Um agradecimento a todos os que aceitam ser parte da solução

6 Mai, 2020

Face ao desconhecido, sem forma e sem contorno, o medo, a ansiedade, a confusão e a incerteza geram incómodos, contra-informação e ganham espaço. São muitas as opiniões, leituras e posicionamentos em vários domínios que afetam a esfera da nossa vida como indivíduos e como coletivo social. Leituras e prospeções sobre o COVID 19 em termos de saúde, economia, sociedade, incluindo a dimensão espiritual. Nas novas modalidades de trabalho, os prós e contras do teletrabalho; na prevenção, os prós e contras do uso de máscaras, apenas para citar alguns. Todas as abordagens válidas e muitas sustentadas em dados para consolidar uma tomada de posição.

Aldeia Mbulo Calumquebe, Província da Huíla, Angola, 2019

Como referido em tantos lugares, a particularidade deste COVID 19 é que ele CONVIVE de forma muito democrática com todos. Numa verdadeira declaração universal, não escolhe idades, sexo, pertença a grupos sociais, políticos ou religiosos. Na visão planetária da Johns Hopkhins[1], os pontos luminosos mancham grande parte do globo. O COVID 19 não é uma questão de outros, longe e diferentes de nós; é de cada um de nós.

Vem-me à memória A Peste escrita por Albert Camus, escritor franco-argelino, em 1947. A uma determinada altura, o médico Rieux, face à peste que afeta Oran, cidade da costa argelina, afirma que só saberemos o que é a peste quando colocarmos num estádio as pessoas que amamos e as virmos a morrer. Hoje sabemos que a questão é nossa, individual e globalmente, porque existe um rosto conhecido ou que fala a mesma língua.

Depois da vertigem das estatísticas diárias, dos números dos infetados, dos mortos, surgem outras estatísticas premonitórias de catástrofes como as da economia (níveis de desemprego, lay off de empresas) ou sociais (desgastes afetivos familiares, taxas de divórcio de um pós que ainda não aconteceu), sem que tenhamos “cintos de segurança” para nos dar alguma estabilidade para aprender a viver na incerteza do desempenho do COVID 19.

Ocorre-me neste contexto que as respostas devem ser tão desconcertantes quanto o COVID 19. Uma resposta que implica colocarmo-nos temporariamente em modo “pausa”, para repousar e acalmar os medos, os ruídos; para observar e encontrar, sem certezas, mais do que uma solução definitiva, mais do que o caminho para o destino final, uma forma de caminhar. Mais do que o destino, a caminhada. É aqui que entra a responsabilidade.

A palavra “responsabilidade” vem do latim e significa “estar apto a dar resposta”. No contexto internacional de intervenções sociais, em que a FEC atua em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, o COVID 19 convive com as pessoas de uma forma diferente e adensa as desigualdades na proteção, no acesso a cuidados. Se o desempenho do COVID 19 é democrático e universal, as formas humanas para aceder ao cuidado, ao acesso a cuidados de saúde não o são. O COVID 19 intensifica a realidade existente: contextos frágeis cujas oportunidades estão confinadas e limitadas serão agravados.

A FEC trabalha em rede com parceiros de várias nacionalidades. O receio apresentado pelos nossos parceiros em Angola, Guiné-Bissau, Moçambique é como fazer face a este vírus silencioso e invisível, sem condições para o confinamento, com serviços de saúde frágeis e em muitos casos inacessíveis para as pessoas. Como nos referem os nossos parceiros, para além destas questões, juntam-se outras: “como fazemos para sobreviver?” Como fazem as organizações de apoio social sem fins lucrativos para fazer face a situação?

No meio das pandemias, catástrofes, há sempre um ponto de luz. Entre outros, referimos a Fundação Calouste Gulbenkian e a Misereor, que quiseram fazer parte da solução e caminhar em conjunto com as organizações sociais, quiseram e fizeram em tempo útil e de forma rápida, conscientes que a sua missão é central para as sociedades em que atuam. Nos Projetos Tchovar, Somos Moçambique, Emangulunko, Cultura em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, estas duas organizações assumiram encargos de recursos humanos ligados aos projetos. Ponto de luz para conferir serenidade para desenhar intervenções e formas de estar nestes países face ao COVID 19.

Agradecemos à Fundação Calouste Gulbenkian e à Misereor pelo ato concreto, ponto de luz. Neste ato de responsabilidade social, sentimos que estamos todos mais focados para caminhar, ainda que o terreno seja incerto.

Catarina Lopes – Departamento de Cooperação para o Desenvolvimento a FEC

[1] https://gisanddata.maps.arcgis.com/apps/opsdashboard/index.html#/bda7594740fd40299423467b48e9ecf6

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