Reportagem FEC: Reforço da gestão de dados educativos na região de Gabu

4 Jul, 2018

Aissatu Cissé quer ser médica. Está decidida a prosseguir os estudos até ao 12.º ano, mas, entretanto, adora ensinar. Aissatu é uma jovem guineense de 19 anos, com uma personalidade fortíssima que nos projeta na sua interpelação: “Aqui, na escola Alcassimo Bun Aliu, no setor de Pitche, ensinamos sobretudo o Corão e o Árabe, mas também ensinamos conteúdos de matemática e ciências naturais…”.  Falando em Português, Aissatu tem todo o gosto em nos explicar que “há diferentes professores, em diferentes salas”… “Temos muitos alunos aqui mas há outros que não têm como pagar a escola… Outros ainda frequentam simultaneamente a nossa escola e a escola pública”, detalha.

Na Guiné-Bissau há escolas onde, para além do Corão e do Árabe, se ensina igualmente as disciplinas estipuladas pelo Ministério da Educação. Contudo, para que estas escolas confessionais — designadas madraças — sejam reconhecidas pelo sistema de Ensino, deverão responder aos critérios ministeriais estipulados para o currículo e conteúdos das disciplinas ensinadas, o que por ora não se verifica plenamente na escola de Aissatu. Como explica Malique Ly, ponto focal das Escolas Madraças no INDE (Instituto Nacional para o Desenvolvimento da Educação), “temos de capacitar os professores para ter as metodologias diferenciadas, para saber lidar com a componente corânica e dar maior relevância à componente formal”. Entretanto, tanto nestas como noutras escolas, regista-se ainda dificuldades no que respeita à monitorização e avaliação do sistema de Ensino.

Avisadas atempadamente pela Direção Regional de Educação de Gabu, as escolas do Ensino Básico e Secundário da Região de Gabu ativas em 2017/18 prepararam-se assim para a digitalização de documentos relativos à planta física, infraestrutura e mobiliário, ao meio socioeconómico, aos alunos, ao pessoal docente e não docente, à organização dos diferentes órgãos das escola bem como à organização das turmas. Um importante passo do projeto Firkidja di Skola – descentralização da gestão de dados de educação – desenvolvido pelo Governo da Região de Gabu e a FEC – Fundação Fé e Cooperação, em associação ao Ministério da Educação, Ensino Superior, Juventude, Cultura e Desportos, financiado pela União Europeia.

No que respeita concretamente aos alunos, o armazenamento de elementos identificativos como a fotografia tipo-passe a par da cédula pessoal e boletim de matrícula, evitarão a partir de agora a duplicação de alunos no sistema, muitas vezes com nomes iguais, situação comum entre as etnias fula e mandinga, as mais representativas na região. A data de nascimento e a filiação, a par da identificação do rosto, garantirão a identidade de cada aluno. Da mesma forma, a reunião de elementos identificativos do professor — como os seus certificados — são fundamentais para o reconhecimento das suas competências. Sempre que houver transferências de instituição de alunos ou funcionários, estas passarão a ser, assim, também registadas de forma fidedigna.

Fernando Candé, estatístico do setor de Pitche, vai no seu quarto ano de trabalho. A sua função baseia-se na recolha de dados estatísticos a nível de setor, de escola em escola, procurando saber quantos alunos dos sexos masculino e feminino existem, bem como o número total de alunos ao nível do setor de Pitche. “Tentamos também descobrir as várias dificuldades que existem porque há certas escolas que não oferecem condições para lecionar. Por exemplo, devido à chuva, há escolas que não podem funcionar e existem dificuldades também nos materiais, sobretudo carteiras…”, exemplifica.

Onde a rede escolar pública ainda não consegue chegar, muitas comunidades na Guiné-Bissau organizam-se e edificam as suas próprias escolas – comunitárias -, enquadradas na categoria de escolas privadas. Hoje, algumas escolas comunitárias já têm colocação dos professores por parte do Ministério da Educação, mas são maioritariamente as comunidades a organizarem-se para encontrar soluções mais imediatas para a manutenção das suas estruturas. As chuvas não perdoam e em maio irrompem na Guiné-Bissau. “A escola não está em condições…”, expõe o professor da escola comunitária de Unango, Aliu Baldé, num exemplo de resiliência quotidiano. Aliu faz 24 quilómetros de bicicleta todos os dias para ensinar todas as classes, do 1.º ao 4.º ano. Por falta de espaço, divide o quadro e a sala em dois e dá aulas, à vez, a dois grupos distintos.

Com a informatização dos dados recolhidos e inseridos no âmbito do Firkidja di Skola, será facilitada a leitura de dados relativos à organização de cada turma, tal como o horário/disciplinas, a sala, os alunos, o/a professor/a designado ou o desempenho de cada aluno. Informação como as notas de cada aluno ou de cada turma passará também a ser disponibilizada em relatórios.

Para o técnico de introdução e gestão de dados de estatística Samba Só, mais carinhosamente chamado Tio Samba, “está-se a ver uma luz ao fundo do túnel e, se conseguirmos lá chegar, vai mudar muita coisa no sistema educativo”. “Fui eu que assinei o projeto Firkidja di Skola quando era, na altura, o diretor-regional”, sublinha orgulhoso, afirmando que com o Sistema de Informação de Gestão de Dados de Educação “os dados vão ser agora mais fiáveis e a recolha mais rápida…”. Os professores e a comunidade “colaboram muito”, afirma. “Os comunicados da Direção Regional de Educação seguiram uma semana antes de chegarmos às escolas e, desta forma, os muitos imames, professores e alunos estavam já à nossa espera… As mulheres a cantarem, as crianças a brincarem à nossa espera… isso me animou muito”, exalta.

Sentada à secretária no escritório da FEC em Gabu, Cadi Sauane organiza os dados recolhidos em pastas.  Para esta técnica de introdução de dados de estatística no Ministério da Educação, Ensino Superior, Juventude, Cultura e Desportos, “a Guiné-Bissau não tem nenhum projeto deste tipo” e espera que venha a ser “alargado a todo o território”.  Por ora, os desafios a ultrapassar são os de uniformização de todos os dados estatísticos ligados às escolas na região de Gabu. Nesse sentido, o técnico estatístico Bacar Baldé partilha o que mais o surpreende – o facto de o projeto prever “criar um polo” onde ficarão “técnicos de inserção e gestão de cada setor da região de Gabu para fazer este trabalho com os estatísticos que trabalham nesses diferentes setores”. Algo que permitirá uma harmonização do trabalho entre quem recolheu, inserirá e monitorizará os dados no sistema de forma que o GEPASE – Gabinete de Estudos, Planeamento e Avaliação do Sistema Educativo do Ministério da Educação posteriormente os avalie.

Como explica Tiago Silva, gestor do projeto Firkidja di Skola da FEC, “há dois trabalhos em paralelo: um que é o software – a plataforma onde se armazena e se gere a informação – e outro que é a recolha de dados, cuja monitorização “passará a ser feita todos os trimestres escolares pelos estatísticos do Ministério da Educação”.  Como detalha, “na plataforma temos para já inseridos os dados recolhidos da educação, tal como ela existe”, onde cada escola está georreferenciada.

Depois, estes elementos migrarão para o GEPASE e serão aí combinados com outros dados demográficos e financeiros e analisados no contexto nacional. Por região, será possível também obter estatísticas da educação — com os dados de educação inseridos —, podendo-se, desde já, agregar e analisar os dados das diferentes categorias / indicadores criados na plataforma, por ano escolar, setor a setor, até à instituição escolar. Para o futuro, o sistema permitirá criar novos indicadores, e por exemplo, um ranking das escolas.

Sistema Piloto de Informação de Gestão da Educação que está a ser desenvolvido pelo Governo da Região de Gabu e o Gabinete de Estudos, Planeamento e Avaliação do Sistema Educativo (GEPASE), Inspeção-Geral de Educação (IGE) e Direção-Regional de Educação de Gabu do Ministério da Educação, Ensino Superior, Juventude, Cultura e Desporto, em parceria com a FEC – Fundação Fé e Cooperação, com financiamento da União Europeia

“Houve um concurso para se escolher quem iria desenvolver a plataforma, com um caderno de requisitos de consultoria aprovado pelo Diretor-Geral de Ensino, pelo Inspetor-Geral de Educação e pelo GEPASE, que é a principal entidade envolvida, e assinado pelo Ministério. Houve várias propostas e no final foi escolhido o consórcio entre o Instituto de Formação da CPLP e uma empresa especializada em software de educação que é a Codevision, com experiência nos PALOP, e não só, e uma referência em Portugal”, afirma Tiago Silva.

A equipa de técnicos do Ministério da Educação e da FEC continuam concentrados ao computador, organizando cuidadosamente os dados digitalizados, depois de – divididos em 2 equipas – cada grupo chegar a recolher, por dia, informação em três escolas, frequentadas por centenas de alunos, algumas das quais distantes entre si e de difícil acesso.

Os ecrãs dos computadores onde operam transformam-se em janelas por onde espreitamos um sistema que se quis simples mas útil e eficaz naquela que é a sua missão. Saber quem se é na educação para se chegar ao mais importante resultado: saber que contamos. E nas escolas comunitárias, por mais abalos que ocorram, permanece um sinal muito forte disso. Há um tronco que insiste, segurando um céu cheio de promessas a um tchon que resiste. É firkidja. É escola para todos.

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