvolverem o seu pequeno negócio. Procurávamos estágios profissionais e fazíamos o acompanhamento dos estagiários e daqueles que começavam o seu próprio negócio, até que conseguissem andar pelos seus pés. Conseguimos financiar cerca de sete pequenos negócios. Uma componente fundamental do projeto Ser Jovem em Xipamanine é o Estudo sobre a Empregabilidade dos Jovens na Cidade de Maputo. Esse estudo vai ser importante, porque vai possibilitar identificar quais as áreas onde é preciso fazer mais ações, quais as áreas onde se deve investir mais para os jovens, quais são as «janelas» de pequenos negócios onde os jovens podem desenvolver os seus projetos. A incubadora também continua aberta. Continuamos a capacitar e a formar.

 

e-NCONTROS – Recorda-se da história de algum jovem – rapaz ou rapariga – que tenha passado pela associação e seus projetos, que gostasse de partilhar connosco?

DC – É uma história bastante bonita. Era uma moça que tinha um bebé e, muitas vezes, não tinha com quem deixar o bebé. Às vezes deixava-o com a mãe, mas ela era uma menina que nós percebemos que estava à espera de uma oportunidade, porque, mesmo nas formações ela levava o bébe. Não faltava, era uma pessoa com muita vontade de aprender e aproveitou, porque aprendeu e agora está a aplicar aquilo que aprendeu. Montou um pequeno negócio de venda de pipocas e hoje em dia está a vender e a gerir o seu próprio negócio. Não desistiu durante o percurso, como muitas raparigas que têm um primeiro bébe e depois não querem mais retomar a sua vida normal. Ela não. Não desistiu. Foi um exemplo de luta.

 

e-NCONTROS – Na sua opinião, qual o papel que este tipo de ações pode ter na sociedade moçambicana?

DC – Estes tipo de projetos é importante porque é a abertura de uma possibilidade. Abre a possibilidade de os jovens fazerem um caminho e também de perceberem que há uma pessoa que se preocupa com a vida deles. Por isso, é muito importante a formação humana, porque a partir dela os jovens percebem que, por mais pobres que sejam, têm valor. E que, partindo do valor que têm, podem desenvolver aquilo que é o desejo da sua vida, o desejo do seu coração. Esse tipo de projetos vem dar resposta àquilo que os jovens procuram em qualquer bairro de um país pobre como Moçambique. Agora, o mais importante – é o que tenho dito aos jovens  – é saber aproveitar as iniciativas disponíveis. Porque sabemos que há bairros que não têm as mesmas possibilidades.

 

e-NCONTROS – Qual a avaliação que faz do momento que vive atualmente Moçambique, em termos de desenvolvimento?

DC – Moçambique está a desenvolver-se, mas ainda precisamos de fazer mais. Iniciativas concretas como estas ajudam bastante a desenvolver o país. Por um lado, dão responsabilidade à sociedade civil de ajudar o Governo na tarefa de desenvolvimento, através de ações concretas. Por outro, também dão possibilidades aos jovens: não é todo o jovem que nós podemos levar para a universidade, mas os jovens não podem deixar de desenvolver a sua ação por não terem chance de ir para a universidade. Portanto, há várias iniciativas que devem ser aproveitadas para o desenvolvimento. Cada um dá o seu contributo. Nós, como sociedade civil, o Governo e também os jovens, que são os beneficiários dos nossos projetos, podem aproveitar para melhorar as suas vidas.

A nível macro, acho que o primeiro caminho é sempre o da consolidação da paz. Quando um país está em paz, várias iniciativas nascem e podem ser aproveitadas. Penso que neste momento Moçambique, naquilo que é a consolidação da paz, está a atravessar um bom caminho. Agora está em vias de se consolidar melhor o novo pacote da descentralização, através da Assembleia da República, e isso é bom porque vai dar estabilidade ao país, de maneira a que iniciativas para o desenvolvimento possam nascer em maior número. Penso que se está num bom caminho. Sobretudo com a questão da estabilização da paz.

 

e-NCONTROS – Finalmente, o futuro e a sua vinda a Portugal…

DC – Em Portugal, a Khandlelo veio participar num workshop preparado pela Gulbenkian para prepararmos uma proposta para a área de Educação Infantil. A nossa parceria com a FEC tem pernas para andar. Para além desta proposta, temos também a iniciar um projeto para a área da Cultura – chamado Raízes e Cultura – que vai abranger jovens e escolinhas da Cidade de Maputo. Portanto, é uma parceria para durar.

Fotografia Guto | Âmago

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